Raphael Silva Fagundes

03 de dezembro de 2019, 00h35

O combate à esquerda como desculpa para massacrar o povo

Raphael Fagundes: “A ideologia da bipolaridade política vai servir de plataforma para legitimar o uso da força bruta contra o povo”

Foto: Adonis Guerra/Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Como o governo Bolsonaro reagiria a manifestações da dimensão das de 2013? Decretaria o A-I5? As pessoas tomaram as ruas há seis anos em busca de melhores condições sociais e eficiência do serviço público sem medo de um fechamento do governo, sem medo dos tanques tomarem as ruas. Hoje, a situação parece ser outra.

É fato que não é difícil encontrarmos um cidadão que se denomina de esquerda assistir tudo ir por água abaixo, corrupção, preços altos, dólar a 4,20 e sorrir, satisfazer-se em dizer em um mero regozijo, um “eu avisei”. Grande parte dos eleitores de Bolsonaro por seu turno ainda acredita que fez a coisa certa, já que a outra opção seria o PT. Eles defendem Sérgio Moro e o presidente, acreditando em suas declarações absurdas e estão seguros de que o maior inimigo do país é a esquerda.

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Contudo, as medidas ultraliberais do governo estão se alastrando como uma doença venérea, contraída após o prazer. Depois da euforia do primeiro ano do “mito”, os sintomas já começam a aparecer. Os trabalhadores já estão sentindo as consequências no preço dos combustíveis, da carne, do dólar. Percebe-se cada vez mais que os investimentos não estão chegando e as filas nos hospitais, a falta de materiais nas escolas, são problemas que se avolumam.

A suspensão dos direitos trabalhistas, que desembocará em uma precarização ainda maior da mão de obra, ainda não está completa, mas quando estiver, com fim do 13° salário, férias remuneradas, quando os servidores perderem a estabilidade, o cenário agravará e, provavelmente, as ruas vão encher novamente.

Lula solto tem uma função

Para exercício de especulação vale fazer a seguinte pergunta: será que a soltura de Lula não faz parte de uma estratégia para deslegitimar a insatisfação popular? Lula vai convocar (já vem convocando) as pessoas para manifestações; o que servirá de pretexto para o governo classificar a insatisfação popular contra as medidas ultraliberais como um movimento de esquerda.

Essa estratégia convencerá os antiesquerdistas fanáticos? Possivelmente. Trata-se de um argumento útil para esvaziar os movimentos e colocar os oprimidos contra si mesmos, como tantas vezes se fez no passado. Pode dar motivos, numa situação catastrófica, para colocar os tanques nas ruas. O cenário é muito adverso do de 2013, quando não havia um discurso ameaçador proferido pelo governo, embora a repressão não tenha sido usada com parcimônia.

É evidente que as Forças Armadas no contexto atual estão mais interessadas em manter o governo que a democracia. Naqueles dias, todavia, elas já não estavam tão satisfeitas com o PT. O projeto ultraliberal já havia seduzido as instituições do país.

A ideologia da bipolaridade política, portanto, vai servir de plataforma para legitimar o uso da força bruta contra o povo. Dir-se-á que se trata de um combate contra a esquerda, mas na verdade será uma ação violenta contra a insatisfação popular decorrente da política econômica ultraliberal. Será o Estado contra o povo, por trás do argumento antiesquerdista. Nada de novo no front! Ver pessoas caindo em argumentos tão batidos como este é a prova de que velhas técnicas de dominação permanecem vivas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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