Raphael Silva Fagundes

03 de fevereiro de 2020, 23h48

O declínio da velha ordem capitalista: o fascismo e o gozo impotente

Leia na coluna de Raphael Fagundes: "O que assistimos hoje é um declínio da ordem capitalista neoliberal que surgiu nos anos 1980. E as forças que defendem esta ordem estão se movendo em prol da persistência. Adotaram o fascismo tradicional somados a técnicas que usam das redes sociais para espalhar sua ideologia"

Reprodução

O capitalismo não é capaz de fornecer ferramentas ideológicas eficientes para impedir o avanço do socialismo. Por isso, a burguesia vem se aliando ao pensamento conservador de cunho fascista para poder produzir argumentos ideológicos vibrantes. Do casamento entre a burguesia e o fascismo, nasceu o fascismo neoliberal.

O governo Bolsonaro e os governos de direita que vem brotando pelo mundo afora nada mais são do que a constatação deste fenômeno. A sociedade de consumo está se exaurindo e formas de vida que propõem um convívio mais harmonioso com o meio ambiente, com o diferente e até mesmo entre as classes sociais (tendo em vista uma redução das desigualdades), vem ganhando espaço nas sociedades de capitalismo avançado.

A extrema direita que subiu ao poder representa o último suspiro do mundo anterior, como fizeram as elites barrocas medievalizantes e as elites (agrárias e burguesas) dos finais do século XIX que lutavam pela persistência da tradição protagonizando as duas grandes guerras mundiais.

O espelho do passado

Esse procedimento não foi uma invenção da burguesia. É mais farsa que tragédia. As elites senhoriais do século XVII, destaca José António Maravall, promoveram o barroco como respostas às transformações decorrentes do Renascimento, buscando incluir os novos grupos sociais dentro da antiga ordem.[1] O barroco trouxe a retórica para o primeiro plano das artes da expressão e buscou por meio de uma ação psicológica manter a ordem medieval.

Já no início do século XX vemos uma forma mais brutal de manutenção da tradição. De acordo com o historiador Arno Mayer, a Primeira Guerra mundial foi a luta pela permanência da antiga ordem e não pelo fortalecimento do capitalismo industrial. E “após 1918-1919 as forças da permanência se revoltaram o suficiente para agravar a crise geral da Europa, promover o fascismo e contribuir para a retomada da guerra total em 1939”.[2] É lógico que na Segunda Guerra a burguesia se aderiu à tradição para impedir o avanço de algo ainda mais moderno, o comunismo. Os nazistas, por exemplo, chamavam os valores modernos de “bolchevismo cultural”, algo similar ao “marxismo cultural” de hoje.

No entanto, nem as elites medievais conseguiram sobreviver às transformações desencadeadas pelo Renascimento e nem o fascismo conseguiu conter a explosão do crescimento capitalista.

O declínio da antiga ordem capitalista

O que assistimos hoje é um declínio da ordem capitalista neoliberal que surgiu nos anos 1980. E as forças que defendem esta ordem estão se movendo em prol da persistência. Adotaram o fascismo tradicional somados a técnicas que usam das redes sociais para espalhar sua ideologia.

O consumismo se tornou insuficiente. O fetichismo da mercadoria pertence ao ápice do capitalismo, isto é, a uma outra época. A farsa da meritocracia vem sendo desvendada. E a uberização da classe trabalhadora veio para mostrar a verdadeira face do capital, acirrando o conflito entre este e o trabalho.

Ao adotar o fascismo, as elites buscam esconder a verdadeira face dessa estrutura por meio de uma ideologia fascinante que produz um falso poder para os impotentes estiolados por conta do que deles foi arrancado. O ódio à esquerda, ao politicamente correto etc., dá poder àqueles que estão perdendo direitos democráticos e trabalhistas conquistados nas lutas históricas. Preenche-se o vazio da perda com um discurso que dá ao indivíduo poder, mesmo que falso, improdutivo, mas que, ainda assim, gera prazer.

A lenda teológica mostra que Deus esperou que Adão adormecesse para tirar uma de suas costelas e criar a primeira mulher, Eva. Não queria que Adão sentisse dor, portanto, esperou o momento em que ele estivesse anestesiado. A sociedade que se seguiu foi a de dominação (inclusive política) do homem sobre a mulher, esta, por sua vez, tornou-se apenas objeto de prazer do homem, tanto social quanto sexual. Aliás, “o gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político tem sido concebido, legitimado e criticado”.[3]

O fascismo é o anestésico usado pelas elites para arrancar os direitos dos trabalhadores. O prazer criado pelo falso poder de ver o outro, o contrário, o diferente etc., sendo massacrado, separa os que podem e os que não podem. É a apropriação do gozo de que fala Joel Birman onde uns são proibidos de ter direito ao gozo, para que outros gozem livremente.[4] Tudo isso serve de óbice para ocultar a verdadeira política econômica adotada pelo governo: o ultraliberalismo.

Por isto é um erro condenar ou depreciar o “pobre de direita”, pois o discurso fascista chega à ele preenchendo o vazio provocado pela radicalização do capital (não é a toa que ele vem aliado com o discurso religioso). Um discurso que dá a ele poder e direito ao gozo. Torna-o impotente para transformar o sistema ou melhorar sua própria vida, mas lhe dá prazer ao ver a mulher voltar à cozinha, o gay sendo humilhado, o detento torturado e os terreiros de candomblé depredados. Trata-se de um poder sobre o corpo da mulher, do gay e do detento, e da alma do não-evangélico.

Mas tudo não passa de uma reação brutal e eloquente contra o novo que há de se impor inevitavelmente. Talvez esse movimento das direitas (como o das elites conservadoras de outrora) represente um ponto de inflexão na história do capitalismo: sua renovação ou sua derrocada. Seja como for, ainda que a exploração do homem pelo homem permaneça, uma forma mais sustentável de se relacionar com a natureza será imprescindível, assim como o estreitamento do poço que separa os ricos dos pobres.

[1] MARAVALL, José A. A cultura do Barroco. São Paulo: EDUSP, 2009, p. 334.

[2] MAYER, A. A força da tradição. São Paulo: Cia das Letras, 1987, p. 14.

[3] SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade. vol 20, n. 2, pp. 71-99, jul/dez, 1995, p. 92.

[4] BIRMAN, J. Cadernos sobre o mal: agressividade, violência e crueldade. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 244.


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