Raphael Silva Fagundes

11 de fevereiro de 2020, 23h40

O Estado mínimo é mais utópico que o comunismo

Raphael Fagundes: “A mais-valia foi extinta em vários países socialistas, pois os ganhos sociais foram canalizados para os bens públicos”

Paulo Guedes - Foto: Reprodução/SBT

É comum os liberais acusarem o comunismo de algo que não deu certo. Os mais rudes dizem até mesmo que ele não dá certo de jeito nenhum. É impraticável.

Podemos dizer, por um lado, que o comunismo, na prática, ainda não se realizou. Mas algo de sua teoria se concretizou, como veremos adiante. O “socialismo real” foi prejudicado por uma guerra mundial, embora Stalin tenha conseguido vencê-la e promover uma tecnologia que levou o homem ao espaço poucos anos após sua morte.

Por outro lado, o liberalismo, essa ideia tão valorizada pela burguesia, nunca existiu na prática. O historiador Gregory Claeys lembra que “embora costumemos associar isso [a utopia] ao socialismo moderno, seria errado omitir o liberalismo dessa questão”. Por mais que se contrapõe ao socialismo, afirmando-se, inclusive, como sendo antiutópico, o sonho de um Estado mínimo nunca se realizou. O maior exemplo é a guerra comercial entre EUA e China. Não temos muito a criticar em relação à China, mas a maior potência capitalista deveria deixar o mercado se autorregular. Mas não é o caso.

Claeys enumera quatro pontos que revelam a face enganosa do discurso liberal: a) o liberalismo em si representava uma visão utópica da opulência universal; b) uma visão futura deficiente de um mundo melhor; c) a promessa de uma democracia idealizada, “baseada na soberania popular”, contudo, “não conseguiu evitar o domínio dos poucos sobre os muitos”; d) a maximização da liberdade gerou o egoísmo e a avareza, “que muitas vezes denigre a ‘sociedade’, ou a existência de qualquer bem coletivo ou público”. (1).

O socialismo, de certo modo, alcançou muito mais de sua utopia que o liberalismo. A mais-valia foi extinta em vários países socialistas, pois os ganhos sociais foram canalizados para os bens públicos, caso contrário, a URSS jamais conseguiria chegar ao espaço.

Os dez pontos determinados por Marx e Engels no Manifesto Comunista foram cumpridos. (2). Da “expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado” à “educação pública e gratuita para todas as crianças”. Por mais que houvesse uma liderança, uma burocracia soviética, a lógica econômica se baseava na distribuição da produção entre os trabalhadores, ou seja, não havia lucro, isto é, mais-valia.

A ideia de que o socialismo defende a utopia de que todos devem ser iguais é uma falácia. Marx criticava o “ascetismo universal e o igualitarismo tosco” dos primeiros movimentos operários. Stalin, por seu turno, dizia: “Por igualdade, o marxismo entende não já o nivelamento no campo das necessidades pessoais e das condições de vida, mas a destruição das classes”. (3).

É lógico que a prática é extremamente adversa da teoria, mas o socialismo realizou muito mais o que propõe sua teoria do que o liberalismo, transformando a relação capital/trabalho em uma nova relação social de produção, alterando o ciclo do investimento e do produto do trabalho.

O liberalismo apenas racionalizou as relações sociais de produção que vinham emergindo após os cercamentos ingleses. Essa racionalização permitiu a ascensão da burguesia, que colocou os seus interesses econômicos na frente da moral cristã. Desse modo, fez as revoluções que a colocou no poder.

A partir de então Estado e economia nunca se desvencilharam. Complementam-se no controle social para permitir a maximização dos lucros. A teoria do Estado mínimo nunca se realizou. Nem uma fagulha da chama fervorosa que agitou o século XIX chegou a esquentar o mundo real. Tudo não passa de uma utopia.

Lógico que não é uma imaginação, uma ilusão, mas um desejo de se criar algo inexistente. Contudo, esse desejo ficou apenas em âmbito utópico, irrealizável. Não é nada baseado em mito ou religião, nenhum Deus interfere em seu projeto. É algo criado pelos humanos para controlar o seu próprio destino. Mas que nunca vimos. Moisés, Cristo e Maomé são mais tangíveis do que o liberalismo. Governos se pautaram mais nas visões destes homens do que no que o liberalismo propõe.

Enfim, o liberalismo não é uma proposta tangível. O plano econômico de Paulo Guedes é de massacre à classe trabalhadora para o benefício da classe parasitária, a classe dominante. Até o “superministro” da economia precisou do Estado para fomentar o “pibinho” de 2019, liberando quinhentos reais para os trabalhadores poderem consumir. Sejamos francos, o liberalismo é mais utópico que o comunismo…

(1)CLAEYS, G. Utopia: a história de uma ideia. São Paulo: SESC, 2013, p. 10.

(2)Veja Marx e Engels. Manifesto do partido comunista: São Paulo: Martin Clarear, 2006, p. 66-67.

(3)LOSURDO, D. Stalin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Renan, 2010, p. 59.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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