Raphael Silva Fagundes

23 de janeiro de 2020, 23h56

O fascismo neoliberal ou o neoliberalismo fascista?

Raphael Fagundes: "Bolsonaro e seus lacaios usam do mesmo procedimento, uma tática nazista, totalitarista, para promover o projeto econômico ultraliberal (que é a radicalização do neoliberalismo), ainda que antiliberal nos costumes"

Jair Bolsonaro - Foto: Reprodução/Youtube

A elite tradicional conseguiu inventar um fenômeno político curioso para fazer valer os seus interesses: uma espécie de fascismo neoliberal ou (o que seria mais bizarro) de neoliberalismo fascista. Uma situação histórica peculiar. Se o Leviatã de Hobbes buscava o medo, essa nova monstruosidade busca o ódio, o regresso e a violência.

Mussolini dizia que “espiritual ou materialmente não existiria qualquer atividade humana fora do Estado, neste sentido o fascismo é totalitário”. O que vemos hoje, com mais clareza no Brasil, é o Estado fazer questão de estar em diversos setores “espirituais” (igrejas, artes, educação, imprensa etc.), mas em relação à economia (“materiais”) propõe uma política neoliberal.

Mas será que é verdadeiro esse projeto dualista do Estado? De acordo com o economista Marcelo Manzano, o “pibinho” acima de 1% só foi possível com uma dose extra de keynesianismo: “para dar fôlego político ao projeto de radical desmonte do setor estatal, [Guedes] abusou do Estado e decidiu dinamizar a demanda entregando os parcos recursos do FGTS para as famílias encalacradas do andar de baixo”.[1]

Portanto, o governo Bolsonaro precisou controlar até os setores “materiais” (econômicos), tornando-se totalitário, fascista, para conseguir apoio popular. Contudo, o fascismo do entreguerras usava o Estado para fortalecer o Estado, não para demoli-lo.

O historiador inglês, Eric Hobsbawm, nos lembra que no período do esplendor fascista, “nenhum único regime que pudesse ser chamado de liberal-democrático foi derrubado pela esquerda”.[2] Aliás, nem a revolução de Che Guevara e Fidel foi contra um governo liberal-democrático, mas contra a ditadura de Fulgêncio Batista. A direita foi quem sempre ameaçou a democracia liberal.

Hoje ela decidiu ameaçar mais a democracia que o sistema econômico liberal. O que nos leva a uma indagação curiosa: o fascismo precisa do neoliberalismo para se impor ou o contrário?

Dificilmente uma radicalização liberal seria bem-sucedida sem um trabalho ferrenho sobre a ideologia. Uma semelhança curiosa com o período entreguerras é que os fascistas acreditavam que a emancipação liberal era denunciada por promover uma corrosão dos valores, desconfiavam “das artes modernistas, que os nacionais socialistas alemães descreviam como ‘bolchevismo cultural'”.[3]

Bolsonaro e seus lacaios usam do mesmo procedimento, uma tática nazista, totalitarista, para promover o projeto econômico ultraliberal (que é a radicalização do neoliberalismo), ainda que antiliberal nos costumes.

Mas se não fosse para promover o neoliberalismo extremado, as elites econômicas não apoiariam o fascismo, visto por elas como o único capaz de consolidar tal projeto. Ou seja, uma mão lava a outra. Os ultraliberais promovem o fascismo na política e os fascistas usam do Estado para promover o ultraliberalismo. É funcional. Agrada-se a ânsia de poder de uns e os interesses econômicos de outros.

É possível que depois que o projeto ultraliberal esteja praticamente consolidado, a direita não fascista assuma o cargo, expulsando os radicais.

É um projeto covarde e imoral. No Rio de Janeiro, laboratório do fascismo brasileiro, tivemos a censura na bienal do livro e hoje a população consome uma água suja e fedorenta, contudo nenhuma manifestação popular de grande expressão tomou as ruas. Os hospitais foram sucateados, as favelas vivem em Estado de guerra constante e não vemos mobilização popular. As massas estão sendo lentamente controladas pelo projeto ideológico fascista. A mídia por seu turno denuncia, mas as autoridades dizem que a imprensa mente. O povo fica indeciso, estático, idiotizado.

O presidente já disse que não vai mais dar entrevistas. Uma tática que visa mais defender o seu governo que esclarecer o cidadão. Quais serão os limites desse fascismo neoliberal? Será a esquerda o antídoto como foi outrora? O fato é que sem a mobilização popular será impossível.

[1] MANZANO, M. Um ano de ultraliberalismo de coturno e pés de barro. Le monde diplomatique Brasil, ano. 13, n. 150, jan, 2020, p. 20.

[2] HOBSBAWM, E. A era dos extremos. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 116.

[3] Id. P. 121.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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