Raphael Silva Fagundes

27 de agosto de 2019, 22h12

O homem que engravidou Maria (parte 2)

Raphael Fagundes: “Enquanto Francisco fazia estas reflexões naquele beco escuro e silencioso, homens desceram de um furgão preto, amarraram-no, vendaram o professor e o jogaram no carro”

Foto: Reprodução

Francisco cogitou ir à UARJ, Universidade Americana do Rio de Janeiro, entrar em contato com conhecidos, mas era arriscado demais porque os reitores de todas as universidades brasileiras não passavam de interventores, vigias que regulavam a produção e a pesquisa acadêmica. Por sua vez, sua casa não seria um lugar seguro, sendo assim, decidiu ir ao apartamento de um de seus amigos, também professor universitário.

O céu escureceu mais cedo. A imprensa anunciava que o país estava passando por um período de queimadas. Era o Dia do Fogo. Os fazendeiros mais vis e sujos incendiavam a Amazônia, convertendo o que já fora considerado Paraíso em um inferno governado por um presidente que os evangélicos acreditavam ter sido escolhido por Deus.

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Snipers posicionavam-se estrategicamente nos edifícios e pontes da cidade. Queriam mirar na cabeça de Francisco e atirar. A essa altura, o governo já o enquadrava na categoria de terrorista, principal mentor dos Sicários Vermelhos.

Aquela escuridão era inimiga da natureza e da saúde humana, mas minha companheira. Pelos cantos incolores de odores intragáveis, ele tentava chegar o mais rápido possível ao prédio de Adolfo, professor de teologia, ex-ministro da Religião, uma das pastas mais importantes do governo.

– O que você está fazendo é heresia. Você sabe, não é? – disse Adolfo, após permitir que Francisco entrasse em seu lar.

– Mas você sabe que não se trata disso.

– Nós somos uma família cristã – ele apontou para sua esposa e seus filhos que estavam jantando. – Espere Maria, não precisa sair – disse à mulher que se levantou assim que viu Francisco que, por sua vez, continuou a conversa no corredor que dava acesso a porta por onde havia entrado:

– Você sabe muito bem que Mateus e os que o antecederam, em resposta aos boatos sobre a ilegitimidade do nascimento de Cristo buscaram justificativas em Isaías 7:14.

– Sim, eu sei.

– E que Mateus narrou a história de Cristo de forma bem elaborada para que tudo se encaixasse nas profecias da Bíblia Hebraica.

– É…

– Então, qual é a dificuldade de entender que a realidade pode ter sido diferente da narrativa cristã? Que Maria teve um amante? O Novo Testamento foi escrito por pessoas que queriam disseminar o cristianismo e, para isso, lançaram mão de estratégias retóricas capazes de convencer o seu público.

Mateus forjou uma conexão entre a história de Jesus e a de Moisés. Herodes seria o faraó; a fuga para o Egito, em uma lógica invertida; subir no monte para pregar os fundamentos da fé etc. Era uma questão epistemológica. Se os judeus não acreditassem em tudo que estava sendo dito, estariam indo contra os escritos hebraicos.

Portanto, Mateus os chama de demônios e cria uma rivalidade entre Jesus e os fariseus. Daí os cristãos passaram a odiá-los, e a tratar os judeus como os autores da execução de Cristo, inocentando os romanos, os verdadeiros carrascos. Enfim, tudo é fruto da narrativa e não de fatos.

Francisco lançava aquelas palavras para seu colega de trabalho (não muito íntimo, diga-se de passagem), um grande estudioso da Bíblia que sabia, portanto, que tudo fazia sentido. Mas ainda sim exclamou:

– Eu não posso acreditar em tudo isso. Você está abalando as estruturas da maior fé religiosa. Melhor você sair daqui! Agora!

Nesse momento, passava na TV uma declaração do presidente da República sobre Francisco: “Nós vamos acabar com esse cocô”, concluía o discurso presidencial.

A essa altura, a esposa de Adolfo já havia denunciado o visitante inconveniente. Percebendo que aquele lugar se apresentava cada vez mais hostil, decidiu sair. Do lado de fora, as luzes dos drones o contavam por onde não devia passar. Parou em um beco para refletir sobre os seus próximos passos. Era possível ver as chamas subirem a um quarteirão. Um centro de candomblé pegava fogo. Dava para sentir o cheiro da pele esturricada. “Os fundamentalistas atacaram mais uma vez”, pensava Francisco. Estavam à flor da pele após sua descoberta.

Os outdoors eletrônicos anunciavam as manchetes dos jornais. Além de procurar Francisco, o governo adota uma medida radical: extingue o Ministério da Educação e passa tudo que era da alçada desta pasta para o Ministério da Religião. Pior que o fascismo, somente uma teocracia.

Enquanto Francisco fazia estas reflexões naquele beco escuro e silencioso, homens desceram de um furgão preto, amarraram-no, vendaram o professor e o jogaram no carro. Era só o que faltava.

Vozes e um emaranhado de sons adversos desorientavam Francisco, mas pelo cheiro de maresia, julgava estar próximo do mar. Um galpão nas docas do porto da cidade era o esconderijo dos Sicários Vermelhos. Parecia uma cena tirada de um filme de ação dos anos 1980. Homens armados, cheiro de gasolina e cigarro. Uma mulher emerge entre os homens.

– Então você é o professor que descobriu o pergaminho que trata do primeiro homem que engravidou Maria?

Um rapaz franzino tirou a venda dos olhos do professor que se depara com a mulher de cabelos negros encaracolados.

– Sim. – Francisco respondeu com a voz trêmula.

– Nós somos os Sicários Vermelhos e pretendemos acabar com essa ditadura que se instalou no país. E, pelo que vejo, você não tem muita escolha a não ser se unir a nós…

– Mas eu não sou um terrorista. – disse Francisco.

– E nós também não. – disse a mulher empoderada, após um sorriso sarcástico. – Sua descoberta atiçou ainda mais os nervos do governo que decidiu radicalizar-se. E, embora não sejamos terroristas, porque não usar um pouco de terror contra o terrorismo do Estado?

– Tudo que fiz foi científico, não tive nenhum interesse político. Meu amigo Charles e eu dedicamos anos de pesquisa, escavações, enfim. Foi trabalho e suor, entende?

– Nós sabemos que você não tinha interesse político algum, tanto que foi parar na casa de Adolfo, um reacionário. O que você ainda não percebeu, é que esse governo criou uma Inquisição contra a ciência. Rejeita dados científicos, tira dinheiro da educação para pagar emendas parlamentares de deputados que votam em suas propostas. Quer mais exemplos?

– Ok. Já entendi.

– Você passou muito tempo fora, professor. Não sangrou como nós nesta terra.

Francisco olhava para a moça imóvel, empedernido.

– Você quer divulgar sua pesquisa, não quer? O único caminho para isso somos nós. As universidades e a maior parte dos veículos de comunicação estão sendo controlados pelo governo. Jornalistas contrários à situação são despedidos. Além disso, os investidores faturam milhões com o mercado evangélico, portanto, jamais deixariam essa informação circular na imprensa. Precisamos disseminá-la nas redes sociais, através da mídia independente, memes, vídeos etc. Nós temos uma imensa cadeia que pode promover essa circulação…

As palavras de Vanessa se fundiam com o interesse de Francisco em cumprir a promessa que fez a si mesmo: de divulgar sua pesquisa em honra a seu amigo, que a violência estatal havia matado.

– Mas ainda estaríamos submetidos a uma forte vigilância pela agência de inteligência do governo. Além disso, como vamos fazer com que as pessoas acreditem naquilo que elas não querem acreditar? – Francisco pensava em Adolfo quando fez esta indagação.

– Precisamos entrar no cotidiano delas – disse um rapaz com óculos escuros de armação fina. – Dialogar com seus outros valores incontestáveis, mostrar que o que parece estranho, na verdade, é habitual. Que elas mesmas sempre contestaram a veracidade de uma mulher poder engravidar de um Espírito, como as mães dos heróis da mitologia grega que hoje não passam de histórias para as crianças e alimentos para as séries de TV.

– Precisamos atingir a ideologia de baixo. Gerar dúvidas. Pois sabemos que as pessoas não acreditam mais no fato em si, nos números etc. É pela retórica que convenceremos a massa – disse Vanessa confiante.

– Ou seja, existe um conflito entre o fato e a narrativa, como no período em que o Novo Testamento foi escrito – disse Francisco, vislumbrado por detectar a repetição de um padrão de milênios atrás.

– Um dia a verdade atingirá as pessoas, fazendo a elas o bem ou o mal. E a verdade é sempre revolucionária. – disse um homem calvo, com uma barbicha rala de terno cinza.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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