Raphael Silva Fagundes

12 de agosto de 2019, 23h03

O louco e o palhaço: a imbecilização da retórica política

Raphael Fagundes: “Parece que o louco do conto de Machado de Assis e o palhaço de Tobias Barreto se encontram no cargo máximo do executivo brasileiro”

Foto: Reprodução

Toda vez que há uma crise no governo, Bolsonaro usa sua metralhadora de asneiras para resgatar o seu eleitorado. Idolatra torturadores, demoniza a esquerda, fala palavrão, além de outros absurdos que povoaram a imprensa nos últimos dias.

A estratégia é retórica e tem o objetivo de falar imbecilidades para imbecilizar o ouvinte. Enquanto para uns soam como absurdos, para outros (seus eleitores), as asneiras ditas pelo presidente soam como comicidades. Exemplo disto é a questão dos problemas ambientais. Para Bolsonaro, a solução seria simples: “fazer cocô dia sim, dia não”.

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Vivemos na era da imbecilização retórica. Os intelectuais lembram de Sérgio Buarque de Hollanda para ressaltar que o brasileiro abandonou a característica de homem cordial, mas prefiro lembrar de um “gosto” que o brasileiro perdeu e que o sociólogo também tratou, o “amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara” (1).

Essa característica do brasileiro se foi. Hoje, pelo menos 30% do eleitor brasileiro, gosta de ouvir o que é absurdo. Essa estratégia desvia o ouvinte do conteúdo da fala (como o excesso de engodos em alguns casos). No caso das declarações de Bolsonaro, a oposição se choca com o absurdo, já a base de sustentação do governo se regozija em gargalhadas. Tal estratégia, portanto, imbeciliza todos os extremos do espectro político, pois todos acabam se tornando vítimas da forma.

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A oratória era tida como um espetáculo público no Brasil oitocentista. Sílvio Romero dizia que: “as peças oratórias eram escritas para ser recitadas, mas eram-no com verdadeiro entusiasmo. O povo, que nada lia, era ávido por ouvir os oradores mais famosos (…). Não havia divertimento público como hoje; o teatro era nulo; as festas de igreja eram concorridíssimas”.

Hoje, com diversos divertimentos disponíveis, ela continua sendo um espetáculo. Entretanto, se sobressai, não mais quando é formosa, ou quando esbanje erudição, mas quando é estúpida, ridícula e absurda. Todavia, a finalidade de ocultar o fato (maneira negativa de fazer uso da arte de persuadir), de ludibriar, funciona da mesma maneira, implacavelmente.

Àquela época, existiam críticos desta prática, como Machado de Assis que, em O Alienista, enclausurou o primeiro louco por ser “eloquente demais”. Tobias Barreto criticava a maneira como os parlamentares utilizavam a eloquência comparando os oradores a palhaços.

Buarque de Hollanda dá sequência a sua análise. “É que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, a inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e de ação”. Se, pelo menos, saíssemos do culto à fala como sinal de inteligência e passássemos a entender a inteligência como conhecimento e ação, estaria ótimo. No entanto, saímos do culto do bem falar para o culto da fala imbecilizada, chocante e espalhafatosa.

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Como dizia Cornellius Castoriadis, “a própria classe dominante está em situação de alienação”. Ela se aliena para poder alienar o outro e, assim, as ideias dominantes são sempre as ideias das classes dominantes. Se há um projeto de imbecilização do povo, como acredita Jessé Souza, é porque as classes dominantes também são imbecilizadas. E Bolsonaro caiu como uma luva nesse processo, já que desempenha muito bem esse papel. Na verdade, ele sempre esteve ali (quase 30 anos de deputado), mas agora foi acionado devido à imbecilização das classes dominantes e da necessidade de imbecilizar a classe média.

Parece que o louco do conto de Machado de Assis e o palhaço de Tobias Barreto se encontram no cargo máximo do executivo brasileiro, usando da fala para esconder os problemas sociais e ambientais da maneira mais asquerosa, pela imbecilização.

(1)HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995. p. 83.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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