sexta-feira, 25 set 2020
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O povo se cala perante o pânico, enquanto Bolsonaro e a mídia escondem o verdadeiro culpado

O filósofo Jean-Paul Sartre escreveu: “Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem a ver com a coragem”. Mas, por longos anos, a Igreja tinha o monopólio do medo oficial e afirmava que “os lobos, o mar e as estrelas, as pestes, as penúrias e as guerras são menos temíveis do que o demônio e o pecado, e a morte do corpo menos do que a da alma”.[1] Ou seja, todos estes males tinham um causador, o Satã.

Zygmunt Bauman acredita que este medo oficial, o qual digladiava com o riso subversivo observado por Bakhtin, perdeu-se, desmanchou-se no ar. “O indivíduo foi liberado para construir os seus próprios medos”.[2] “É como se o poder tivesse escolhido o riso como seu abrigo mais seguro”. Trata-se de um poder que gera gozo constante.

Mas o medo ainda gera prazer – e poder, consequentemente. Vivemos, inclusive, como destaca o sociólogo Barry Glassner, em uma “cultura do medo”, na qual um tipo de medo é fabricado para esconder os problemas sérios, os causadores reais das mazelas sociais. Qualifica-se a criminalidade, o consumo de drogas, o “politicamente correto” como razões para a pobreza e para a degeneração moral para ocultarem a desigualdade social. Como diz Glassner, “tememos as coisas erradas”.[3]

Como dizia Nixon, “as pessoas reagem ao medo, não ao amor”. Foi isso que elegeu Bush, Trump e recentemente, no Brasil, Jair Bolsonaro. O medo fabricado pela mídia o qual culpabilizava o petismo, a esquerda, a corrupção etc., como as raízes dos nossos problemas, serviu para esconder atrás de um véu alienante a verdadeira causa, a concentração de renda.

Esse medo pariu Bolsonaro (embora não fosse o ideal para a mídia psdebista) e é este mesmo medo que sustenta seu governo. Mas o que aconteceria se este medo oficial, fabricado, exaurisse-se? O que iria nutrir Bolsonaro e sua corja da extrema direita?

É por isso que, em tempos de coronavírus, um medo muito mais real que o fabricado pelo governo, o presidente brasileiro menospreza tanto a dimensão epidêmica da doença. Contesta-se os fatos para se ter o controle do medo. Diz que o povo está sendo enganado, que o Covid-19 não passa de uma “gripezinha”. Na verdade, Bolsonaro teme que o medo que sustenta o seu poder, o medo falso, seja suplantado pelo medo real.

Este medo real pode trazer à tona a desigualdade social, o desprezo pela saúde pública, provocado, principalmente, pela política neoliberal de sucateamento do Estado. Este medo real pode colocar em risco o corte de gastos, medida que expõe, sem engodos ideológicos, a verdadeira face do capitalismo.

A mídia, contudo, que não tem nada de santa, vem se dedicando ao máximo para evitar a irrupção de tal visão política, manipulando – como é de praxe – o medo em relação ao coronavírus e despeja a culpa sobre o indivíduo que não lava a mão, que não respeita as recomendações etc., ocultando a responsabilidade do mercado, o grande agente destruidor das políticas públicas e promovedor da ampliação dos lucros.

O presidente, por seu turno, não quer evitar o pânico ao dar suas declarações de alguém que finge estar em um reino encantado, mas manter o monopólio do medo, o medo que o sustenta. Só pode haver um medo, o da esquerda (e das outras terminologias que o presidente associa a esse setor do espectro político).

Este tipo de pânico gera prazer e gozo, diferente do medo real. Por isso é fácil de ser manipulado. Existe o prazer de ver o corrupto preso; o bandido sendo violentado na cadeia; o gay sendo reprimido etc.. Aquele que compartilha do pensamento conservador e reacionário goza com esse tipo de demonstração de ódio. O pânico se transforma em prazer. É fato que a própria palavra “pânico” tem uma origem lasciva. Decorre do fato de as virgens/ninfas/mênades eram acometidas quando o “excitado” e lascivo Pan, com seus desejos animais, queria arrebatá-las. A palavra pânico é derivada de Pan.[4]

Precisamos nos libertar do medo oficial criado pela mídia, tanto o que sustenta o governo Bolsonaro quanto da manipulação que ela faz do medo desencadeado pelo coronavírus. Os dois medos visam esconder as mazelas provocadas pelo mercado que, por sua vez, promoveu o corte de gastos e o sucateamento do Estado para salvar as grandes fortunas.

Como disse Karl Marx “O medo cala a boca dos inocentes e faz prevalecer a verdade dos culpados”. Mas enquanto o povo se cala em meio ao pânico, a mídia e o governo fazem de tudo para esconder o verdadeiro culpado, o setor financeiro.


[1] DELEUMEAU, J. História do medo no Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p. 44.

[2] BAUMAN, Z. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 69.

[3] GLASSNER, B. Cultura do medo. São Paulo: Francis, 2003, p. 27.

[4] HOYSTAD, O. M. Uma história do coração. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 53.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.