Raphael Silva Fagundes

23 de outubro de 2019, 20h09

O que nos impediria de agir como os chilenos?

Leia na coluna de Raphael Fagundes: “Essa imprensa, extremamente partidária, sonha com um presidente empresário, à la Macri e Piñera. Por isso, lança Luciano Huck ou Doria para o cargo de presidente”

Foto: Reprodução

É muito compreensível que todos estejam eufóricos para que ocorra no Brasil o que está acontecendo no Chile, no Equador, ou, até mesmo, no possível retorno do campo progressista, como o que está prestes a acontecer na Argentina. Mas os conservadores no Brasil adotaram táticas diferentes que podem atravancar a libertação das classes trabalhadoras.

O primeiro ponto seria a ideologia antiesquerdista desenvolvida por Bolsonaro. Esse instrumento alienante é incrementado pela suposta valorização da família e dos bons costumes. Dessa forma, a demonização do PT e de toda esquerda foi acompanhada pela ascensão dos neopentecostais, grupo que se alastra epidemicamente pelas classes populares. Esses elementos blindam os setores reacionários que hoje estão no poder.

O segundo ponto seria o fato de a mídia tomar para si o papel de criticar o governo atual. A corporação Globo, insatisfeita com o privilégio que as outras corporações midiáticas vêm ganhando, e com o discurso lunaticamente conservador de Bolsonaro e de seus ministros, resolveu fazer oposição ao governo. Contudo, essa oposição pretende colocar no poder um governo mais eficiente no quesito de aplicar a radicalização do neoliberalismo no país, um golpe sobre a classe trabalhadora.

Essa pressão, de uma forma ou de outra, acaba por contaminar as manifestações populares, que se baseiam mais nas informações midiáticas para pautar sua crítica que na realidade em si. A oposição da mídia pretende ainda subordinar a classe trabalhadora aos interesses dos patrões.

Essa imprensa, extremamente partidária, sonha com um presidente empresário, à la Macri e Piñera. Por isso, lança Luciano Huck ou Doria para o cargo de presidente. Ela não critica as medidas de austeridade defendidas pelo governo atual, como o corte de gastos e a Reforma da Previdência, só acredita que está sendo mal administradas. Ou seja, a oposição que faz a Bolsonaro é esdrúxula, mas desperta em alguns grupos a esperança de queda do presidente tão odiado. O canto da sereia esconde a face diabólica do mercado que quer, apenas, locupletar-se às custas das classes trabalhadoras.

Outra questão seria a necessidade de a esquerda promover uma frente ampla, mais ou menos como ocorreu em Portugal. Seria interessante a presença de Joaquim Barbosa nessa frente, devido à imagem que irradia dentro do imaginário político nacional. Contudo, aqui teríamos que ceder a algumas negociações reacionárias. Muito similar com o que acontecerá na Argentina. Se o kirchnerismo voltar ao poder será imprescindível uma coalizão de governo, conciliando interesses em geral divergentes, às vezes até contraditórios (1).

Portanto, é preciso pensar, em meio à euforia, sobre o nosso espaço de experiência e estipular metas capazes de combater a ideologia desenvolvida pelo governo atual (sua viga de sustentação perante o cidadão comum), a atuação da mídia e planejar uma possível unidade (nem que seja momentânea) da esquerda para, assim, almejarmos dias mais claros no nosso horizonte de expectativa.

(1)NATANSON, J. A Argentina mostra que a esquerda não está morta. Le Monde Diplomatique Brasil, out. 2019, p.13.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum