Raphael Silva Fagundes

22 de março de 2020, 18h19

Pastores covardes, cura divina e o mercado religioso

Raphael Fagundes diz que é preciso entender o fenômeno neopentecostal, “pois o estrago político que estes mesmos pastores fizeram no país não pode se repetir agora, em termos de saúde pública”

Jair Bolsonaro e Edir Macedo - Foto: Reprodução/YouTube

“Mais de 60% dos quase 8.200 casos de Covid-19 na Coreia do Sul estão vinculados à Igreja de Jesus Shincheonji, uma organização considerada uma seita por muitas pessoas. Uma de suas adeptas compareceu a quatro cerimônias religiosas na cidade de Daegu, que se tornou o epicentro da epidemia no país, antes de ser diagnosticada como portadora do coronavírus”.

Aqui no Brasil, o bispo Edir Macedo disse que o vírus é tática do Diabo e afirma “ao invés de você ler essas notícias que falam de morte e de quarentena, da epidemia e pandemia, olhe para a palavra de Deus e tome sua fé na palavra de Deus, porque essa, sim, faz você ficar imune a qualquer praga e a qualquer vírus, inclusive o coronavírus”.

Malafaia diz que, embora tenha cancelado os cultos, não vai fechar as suas igrejas, pois acredita que elas são uma agência de saúde emocional, tão importante quanto os hospitais. Valdemiro Santiago, ao falar do coronavírus, mostra passagens bíblicas que afirmam que aquele que tem Deus não cairá e promete um óleo ungido para o próximo domingo.

Esses discursos fazem parte da teologia da cura divina. Essa teologia é norte-americana e foi propagada por Kenneth Erwin Hagin. Dizia que “não é da vontade de Deus que fiquemos doentes”. Os líderes neopentecostais brasileiros seguiram os ensinamentos do estadunidense tão bem que tal teologia parece ter nascido entre nós.

R. R. Soares diz que a fé determinada nos corações era o suficiente para a cura, a Igreja Universal do Reino de Deus utiliza o sal grosso como instrumento mágico. O apóstolo Valdemiro Santiago esnoba os dois dizendo: “Se você não tem fé para ser curado, venha pela minha fé. Aqui você não precisa determinar, não precisa trazer sal grosso, venha pela minha fé”. 

Contudo, o pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus usa duas técnicas de cura divina extremamente arriscadas em tempos de coronavírus: o contato físico e o sopro no rosto. Isso criaria ou ajudaria a propagar a doença?

O pastor Jorge Tadeu diz que a fé “é acreditar que está curado sem ver, nem sentir que está curado […] assim é a cura divina. Depois que fizer a Oração da Fé, a pessoa não precisa sentir nada, nem ver nada. A pessoa sabe que está curada […] Se os sintomas da doença voltarem, ou se tornar a sentir dores, ignore-as […] Não olhe, não medite, não pense, não fale dos sintomas e dores”. 

Há, portanto, um mercado religioso onde os pastores lançam, cada um a seu modo, um produto, e adornam tal produto com uma forte propaganda de marketing, que visa atrair um número grande de consumidores. Os bens religiosos circulam no mercado como as outras mercadorias que consumimos diariamente. 

A enfermidade é vista como uma obra do Diabo e por isso somente o trabalho espiritual poderá curar o fiel. Bem, parece que não deu muito certo na Coreia do Sul. Mas no Brasil esse mercado de bens religiosos é bem pujante, e influenciou claramente as eleições de 2018. Se as vítimas do coronavírus serão, em sua maioria, as favelas, os pastores covardes contribuirão para agravar o quadro. Por isso é preciso entender o fenômeno neopentecostal, pois o estrago político que estes mesmos pastores fizeram no país não pode se repetir agora, em termos de saúde pública.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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