Pela diminuição da atividade econômica!

Raphael Fagundes: “Tudo que há no processo produtivo só interessa ao patrão se puder acrescentar valor, valor este que só pode ser acrescentado se parte do trabalho humano, que está contido na mercadoria, não for pago”

Uma coisa básica que as pessoas precisam saber sobre o capitalismo é que os patrões não estão preocupados com a produção ou com o emprego, mas com o lucro. Quando se diz que um país não pode parar, não se está referindo, por exemplo, à produção de alimentos para sustentar a população, mas ao lucro que se tira do trabalho.

Nenhum objeto tem valor sem trabalho. Isto é, quando compramos alguma coisa, estamos comprando trabalho humano. Se pegarmos uma fruta na árvore para consumir imediatamente, ela não terá valor, mas quando a compramos no sacolão ela precisa custar alguma coisa. Porque é preciso pagar o trabalho de quem a plantou, de quem a colheu, de quem a transportou etc. Nela está contido trabalho humano.

Se em toda mercadoria está o trabalho humano, como alguém que não trabalhou recebe por ela? Os empresários vendem o trabalho de uma outra pessoa. Mas parte desse trabalho não é pago, transformando-se em mais-valia, que é de onde o capitalista tira o lucro. Esse é o raciocínio mais básico para se compreender a mais-valia de Karl Marx.

Tudo que há no processo produtivo só interessa ao patrão se puder acrescentar valor, valor este que só pode ser acrescentado se parte do trabalho humano, que está contido na mercadoria, não for pago.

No sistema capitalista, não há um patrão de bom coração que pensa apenas na necessidade social e humana da produção, pois não seria capitalismo. Em tal modo de produção é necessário levar em conta, em primeiro lugar, o lucro.

O crescimento econômico de um país não está relacionado às condições de seus cidadãos, mas na capacidade de se tirar do mercado mais do que aquilo que se investiu. Ou seja, onde o investidor tira a mais-valia. Essa é a lógica da circulação capitalista. O crescimento econômico está relacionado a mais consumo, mas não quer dizer que todos estão alimentados, pois uma pessoa pode consumir demais e outra absolutamente nada. Mas o PIB deste país, ainda assim, aumentará, mesmo que a miséria também aumente.

Nessa lógica, na qual a cada ano deve-se tirar mais do mercado do que se tirou no ano anterior, os patrões não se importam com os sofrimentos do trabalhador. Vamos resgatar Marx: “O capital, que tem tão ‘boas razões’ para negar os sofrimentos da geração de trabalhadores que o circundam, não se deixa influenciar, em sua ação prática, pela perspectiva de degenerescência futura da humanidade e do irresistível despovoamento final. Tudo não o impressiona mais do que a possibilidade de a Terra chocar-se com o Sol. Todo mundo que especula em bolsa sabe que haverá um dia de desastre, mas todo mundo espera que a tempestade recaia sobre a cabeça do próximo, depois de ter colhido sua chuva de ouro e de ter colocado seu patrimônio em segurança” (1).

O discurso capitalista será, “não parem de trabalhar!”, “O capital não tem, por isso, a menor consideração com a saúde e com a vida do trabalhador, a não ser quando a sociedade o compete a respeitá-lo”. Esse respeito vem da pressão popular, pois se depender dos patrões eles simplesmente diriam: “Por que nos atormentarmos com esses sofrimentos, se aumentam nosso lucro?” (2).

Mais um exemplo pode assemelhar a nossa realidade àquela vivida pelo autor de O Capital. As autoridades médicas da segunda metade da década de 1860 diziam que seriam necessários 500 pés cúbicos de ar em uma fábrica para prevenir a contaminação de doenças pulmonares, mas os industriais reiteravam “a impossibilidade de impô-los ao capital. Isto equivale realmente a sustentar que a tuberculose e outras doenças pulmonares decorrentes do trabalho são condições necessárias à existência do capital” (3).

De acordo com Marx, o primeiro estatuto dos trabalhadores foi decretado por Eduardo III, em 1349, no contexto da Peste Negra, “que dizimou a população a tal ponto que, como diz um publicista conservador, ‘a dificuldade de achar trabalhadores a preços razoáveis [a preços que deixem para os empregadores uma quantidade razoável de trabalho excedente] tornou-se realmente insuportável’” (4).

Isso nos leva a crer que o capitalismo, em meio à pandemia do Covid-19, precisa ter que criar novos métodos para explorar a classe trabalhadora. Métodos mais “razoáveis” de se espoliar trabalho excedente.

O sociólogo Razmig Keucheyan destaca que entre os economistas capitalistas existe uma proposta de diminuição do crescimento econômico. Essa proposta é de John Stuart Mill. Uma das controvérsias econômica do mundo atual, diz o sociólogo, “tem a ver com o crescimento nulo ou fraco observado no Japão e na Europa há três décadas. Deve-se ver aí uma situação de longo prazo, ou mesmo definitiva, ou uma depressão certamente longa e profunda, mas inscrita nos ciclos normais das economias capitalistas? Em outras palavras, vivemos uma ‘estagnação secular’ ou um ‘estado estacionário’? Esse conceito foi desenvolvido sobretudo por John Stuart Mill para designar situações históricas em que o caráter cíclico da economia capitalista experimenta uma brusca interrupção e as economias se instalam de forma durável na estagnação. Em Mill, o estado estacionário é conotado positivamente: a humanidade pode, enfim, cessar de pensar em produzir cada vez mais riquezas e se consagrar a atividades mais interessantes, como a arte. Mas a ideia de ‘capitalismo estacionário’ esconde uma contradição nos termos, já que o capitalismo é por essência dinâmico, razão pela qual esse conceito despertou numerosos debates desde o século XIX” (5).

O modelo de capitalismo, hoje defendido pela extrema direita que assumiu o poder em várias partes do mundo, trouxe à tona o velho modelo de exploração. Por isso, vemos pipocarem discursos muito semelhantes aos da época de Marx. Ou seja, o fascismo ultraliberal parece conter o dinamismo do capital. Temos como saída (além da destruição do próprio capitalismo!) a diminuição da intensidade econômica, um capitalismo estacionário propriamente dito.

Seria interessante, pois as pessoas trabalhariam menos, talvez o suficiente para manter o estado atual da riqueza. O aumento da riqueza não é para atender as necessidades do aumento populacional, mas para ampliar a riqueza dos capitalistas. Seria o fim da necessidade voraz capitalista de querer sempre mais, sem medir as consequências da obtenção do lucro desenfreado.

Cabe lembrar, mais uma vez, que o crescimento econômico de uma nação não está relacionado à geração de empregos, diminuição da pobreza ou ao acesso à saúde, mas ao sucesso do capitalista em tirar do mercado mais dinheiro do que investiu. Uma lógica que para o cidadão comum de nada importa. Por isso, precisamos defender uma lógica de diminuição da atividade econômica para evitar perdas humanas, abrindo um espaço maior para o desenvolvimento intelectual e espiritual das forças produtivas.

(1)Karl Marx, O capital: crítica da economia política: livro 1, v. 1, tradução de Reginaldo Sant’Ana, 30.ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012, p. 311-312.

(2)Id. P. 312

(3)Id. P. 547.
(4)Id. P. 314.
(5)https://diplomatique.org.br/crises-em-cadeia/

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.