Raphael Silva Fagundes

09 de dezembro de 2019, 23h19

Por que escolhemos tiranos para combater a corrupção?

Raphael Fagundes: “Uma grande quantidade de brasileiros não quer saber o destino dos impostos, apenas que o dinheiro público não seja roubado. Mas política é, exatamente, o que fazer com o dinheiro público”

Foto: Marcos Corrêa/PR

Noventa por cento dos brasileiros acham que a corrupção é o grande problema do país (1). A pontuação do Brasil no ranking da organização Transparência Internacional recuou para 35 e o país passou a ocupar o 105º lugar no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) (2). Tais dados confirmam que a cultura política do brasileiro gira em torno da corrupção.

Bolsonaro explora muito bem essa dimensão cultural e consegue manter sua base eleitoral, porque ainda não se encontra envolvido em nenhuma denúncia de corrupção. Nunca houve um presidente ligado a tantas polêmicas (temos um equivalente, talvez, em Jânio Quadros), mas o escândalo de corrupção ainda não o atingiu.

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A estratégia de se desvincular do PSL formando um novo partido, a Aliança Pelo Brasil, fortalece ainda mais essa imagem de homem cristão e honesto, forjada por ele e alimentada por seus seguidores.

Cabe lembrar que a presidente Dilma Rousseff não sofreu o impeachment por questões ligadas à corrupção. As pedaladas fiscais estão relacionadas a ilegalidades administrativas. Aliás, tirar um presidente por esse caminho foi essencial para legitimar o corte de gastos. Contudo, o PT estava difamado por se envolver em esquemas sujos para manter a governabilidade. O que levou ao impeachment foi, como disse um político do momento, o “conjunto da obra”, somando os escândalos de corrupção à crise econômica.

Não é difícil de perceber que a gestão de Bolsonaro tem feito uma administração capenga em diversas áreas. Reduzindo os gastos em educação e saúde, incendiando florestas, jogando o dólar no topo, fomentando o preço da gasolina etc. Contudo, não há uma mobilização popular contra o seu governo, muito menos sinais de uma queda iminente.

O presidente já defendeu a tortura e o regime militar (o que é uma afronta à Constituição); já apresentou propostas que demonstram claramente o cerceamento à liberdade de expressão; já foi provado que o ministro Moro violou leis para prender Lula; o ministro da Economia parece ter ameaçado a população com o AI-5, caso protestos antiliberais ocorram… Mas nada acontece!

Para a população, de um modo geral, um bom político é aquele que não é corrupto. Ele pode ter anos de parlamento e ser um completo inútil, como foi o caso de Bolsonaro, mas se não estiver envolvido em corrupção, já basta.

É uma questão histórica: todas as pequenas transformações políticas que ocorreram na história do país estão ligadas à corrupção. Destaca o historiador José Murilo de Carvalho: “Os republicanos da propaganda acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Os revolucionários de 1930 acusavam a Primeira República e seus políticos de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob a acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de caça aos marajás e foi expulso do poder por fazer o que condenou”.

Na maior parte dessas situações, governos tiranos foram escolhidos para combater a corrupção. O governo militar implantado em 1889 ficou conhecido como a República da Espada, uma tirania autoritária. Assim como o governo Vargas, que em 1937 instaurou a ditadura do Estado Novo. O suicídio do presidente populista em 1954 é marcado por várias pressões políticas do capital externo, momento em que uma tirania do mercado financeiro já dava seus primeiros passos em direção ao controle da atividade política do país.

O golpe de 1964 desencadeou uma tirania violenta. A redemocratização, por seu turno, foi marcada pela morte de Tancredo, ainda um tanto misteriosa no imaginário popular. Instalou-se um governo que apoiava os tiranos militares. O próprio Sarney duvidava da existência de uma ditadura militar no país entre 1964 e 1985. A tirania do governo que se seguiu ao de Collor não estava ligada à pessoa do presidente, mas ao mercado. Uma política neoliberal que ampliou a concentração de renda no país…

Enfim, a tirania sempre se mostrou como um antídoto para combater a corrupção.

A mídia de hoje não poupa críticas a Bolsonaro, o pinta como um tirano, mas não o acusa de corrupto. Os diversos escândalos (principalmente o do laranjal) envolvendo o PSL, não incluem diretamente o presidente. Este se coloca como um ser acima do partido, vide o slogan “o meu partido é o Brasil”, estampado na camisa que sofreu o suposto atentado. Este fenômeno o diferencia de Dilma, que em nenhum momento pensou em se desvincular do Partido dos Trabalhadores.

A situação de hoje é ainda mais perfeita para sustentar a lógica nacional de combate à corrupção. Pois, com Bolsonaro, a tirania se revela tanto na imagem do presidente quanto na atuação do mercado. É a tirania sublime.

Políticos inúteis

Essa ideologia política da corrupção, impregnada na cultura política popular, sustenta os 30% que ainda acreditam no governo de Bolsonaro. Por mais catastrófica que possa ser uma gestão, a fé na honestidade acaba por ser a razão da competência política. Essa ingenuidade popular leva muitos a defenderem atrocidades, assemelhando-se aos cristãos de outrora, que defenderam a Inquisição por acreditarem cegamente nos princípios da Igreja.

Como um político honesto pode estar errado? Não faz sentido, já que política, para o cidadão comum, se resume a ser corrupto ou não. Nada tem que ver com a administração das diferenças, como destacava Hannah Arendt.

É lógico que a corrupção é um mal na política que precisa ser combatido, mas as pessoas precisam entender que nem tudo vale até que seja comprovado o desejo de enriquecimento individual de um político. Onde estão os casos de corrupção de Nero, Pilatos, Ivan, Hitler? E, no entanto, não foram eles tiranos?

Uma grande quantidade de brasileiros não quer saber o destino dos impostos, apenas que o dinheiro público não seja roubado. Mas política é, exatamente, o que fazer com o dinheiro público. Essa ignorância de parte dos brasileiros sobre o que é política é um dos motivos para elegermos e reelegermos políticos improdutivos, que se sustentam mais por aquilo que falam do que por aquilo que fazem, que recebem fama e prestígio por aquilo que têm obrigação de ser e não por aquilo que têm obrigação de fazer.

(1)https://www.google.com/amp/s/oglobo.globo.com/brasil/maioria-dos-brasileiros-acha-que-corrupcao-aumentou-11-relatam-ter-pago-suborno-por-servicos-23967944%3fversao=amp

(2)https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2019/01/29/brasil-fica-cai-para-105o-lugar-em-ranking-de-2018-dos-paises-menos-corruptos.ghtml

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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