Raphael Silva Fagundes

15 de outubro de 2019, 12h13

Professor: o inimigo número um do Estado

Raphael Fagundes: “Esse modelo de educação, no qual umas servem para formar elites, outras, funcionários, e outras, o lumpemproletariado, só pode ser combatido por meio de uma proposta socialista”

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Existe uma lógica cruel e capitalista (não a principal, o que não a impede de ser analisada) que sustenta a precariedade do ensino público no país. Ela consiste em forçar os pais a trabalharem intensamente, sacrificando-se para pagar uma escola particular para os seus filhos.

Essa estratégia envolve as classes baixas da sociedade. Abrange, sobretudo, a classe média baixa que está caindo para as classes mais desprivilegiadas a cada dia que o projeto político introduzido no país em 2016 permanece.

Não estou tratando aqui do ensino superior, onde outros mecanismos estão sendo implantados para denegri-lo. Trato aqui da educação básica.

Faltam papéis, cola, lápis, caneta de quadro e centenas de outros materiais. O professor precisa, em muitos casos, pagar pelas cópias das provas. Além disso, corre a pressão da aprovação. É necessário atingir um percentual, empurrar o aluno para a série seguinte.

Sem equipamentos adequados, os professores fazem mágica para alfabetizar, lidando com a violência diária das comunidades que muitos estudantes transportam para a escola. Mas os alunos que não conseguem receber a alfabetização (lembrando que as salas estão entupidas e, em alguns casos, nem um mísero ventilador possuem) são aprovados do mesmo jeito.

Muitos professores, em meio às reuniões entre seus pares, criticam o governo acreditando que este é incompetente e que está indo na contramão das exigências do mercado de trabalho. Esse argumento é inclusive sustentado pelo governo eleito, que diz que irá acabar com a agenda ideológica e introduzir uma educação voltada para a formação técnica.

Isso é pura enganação. Primeiro, porque o que os governos sempre fizeram (e o atual não muda muito) não é ir contra a lógica do mercado, muito pelo contrário. O objetivo é formar o lumpemproletariado, o indivíduo que trabalha no biscate, que se submete a qualquer tipo de trabalho para sobreviver.

Segundo, porque o governo atual não tem o menor interesse na formação técnica da juventude. Cerca de dez anos atrás o Brasil estava formando centenas de milhares de técnicos, principalmente na área de petróleo e gás para atender às exigências da indústria brasileira. O golpe fabricou uma crise na Petrobras e enfraqueceu uma enorme cadeia que gerava empregos técnicos em diversas áreas. Era possível combater a corrupção sem destruir as empresas, mas se optou pela técnica do choque. Se tivessem tão interessados assim em empregos técnicos, os golpistas que hoje estão no poder não destruiriam a Petrobras.

A terceira questão seria o declínio nos investimentos. O FUNDEB, como conhecemos, vai acabar em 2020. Só se fala em disciplina militar nas escolas, combate ideológico etc., quando se pensou em investimento materiais e estruturais?

Ou seja, se o objetivo da escola pública era antes, minimamente, transformar pessoas em capital humano, para trabalhar nas indústrias decorrente do “boom” de esperança econômica que se deu após a descoberta do pré-sal, agora passa a ser a formar o lumpemproletariado, desamparado, que vive “matando um leão por dia” para viver.

Muitos destes trabalharão arduamente para pagar uma escola particular para o filho, fortalecendo a lógica que vem de anos, uma herança da ditadura militar, quando as escolas privadas começaram a ganhar espaço timidamente.

Não houve, nos últimos trinta anos, um investimento conciso na educação, com exceção dos “brizolões” que, se não existissem, ainda com todos os problemas que passam, muitas crianças estariam sem escola.

A situação piorou, pois, além de ser tolhido de ferramentas adequadas para realizar um bom trabalho, da falta de incentivo e do baixo reconhecimento, o professor se tornou o inimigo número um do Estado, aviltado por uma política de destruição em massa que não visa formar um cidadão, pois pretende conter a formação política, imprescindível para o exercício da cidadania.

Um projeto de educação que visa desenvolver o país não deve ser dual, triplo, mas homogêneo, respeitando as especificidades locais, os discursos individuais que, por sua vez, precisam ser ouvidos e trabalhados em sala de aula para tornar o que se pensa em crítica, por meio do conteúdo científico apresentado ao aluno.

Esse modelo de educação, no qual umas servem para formar elites, outras, funcionários, e outras, o lumpemproletariado, só pode ser combatido por meio de uma proposta socialista. Infelizmente, a aprendizagem de hoje não serve para a autoemancipação da humanidade, mas para a concretização dos objetivos do capital. Distanciamo-nos da época de Paracelso. Até os projetos iluministas de Kant e de Schiller foram transformados em meras utopias educacionais pela consolidação do capitalismo.

Por isso que István Mészáros propõe uma “contrainternalização”, isto é, uma transformação em relação à internalização da concepção de mundo historicamente prevalecente. Essa “contrainternalização” deve ser capaz de criar uma alternativa abrangente concretamente sustentável ao que já existe: “O papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à ‘legitimação constitucional democrática’ do Estado capitalista que defende seus próprios interesses”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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