Raphael Silva Fagundes

25 de fevereiro de 2020, 15h02

Que a rebeldia carnavalesca esteja presente o ano inteiro!

A irreverência carnavalesca precisa estar presente em todo ano, contribuir para encher as ruas e pressionar o governo e, quem sabe, abrir caminho para a sua queda

Reprodução/Twitter

O Carnaval não é um instrumento de alienação peculiar do proletariado brasileiro, como acredita Vilém Flusser. Caso fosse, a greve dos garis de 2014, no Rio de Janeiro, não teria acontecido.

O Carnaval não é um instrumento de alienação peculiar do proletariado brasileiro, como acredita Vilém Flusser. Caso fosse, a greve dos garis de 2014, no Rio de Janeiro, não teria acontecido.

Foi um caso isolado, é verdade, mas a própria festa fez com que o protesto se alastrasse. Muitos foliões aderiram à causa dos trabalhadores em greve.

O protesto no Carnaval se tornou comum. Não como o dos garis, mas na passarela, com fantasias, carros alegóricos e letras. A escola Estação Primeira de Mangueira e o desfile da São Clemente são o maior exemplo disto. Muitos blocos de rua também adotaram um caráter crítico de modo que não é mais possível afirmar que o Carnaval não passa de um instrumento de alienação.

Contudo o Carnaval se aproxima muito do que ele era na Idade Média. O período dos festejos passou a concentrar o que antes acontecia nos momentos mais “sérios” do ano. Entretanto, isso pode, talvez, enfraquecer ainda mais o caráter revolucionário do protesto, da indignação.

Mikhail Bakhtin entende a cultura carnavalesca medieval como um momento que se oferecia “uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado”.[1]

O Carnaval era “a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso”. Onde “a alienação desaparecia provisoriamente”.[2] Depois, os camponeses voltavam à submissão tradicional do senhor e da Igreja.

Hoje o padrão é bem parecido. O Carnaval enclausurou o protesto popular contra o governo dentro de suas fronteiras, de modo que ao longo do ano, o trabalhador entrega-se à alienação.

O Carnaval voltou ao modelo de inversão. Se durante o ano o povo se cala, durante os festejos ele protesta. Exemplo disso foi que no ano passado não houve nenhum protesto explosivo, enquanto que tivemos desfiles extremamente críticos.

De certo modo, o Carnaval de hoje se assemelha ao medieval por presenciarmos um mundo de ponta cabeça. Na idade das trevas, quase tudo se invertia, desde os homens se vestirem de mulher aos criados darem ordens aos patrões.

Mas nas situações de protesto ao longo do ano a inversão também era usada. Peter Burke mostra que os rebeldes de 1525 na Alemanha obrigaram os cavaleiros a trocarem de lugar com eles. “Enquanto os invasores se banqueteavam, os cavaleiros tinham de ficar de pé junto à mesa, com o chapéu na mão”. Em 1549, em Norfolk, os plebeus declararam que os “fidalgos governaram antes e agora eles vão governar”. Na Revolução Francesa duas estampas circularam, uma com o nobre nas costas do camponês e outra com o camponês montado no nobre.[3]

O mundo às avessas era um lema revolucionário. A revolução era carnavalizada. Hoje os protestos não são assim. Luta-se para o governo atender certas demandas, reivindicações. Não para uma mudança, uma inversão. O protesto não é carnavalizado. Embora uma espécie de trio elétrico guie a multidão, não há uma inversão do mundo, na qual os pobres governam os ricos.

O Carnaval contemporâneo, por sua vez, manteve a característica da inversão. Os alienados “desalienam-se”. Um momento de lucidez em meio à festa. A homossexualidade não é massacrada. O racismo não fica tão à flor da pele em uma sociedade tão preconceituosa. Quase tudo é invertido no Carnaval, para voltar com toda a força durante o ano. Já na Quarta-feira de Cinzas voltamos a ser homofóbicos, racistas, enfim, alienados.

Cabe lembrar que, embora o número de assédio à mulher não se intimide no Carnaval, até mesmo em uma sociedade conservadora como a do Império do Brasil, o Carnaval proporcionava “várias possibilidades de uma atuação relativamente independente às senhoritas e senhoras de família”.[4] Mas durante o ano a mulher voltava a ser submissa ao homem.

Policiais, evangélicos e Carnaval

O movimento por salários dos policiais no Ceará, de onde saiu o disparo que atingiu o senador Cid Gomes, parece querer imitar o modelo dos garis de 2014. Em 2017, os policiais também foram às ruas reivindicar melhores salários.

É curioso o fenômeno de os policiais usarem o Carnaval para protestar. Será que é para que outras categorias, menos reacionárias, não protestem? A greve dos garis mostrou a força que um movimento de trabalhadores pode adquirir durante o Carnaval, por isso é preciso contê-la. Nada melhor que policiais em protesto para a população apoiar um movimento reacionário em vez de um que coloque o governo em xeque.

O espírito do Carnaval e sua natureza rebelde precisa se estender para o ano todo. É imprescindível libertarmos a indignação consciente dos quatro dias de folia e transformá-la em revolta séria, constante, nos dias que reservamos à alienação.

Quanto mais preso ao Carnaval os protestos estiverem, certos grupos serão afastados da crítica. Os evangélicos (principalmente os fundamentalistas), por exemplo, podem associar a crítica ao governo ao Carnaval. Por acharem o Carnaval uma festa profana, ligada, inclusive, ao culto do Diabo, podem “diabolizar” a indignação e defenderem ainda mais o governo Bolsonaro.

É preciso protestar no Carnaval, mas não somente em tal festejo. A irreverência carnavalesca precisa estar presente em todo ano, contribuir para encher as ruas e pressionar o governo e, quem sabe, abrir caminho para a sua queda.

O Carnaval não é um instrumento de alienação peculiar do proletariado brasileiro, como acredita Vilém Flusser. Caso fosse, a greve dos garis de 2014, no Rio de Janeiro, não teria acontecido.

Foi um caso isolado, é verdade, mas a própria festa fez com que o protesto se alastrasse. Muitos foliões aderiram à causa dos trabalhadores em greve.

O protesto no Carnaval se tornou comum. Não como o dos garis, mas na passarela, com fantasias, carros alegóricos e letras. A escola Estação Primeira de Mangueira é o maior exemplo disto. Muitos blocos de rua também adotaram um caráter crítico de modo que não é mais possível afirmar que o Carnaval não passa de um instrumento de alienação.

Contudo o Carnaval se aproxima muito do que ele era na Idade Média. O período dos festejos passou a concentrar o que antes acontecia nos momentos mais “sérios” do ano. Entretanto, isso pode, talvez, enfraquecer ainda mais o caráter revolucionário do protesto, da indignação.

Mikhail Bakhtin entende a cultura carnavalesca medieval como um momento que se oferecia “uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à Igreja e ao Estado”. 

O Carnaval era “a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso”. Onde “a alienação desaparecia provisoriamente”.  Depois, os camponeses voltavam à submissão tradicional do senhor e da Igreja.

Hoje o padrão é bem parecido. O Carnaval enclausurou o protesto popular contra o governo dentro de suas fronteiras, de modo que ao longo do ano, o trabalhador entrega-se à alienação.

O Carnaval voltou ao modelo de inversão. Se durante o ano o povo se cala, durante os festejos ele protesta. Exemplo disso foi que no ano passado não houve nenhum protesto explosivo, enquanto que tivemos desfiles extremamente críticos. 

De certo modo, o Carnaval de hoje se assemelha ao medieval por presenciarmos um mundo de ponta cabeça. Na idade das trevas, quase tudo se invertia, desde os homens se vestirem de mulher aos criados darem ordens aos patrões.

Mas nas situações de protesto ao longo do ano a inversão também era usada. Peter Burke mostra que os rebeldes de 1525 na Alemanha obrigaram os cavaleiros a trocarem de lugar com eles. “Enquanto os invasores se banqueteavam, os cavaleiros tinham de ficar de pé junto à mesa, com o chapéu na mão”. Em 1549, em Norfolk, os plebeus declararam que os “fidalgos governaram antes e agora eles vão governar”. Na Revolução Francesa duas estampas circularam, uma com o nobre nas costas do camponês e outra com o camponês montado no nobre. 

O mundo às avessas era um lema revolucionário. A revolução era carnavalizada. Hoje os protestos não são assim. Luta-se para o governo atender certas demandas, reivindicações. Não para uma mudança, uma inversão. O protesto não é carnavalizado. Embora uma espécie de trio elétrico guie a multidão, não há uma inversão do mundo, na qual os pobres governam os ricos.

O Carnaval contemporâneo, por sua vez, manteve a característica da inversão. Os alienados “desalienam-se”. Um momento de lucidez em meio à festa. A homossexualidade não é massacrada. O racismo não fica tão à flor da pele em uma sociedade tão preconceituosa. Quase tudo é invertido no Carnaval, para voltar com toda a força durante o ano. Já na Quarta-feira de Cinzas voltamos a ser homofóbicos, racistas, enfim, alienados.

Cabe lembrar que, embora o número de assédio à mulher não se intimide no Carnaval, até mesmo em uma sociedade conservadora como a do Império do Brasil, o Carnaval proporcionava “várias possibilidades de uma atuação relativamente independente às senhoritas e senhoras de família”.  Mas durante o ano a mulher voltava a ser submissa ao homem.

Policiais, evangélicos e Carnaval

O movimento por salários dos policiais no Ceará, de onde saiu o disparo que atingiu o senador Cid Gomes, parece querer imitar o modelo dos garis de 2014. Em 2017, os policiais também foram às ruas reivindicar melhores salários.

É curioso o fenômeno de os policiais usarem o Carnaval para protestar. Será que é para que outras categorias, menos reacionárias, não protestem? A greve dos garis mostrou a força que um movimento de trabalhadores pode adquirir durante o Carnaval, por isso é preciso contê-la. Nada melhor que policiais em protesto para a população apoiar um movimento reacionário em vez de um que coloque o governo em xeque.

O espírito do Carnaval e sua natureza rebelde precisa se estender para o ano todo. É imprescindível libertarmos a indignação consciente dos quatro dias de folia e transformá-la em revolta séria, constante, nos dias que reservamos à alienação.

Quanto mais preso ao Carnaval os protestos estiverem, certos grupos serão afastados da crítica. Os evangélicos (principalmente os fundamentalistas), por exemplo, podem associar a crítica ao governo ao Carnaval. Por acharem o Carnaval uma festa profana, ligada, inclusive, ao culto do Diabo, podem “diabolizar” a indignação e defenderem ainda mais o governo Bolsonaro.

É preciso protestar no Carnaval, mas não somente em tal festejo. A irreverência carnavalesca precisa estar presente em todo ano, contribuir para encher as ruas e pressionar o governo e, quem sabe, abrir caminho para a sua queda.


[1] BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 4-5.

[2] Id., p. 9.

[3] BURKE, P. Cultural popular na Idade Moderna. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p. 213.

[4] PEREIRA, C. S. Os senhores da alegoria: a presença das mulheres nas Grandes sociedades carnavalescas cariocas em fins do século XIX. In: CUNHA, M. C. P. (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Campinas: EdUnicamp, 2002, p. 316.




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