Raphael Silva Fagundes

19 de novembro de 2019, 16h08

Relato de um passageiro no trem carioca

Raphael Fagundes diz que as elites bancam o conflito entre o trabalhador que atende e o trabalhador atendido, para não ser o alvo da ira operária

Foto: Divulgação/Supervia

A Supervia surpreendeu todo mundo ao retirar nesta segunda-feira (18) 40 trens de circulação. Contudo, os maiores prejudicados foram os trabalhadores.

Como passageiro, pude observar as condições precárias nestes últimos dois dias. Os vagões superlotados e a demora dos trens foi o que mais incomodou os passageiros.

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Contudo, cabe lembrar um fator determinante. As condições precárias dos serviços “públicos”, provoca confronto entre os próprios trabalhadores. Questão que se aprofunda claramente pela ausência de uma consciência de classe.

Eu presenciei em menos de duas horas uma mulher discutindo com um homem por este ter se apoiado nela em um vagão extremamente lotado. Trocaram ofensas. Outro trabalhador saiu xingando os outros para que saíssem da sua frente porque queria descer e não se atrasar para o serviço.

As pessoas estavam à flor da pele com medo de chegarem atrasadas ao trabalho, podendo desagradar o patrão, pondo em risco o próprio emprego.

No entanto, o Rio de Janeiro já está acostumado a ter instituições que fornecem serviços de baixa qualidade para as classes trabalhadoras. É a escola, as ruas, o saneamento básico, os hospitais. Isso se estende às áreas privadas, como as empresas de ônibus, operadoras de celular, consultórios médicos, fornecimento de energia elétrica. Até mesmo os bancos. Quanto mais baixo for o salário do trabalhador, mais filas enfrentará, pior será o atendimento.

Essa é uma lógica que sustenta o próprio sistema capitalista. O trabalhador paga para ser humilhado. As elites bancam o conflito entre o trabalhador que atende e o trabalhador atendido, para não ser o alvo da ira operária.

Como disse Ernst Tugendhat, “o contrário do respeito não é o ódio, mas a humilhação e a indiferença”. Portanto, podemos concluir que as elites, não só destilam o seu ódio contra as classes trabalhadoras, inclusive, rejeitando qualquer sinal de ascensão (vide as queixas da classe média ao ver pobres nos aeroportos, shoppings etc.), mas de desrespeito, pois a humilhação é um dos mecanismos de dominação.

E como essa humilhação se refere a uma condição de classe, é a lógica capitalista que a sustenta. Ela contribui para que os trabalhadores percam o poder de agir contra o causador da própria humilhação. Brigam com outros trabalhadores, o atendente, o colega no trem etc., enquanto os mecanismos de humilhação se perpetuam.

A luta por respeito, portanto, passa pela luta de classes e, mais que tudo, pela consciência de classe. É preciso dizer que também presenciei um bom gesto em meio ao tumulto e confusão que tomaram os trens cariocas desta semana: um jovem protegendo com o corpo uma senhora que seria engolida pela multidão desesperada à procura de um espaço minúsculo.

Isso mostra que a solidariedade entre os membros da mesma classe não está ausente por completo, mas é preciso tirar o seu caráter individual e transformá-la em uma característica de classe. Somente reconhecendo a origem da humilhação que essa condição ideológica e prática será alcançada.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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