Raphael Silva Fagundes

11 de setembro de 2019, 22h51

Rio de Janeiro: o laboratório do fascismo brasileiro

No RJ diversas forças conservadoras estão sendo mobilizadas para conter a democracia. O prefeito censura livros, o governo vende a imagem de um líder autoritário. A junção entre autoritarismo e religião é o que move o governo Bolsonaro e é mais evidente na Cidade Maravilhosa que em qualquer outra parte do país

Reprodução

O historiador Ilmar Mattos destaca que, em relação aos meados do século XIX, “a província fluminense pode ser tomada como uma espécie de laboratório”. É certo que o império brasileiro, diferente dos impérios europeus que se instituíam no século XIX, não tinha uma tendência expansiva. Contudo, se não era possível se expandir para fora, as elites investiram em uma política de expansão para dentro do território, com o objetivo de impor o poder político que irradiava da corte instalada no Rio de Janeiro.

Hoje, o Rio volta a ser o laboratório do Brasil. Um modelo político conservador da cidade. Três fatores sustentam esta tese: o prefeito-bispo que censura liberdades constitucionais; o governador que posa para fotos ora portando fuzis outras sobre um tanque militar; e, por fim, pela cidade ser o reduto da família Bolsonaro. Soma-se a isso o fato de ser carioca o político que publicamente mais se manifesta contra a democracia, Carlos Bolsonaro.

O fascismo nada mais é do que uma forma de o capital reagir quando as liberdades democráticas alcançam um patamar que pode por em risco existência do capitalismo. A democracia, evidentemente, torna real a possibilidade de se votar em um modelo político que pode vir a pôr o capitalismo em xeque. Portanto, quando se chega a tal situação ameaçadora, diversas instituições se mobilizam (mídia, religião, autoridades etc.) para conter as aspirações democráticas.

Ao longo do século XX, os fascismos surgiram para conter um modelo político e econômico que poderia aniquilar o capitalismo: o socialismo. Para evitar a ascensão das esquerdas em diversas partes da Europa e da América, as elites reconvocaram as forças mais conservadoras para fechar o governo e prolongar a vida do capital.

Como mostra Ellen Wood, a democracia é contra o capitalismo, pois neste, o Estado está mais interessado em administrar e viabilizar a maximização dos lucros privados que o bem comum. Portanto, o capital permite a democracia até certo ponto. Quando a população demonstra uma pré-disposição a um regime que prioriza o bem comum e não mais o lucro, o capitalismo usa o fascismo como cão de guarda. Por isso a cadela do fascismo está sempre no cio!

Isso aconteceu nos EUA. A mobilização popular contra Wall Street levou à vitória de Trump. As mobilizações populares no Brasil junto às greves levaram, por seu turno, à eleição de Bolsonaro. Os movimentos populares são logo contidos com a radicalização do modo de administrar o capital. O fascismo brasileiro conseguiu algo inédito em nossa democracia: mobilizar o povo nas ruas em favor do governo.

Enfim, o Rio de Janeiro tornou-se o laboratório do fascismo brasileiro. Aqui diversas forças conservadoras estão sendo mobilizadas para conter a democracia. O prefeito censura livros, o governo vende a imagem de um líder autoritário. A junção entre autoritarismo e religião é o que move o governo Bolsonaro e é mais evidente na Cidade Maravilhosa que em qualquer outra parte do país.

O Rio de Janeiro elegeu dois senadores. Um é filho de Bolsonaro e o outro é pastor. Daqui saem os discursos antidemocráticos de um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro. A milícia tomou boa parte da cidade, controlando a Baixada e a Zona Oeste da cidade. Todos esses elementos fazem do Rio um modelo que a extrema direita quer espalhar pelo Brasil.

Esse paradigma reacionário agrada as elites latifundiárias do Norte e do Centro-Oeste. Excita o grande empresário porque enfraquece o trabalhador e as reivindicações por direitos trabalhistas. A extrema direita se fecha na moralidade para obscurecer as lutas operárias antissistêmicas.

O Rio abriga o que há de pior na direita, tornando-se, assim, exemplo do projeto de destruição do Estado e de fortalecimento do capital. Resta saber se o estado continuará sendo este laboratório após as eleições do ano que vem. Que estratégias esses grupos vão adotar para manter esse projeto político?

 


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