Raphael Silva Fagundes

18 de setembro de 2019, 00h07

Setembro amarelo: o suicídio como consequência da repressão social

No Brasil, escravos se suicidavam acometidos pelo banzo, um estado de extrema tristeza que abatia os cativos recém-chegados

Idosos em protesto contra a reforma da previdência no Chile (Arquivo)

“O evento fundador do cristianismo é um suicídio, e os textos dos discípulos exaltam o sacrifício voluntário”, escreve Georges Minois em sua História do Suicídio. O historiador destaca o dilema do cristão nos primeiros séculos da nossa era: “A vida é detestável, mas é preciso suportá-la; a morte é desejável, mas não podemos buscá-la”.[1] No entanto, Jesus Cristo sabia que iria morrer e queria que tal coisa acontecesse, sacrificando-se, segundo a liturgia cristã, para salvar a humanidade.

O suicídio não era algo condenado no Mundo Antigo. Havia situações em que era, inclusive, legítimo. Demócrito, por exemplo, defendia o suicídio para se escapar da decrepitude da velhice e Antístenes, por sua vez, declarava que o indivíduo que não fosse inteligente o bastante deveria se enforcar.

Contudo, devido à crise econômica e demográfica dos finais do Império Romano, as leis contra o suicida endureceram. Os bens de quem atentasse contra a própria vida seriam confiscados pelo governo. Outras leis para atender as necessidades decorrentes da carência de mão de obra foram criadas. Em 374 proibiu-se todas as formas de contracepção e aborto. Além disso, o Império proíbe o infanticídio e o abandono de crianças.

A Igreja acompanhou as leis do Império Romano e, durante a Idade Média, radicalizou a repressão contra o suicida. O corpo era arrastado, enfiava-se estacas no peito e, às vezes, enterravam-no sob pedras com o receio de o defunto se levantar. Matar-se era considerado um atentado contra Deus.

O grande filósofo, Montesquieu, irá criticar a violenta repressão judicial do suicídio: “As leis europeias contra aqueles que se matam são terríveis […] são arrastados indignamente pelas ruas; são caluniados; seus bens são confiscados […] Quando estou acabrunhado pela dor e pelo desprezo, por que querem impedir de pôr fim aos meus sofrimentos e me privar cruelmente de um remédio que está ao meu alcance?”

Até Voltaire reserva seus sarcasmos às sanções religiosas e civis que atingem o cadáver e penalizam a família do suicida. Em 1753, acabrunhado com o espetáculo da burrice humana, escreve: “desejo morrer”.

No Brasil, escravos se suicidavam acometidos pelo banzo, um estado de extrema tristeza que abatia os cativos recém-chegados. Alguns acreditavam que, ao tirar a própria vida, sua alma atravessaria o Oceano Atlântico retornando ao lar no continente africano.

Mas o ato de dar cabo da própria vida pode ser visto como uma consequência do sistema social. Assim acreditava Emile Durkheim. Karl Marx, ao analisar os relatos do policial francês Jacques Preuchet, sentimentalizou-se com um caso de alguém que desistiu de viver por estar sofrendo com a penúria decorrente do desemprego. Foram encontrados em seus bolsos bilhetes dizendo que o homem desolado não aguentava mais ser sustentado por sua esposa que era uma humilde costureira e suas duas jovens filhas que trabalhavam junto com sua mãe. Marx conclui sua análise sobre o suicídio fazendo uma pergunta que critica a sociedade capitalista: “Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens”.[2]

Ao longo da história, a questão do suicídio moveu pensamentos de diversos setores da sociedade, mas sempre esteve ligada à repressão. Forças econômicas, políticas e religiosas agiram diretamente sobre o ato de se tirar a própria vida. O setembro amarelo é importante para pensarmos em tudo isto, mas principalmente nas causas do sofrimento humano, sejam elas psíquicas ou sociais. A luta por uma sociedade mais justa também passa por esta questão imprescindível para despertar o sentimento de empatia e camaradagem entre as pessoas.

[1] MINOIS, Georges. História do Suicídio. São Paulo: Eduesp, 2019. P. 30.

[2] MARX, Karl. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006. P. 28


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