Reginaldo Lopes

04 de setembro de 2019, 20h29

Por que não mudar o rumo?

Reginaldo Lopes: “Também na economia, governo é comandado por ‘terraplanistas’”

Bolsonaro e Paulo Guedes - Foto: Isac Nóbrega/PR

Dois fatos econômicos chamaram a atenção na última semana. O governo argentino decretou moratória, mesmo depois de arrancar US$ 57 bilhões do Fundo Monetário Internacional, a quem o presidente Macri pediu novos prazos para pagar dívidas de curto prazo. Aqui, o IBGE apontou crescimento de 0,4% do PIB no segundo trimestre. O número, comemorado pelo governo, que já se preparava para a recessão, aponta para mais um ano de estagnação.

Desde 2015, quando os governos voltaram a adotar a ortodoxia financista, o país acumula retração. O PIB encolheu mais de 3% em 2015, repetiu queda em 2016, avançou 1% em 2017 e 2018 e neste ano segue derrapando. Seguindo o mesmo modelo econômico, o Brasil ainda não chegou à situação da Argentina graças às bases sólidas construídas na política de exportação e importação – que ainda garantem saldo positivo na balança comercial – e à robusta reserva cambial, acumulada graças a uma década de crescimento combinada com sucessivos superávits.

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O desastre argentino comprova a inviabilidade do fundamentalismo fiscal e o equívoco do Brasil em seguir no mesmo caminho, com o agravante de que o governo de Bolsonaro não tem nenhum projeto concreto para sair da crise, pelo contrário, é tomado por privatistas irresponsáveis que só atuam no desmonte da estrutura do Estado, na retirada de direitos e na entrega de nossas riquezas e patrimônio para forças estrangeiras.

Numa sociedade racional, há uma complementaridade entre Estado e setor privado, com o primeiro sendo indutor para os negócios empresariais, investindo em infraestrutura e atendimento social. Especialmente nos períodos de crise, os gastos públicos têm papel central no sistema econômico, potencializando-o frente ao risco de recessão. Porém, esperar racionalidade de um governo presidido por Bolsonaro é contrassenso. Para um Brasil que depende de investimento público, foi criada a Secretaria Especial de Desestatização, “Desinvestimento” e Mercados. A impressão é que, também na economia, o governo está sob o comando dos “terraplanistas”.

O Brasil precisa de um programa de obras públicas e empreendimentos em infraestrutura que gerem emprego e aumentem o consumo das famílias, que dependem diretamente da política sobre salários. Mas, com um consumo supertributado em 50% e salário sem ganho real, é impossível uma recuperação econômica. Segundo a pesquisa do IBGE, desde 2016 o salário médio não saiu do lugar, enquanto a taxa de desemprego dobrou.

Mas, se o modelo econômico está levando o país à bancarrota, por que não mudar o rumo? Simples: nem todos estão perdendo. Na ortodoxia financista, os bancos lucram enormemente com a crise, e eles têm um funcionário, Paulo Guedes, como ministro da Economia. Bradesco, Itaú e Santander tiveram lucro recorde de US$ 56 bilhões em 2018 e devem superar o montante neste ano, já que ganharam US$ 32 bilhões só no primeiro semestre.

O resultado do PIB é preocupante. O país vai para o terceiro ano de estagnação após a recessão de 2015/2016. É um caso raro na história, pois, após uma queda, a tendência era de recuperação, o que não se concretizou. E o que é pior: não há um só sinal de esperança com o rumo econômico seguido por um governo de fundamentalistas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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