Reginaldo Lopes

07 de fevereiro de 2020, 22h11

PT 40 anos: Entre o legado e o futuro

Reginaldo Lopes: "O partido deu voz a milhões e milhões de pessoas que jamais foram ouvidas ou convidadas a participar de qualquer processo político"

Abertura do Festival PT 40 ano | Foto: Diego Padilha

Apesar de todo esforço de setores da classe dominante brasileira, o Partido dos Trabalhadores chega, no próximo dia 10, aos seus 40 anos de existência. Muito foi feito, e se faz diariamente, para tentar destruí-lo e as razões porque ainda está de pé estão ligadas à sua história, à sua formação como um partido de massa e de vanguarda, feito de baixo para a cima; algo inédito na história da política brasileira e, quiçá, mundial.

O PT já está na história. Já é estudado por ter sido o mais interessante movimento de criação de um partido político após as ditaduras militares na América do Sul. O partido fundado no Colégio Sion, em São Paulo, no dia 10 de fevereiro de 1980, reuniu trabalhadores e trabalhadoras, sindicalistas, parte considerável da Igreja Católica progressista- com os movimentos eclesiais de base- egressos da luta contra a ditadura, intelectuais e demais militantes da esquerda brasileira.

Muito foi feito até que a grande novidade do ano de 1980 na política brasileira elegesse o primeiro operário presidente da República e, posteriormente, elegesse a primeira mulher presidenta do Brasil.

O crescimento do PT pelo Brasil e a consequente consolidação do partido como o maior de esquerda do país se confunde com a própria vida de milhares de militantes que muito se doaram em nome de um projeto coletivo.

O novo partido estimulava e dependia da participação dos seus filiados, onde a democracia é a peça-chave em todas as instâncias. A liberdade de organização interna, onde os militantes podem se organizar em tendências, com independência política, também foi outra novidade.

Como não lembrar do grande Chico Mendes, seringueiro e líder sindical, que mudou a história da luta pelo meio-ambiente no Brasil? Brutalmente assassinado por fazendeiros há mais de 30 anos, vemos que o que defendia ainda segue necessário e urgente. A luta desse companheiro inspira todo brasileiro e brasileira com o mínimo de vocação democrática e irá para sempre marcar a história de nosso partido.

E quantos outros militantes, gigantes em suas histórias, ombrearam, e foram mais um companheiro ou companheira, em meio a tantos e tantas outras ao longo de nossa história? Nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Adão Pretto, Benedita da Silva, Florestan Fernandes, Dazinho Pimenta, Vicentinho, Marilena Chauí, Olívio Dutra, Antônio Cândido, Luiz Dulci, José Genoíno, Patrus Ananias, Marco Aurélio Garcia, José Dirceu, Virgílio Guimarães, Helena Greco, Dilma Rousseff, José Eduardo Dutra, Fernando Pimentel, Regina Nabuco, Luiz Gushiken, Jaques Wagner, Tarso Genro, Eduardo Suplicy entre tantos e tantos outros, jamais esquecendo, é claro, de Lula e, no meu caso pessoal, do meu pai, o trabalhador rural Sebastião Lopes.

O PT foi meu único partido. Foi por causa dele que acreditei que era possível lutar pela justiça social e transformar uma sociedade e um país marcados pela exclusão e pela opressão ao povo trabalhador. Aos 16 anos, coordenei em minha cidade natal, Bom Sucesso, a campanha de Lula à Presidência da República, em 1989 e, em 1996, com apenas 23 anos, concorri à Prefeitura da cidade. Fui presidente municipal e estadual do PT, além de ter tido a honra de representar o partido e a esquerda mineira na eleição de 2016 para prefeito de Belo Horizonte.

O partido deu voz a milhões e milhões de pessoas que jamais foram ouvidas ou convidadas a participar de qualquer processo político. O país em que teve por anos a escravidão como base da economia, que teve o “voto de cabresto” como característica dos primeiros anos da República e em que as mulheres só puderam votar em 1930, precisa de um PT. Foi e é uma necessidade da nossa democracia.

Nenhum partido elegeu mais negros, operários e mulheres como o PT. Hoje, aliás, o único estado presidido por uma mulher é o Rio Grande do Norte da grande companheira Fátima Bezerra. Nas primeiras eleições em que participou, em 1982, nosso partido lançou em Minas Gerais a candidatura ao Governo do Estado da professora e advogada Sandra Starling. Já em 2011, ano em que a primeira mulher tomou posse na Presidência do país, a petista Dilma Rousseff, o partido aprovou a paridade de gênero para todas as suas ocupações internas, bem como demais medidas para garantir candidaturas femininas, como vimos mais recentemente no movimento Elas por Elas.

As experiências administrativas, principalmente entre os anos 80 e 90, consagraram o assim chamado “modo petista de governar”, com o orçamento participativo, um reconhecido instrumento de empoderamento popular que ressignificou a política brasileira. As gestões em Belo Horizonte de Patrus Ananias, eleito em 1992, de Fernando Pimentel, eleito em 2004, e de Célio de Castro, o Dr. BH, que se filiou ao PT em 2001, certamente entram no rol dessas administrações de sucesso.

O ano da eleição de Lula foi também o da minha primeira vitória para deputado federal. Jamais irei esquecer da Esplanada dos Ministérios tomada pelo vermelho, que simbolizava tantas lutas e tanto sangue derramado pelo nosso povo ao lutar por um país melhor, ou muitas vezes, lutando “apenas” para sobreviver e ter uma vida digna.

E os governos encabeçados pelo PT trabalharam para isso; pela dignidade do povo e da melhoria do país como um todo, governando para todos e todas, sem fazer distinção, mas, como Lula gosta de dizer, olhando com um carinho especial para quem mais precisa, assim como uma mãe olha para os seus filhos.

A população universitária quase triplicou, saltando de três em 2003 para oito milhões de pessoas, em 2016. Essa expansão universitária se deu por conta de programas como o Ideb, o ProUni, o Sisu, o Novo Fies e a Lei de Cotas, que pude participar da articulação, sancionada pelo presidente Lula, coloriram as universidades brasileiras. Os Institutos Federais foram criados, levando uma educação de qualidade para os quatro cantos do país. O Brasil deixou o Mapa da Fome da ONU, o salário mínimo teve um aumento real de 72% e 36 milhões de pessoas saíram da condição de pobreza extrema, enquanto 42 milhões chegaram à classe média.

Foi preciso um impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma e uma prisão sem provas de Lula, dois duros golpes na democracia brasileira, para que o projeto petista não prosseguisse a comandar o país. A candidatura de Fernando Haddad, em 2018, se mostrou a única capaz de chegar ao segundo turno para fazer frente com a extrema-direita que chegou ao poder após todo esse processo de exceção. Os ataques diários da grande mídia e de parte do Judiciário, populista e parcial, não anularam a força política e eleitoral de Lula. Hoje, o PT, presidido por Gleisi Hoffmann, tem o maior número de deputados federais e é o partido que mais governa estados no Brasil.

Cabe, porém, ao maior partido de esquerda da América do Sul se atualizar. Entender que a sociedade mudou e que a própria classe trabalhadora que originou o PT não é mais a mesma. Para além da tão falada autocrítica cobrada ao partido, é preciso compreender as novas relações de trabalho, a imparável automação e a atual revolução tecnológica que estamos passando.

A política do “ganha-ganha”, onde todos ganharam, ocorrida em nossos governos, por exemplo, está superada. Lula e Dilma fizeram muito, mas esgotaram as possiblidades desse “modelo”. Não é mais possível garantir melhorias de vida ao nosso povo e desenvolvimento econômico e social sem questionar os privilégios do andar de cima. Por isso, taxar grandes fortunas e os lucros e dividendos de donos e acionistas de grandes empresas, por exemplo, se colocam no horizonte como pautas que o PT pode, e deve, abraçar, assim como o deslocamento da incidência tributária sobre o consumo para o patrimônio e a renda.

Nessa nova etapa, o PT tem que lutar para incutir na sociedade o enfrentamento às desigualdades como um valor a ser cultivado, assim como se tornou praticamente cultural a necessidade do combate à inflação. Observar o século XXI é notar que o atual modelo, insustentável do ponto de vista ambiental, econômico e social, precisa de mudanças radicais. A distribuição e a produção de novas riquezas se fazem urgentes e a política pública, sobretudo em um país injusto como o nosso, que não levar em conta a diminuição das desigualdades perderá sua razão de ser. Esse enfrentamento deve contar com a incessante vigilância da esquerda brasileira e do nosso partido, na condição de seu maior instrumento. O Brasil não pode depender do PT estar no Governo Federal para enfrentar as desigualdades. O partido deve estar nas ruas e nas redes, no front de todas as lutas do povo para influir ao máximo na sociedade e cobrar resultados.

Nascido para fazer história, nosso partido segue sendo a esperança de milhões e milhões de brasileiros e brasileiras na política. A alternativa real a um modelo concentrador de renda, preconceituoso e elitista, que o Brasil conhece tão bem.

Não temos o direito de abdicar da luta. E estaremos junto com classe da trabalhadora do campo e da cidade; com os mais pobres, na luta das mulheres, da comunidade LGBT, na luta pela igualdade racial e de gênero, sempre em defesa da soberania nacional.

Somente o PT tem esse legado e as condições se apresentar uma alternativa à sociedade brasileira ao ultraliberalismo e ao neofascismo que nos assola. A esquerda brasileira não pode se dar ao luxo de abrir mão do PT e nós não mediremos esforços para estar à altura dos desafios que temos pela frente.

Viva o Brasil! Viva o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras!


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