Reginaldo Lopes

11 de novembro de 2019, 15h27

Um dia de golpe: o dia que não termina na América Latina

Em novo artigo, o deputado Reginaldo Lopes diz: “A Bolívia, sinônimo de instabilidade política e econômica antes de Evo, chegou a ser o país que mais crescia na América do Sul”

Evo Morales - Foto: Reprodução/Twitter

Este mesmo dia 10 de novembro de 2019 na Bolívia já foi vivido muitas e muitas vezes na América Latina. Não é de hoje derrubar governos eleitos que não se curvavam às vontades imperialistas. Na própria Bolívia, em 1951, as elites conservadoras, apoiadas pelo Exército, não aceitaram o resultado eleitoral de Víctor Paz Enterssoro e deram um golpe militar. A consequência foi uma revolução popular no ano seguinte, que garantiu o mandato do presidente eleito e que promoveu uma reforma agrária e a nacionalização das minas.

Em novembro de 2019, Evo Morales, após vencer as eleições presidenciais no primeiro turno, foi forçadamente deposto diante de um caos que sabemos muito bem a quem interessa. Até o momento onde escrevo, fala-se da possibilidade da prisão do presidente boliviano, algo absolutamente autoritário e violento.

A BBC, que não pode ser chamada de bolivariana nem mesmo em tempos de “terra plana”, publicou uma reportagem em 19 de outubro deste ano com o título: “O que está por trás do sucesso econômico da Bolívia de Evo Morales?”, na qual destacava, além dos programas sociais, a nacionalização do petróleo e do gás natural, o que não significou a exclusão das empresas privadas da economia boliviana.

Como está na história, o Brasil de Lula não via problemas com a legítima luta da Bolívia pela sua independência econômica. Já o atual governo brasileiro, títere de Trump, faz o possível pelo contrário. O golpe em Evo levou ao regozijo no Twitter do sádico e golpista assumido Jair Bolsonaro.

A suspeição da Organização dos Estados Americanos (OEA) sob as eleições na Bolívia riscou o fósforo para que o golpismo se instalasse. Mesmo tendo oferecido a “outra face”, propondo novas eleições, Evo não pôde suportar uma força movida a muitos interesses escusos e, certamente, a muito dinheiro envolvido.

Mesmo propondo mais democracia, os golpistas quiseram sangue. Incendiaram a casa da irmã do presidente da República e de mais dois governadores. Há dois dias, agrediram e humilharam publicamente a prefeita de Cochabamba, Patricia Arce, que teve os cabelos cortados e obrigada a passar três horas sofrendo abusos, tudo isso com a anuência das forças policiais. Hoje, após renunciar, a presidenta do Tribunal Supremo Eleitoral foi presa diante das câmeras.

Emissoras públicas também sofreram ataques e um diretor de rádio sindical foi amarrado em uma árvore. Exemplos de abusos dos grupos fascistas intitulados “Comitês Cívicos” não faltam. O que não pode deixar de ser dito é o caráter racista desse movimento, que ataca a plurinacionalidade boliviana, os povos originários e a laicidade do Estado.

Há em curso uma nova Operação Condor, que perseguiu e matou diversos líderes de esquerda durante os anos 70 e 80 na América Latina. Inclusive Juscelino Kubistchek, que estava muito mais ao centro, foi monitorado e investigado pela operação chefiada, é claro, pela CIA. Atualmente, já impediram o mandato de Dilma, a candidatura de Lula e o governo de Evo Morales.

A Bolívia, sinônimo de instabilidade política e econômica antes de Evo, chegou a ser o país que mais crescia na América do Sul. Passou mais de uma década crescendo a uma média anual de 5%, algo muito superior aos demais países do continente e mesmo comparado aos Estados Unidos.

O país que já perdeu seu acesso ao mar na Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1883, teve mais uma vez sua soberania atacada em 2019. Mas, assim como a sanha colonialista, a esperança na América Latina não tem fim.

Na hora de sua morte, Tupac Katari, o líder do povo aimará, em uma rebelião contra os colonialistas espanhóis, em 1781, disse: “Hoje me matam, mas amanhã voltarei e serei milhões”.

A América Latina tem a sua libertação em seu destino. Minha solidariedade ao povo boliviano e a Evo Morales.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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