Rodrigo Perez Oliveira

22 de janeiro de 2020, 23h56

A esquerda brasileira precisa de um “outsider”

Rodrigo Perez Oliveira: "Ainda que o colapso econômico venha e que a paciência da população com Bolsonaro acabe, nada garante que essa energia política fluirá à esquerda"

Jair Bolsonaro durante desfile do 7 de Setembro - Foto: Reprodução

O ano político de 2019 acabou sob os impactos da pesquisa Datafolha divulgada em meados de dezembro. Os números foram um verdadeiro banho de água fria naqueles que esperavam que as caneladas institucionais e a crise econômica enfraqueceriam o governo junto à opinião pública.

Muito pelo contrário: Bolsonaro consolidou sua base de apoio incondicional, que está em algo próximo a 30%, contando ainda com a confiança de mais da metade da população.

Hoje, Bolsonaro é mais carismático e popular que Lula, especialmente junto a uma baixa classe média do sudeste/sul do país cuja densidade demográfica é decisiva numa eleição.

A libertação de Lula ainda não surtiu o efeito desestabilizador que muitos esperavam, e torciam.

E não, não vou brigar com os números, pois isso significaria negar a realidade. A situação é a pior possível depois das eleições de 2018: 12 milhões de desempregados, 38,6 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade, sem nenhuma seguridade social. Letalidade policial atingindo números assustadoramente inéditos. O quilo da carne de segunda na casa dos 30. O litro da gasolina perto dos 5.

Ainda assim, Bolsonaro conta com o apoio de uma parcela considerável da sociedade civil. Precisou muito menos para que as ruas se levantassem contra Dilma entre 2013 e 2016. E nem adianta botar a culpa na imprensa, pois a mídia hegemônica, tal como fez com Dilma, também bombardeia Bolsonaro diariamente.

Por que isso acontece?

Uma primeira hipótese diz respeito ao tempo de governo. Bolsonaro acaba de terminar o primeiro ano de mandato. Isso, somado à narrativa que diz que o PT destruiu o Brasil, pode explicar a paciência da opinião pública com o presidente. Mas o que a pesquisa mostra é algo mais do que apenas boa vontade e paciência. É adesão e confiança.

Acredito que a explicação seja outra.

Bolsonaro encarnou uma certa narrativa de interpretação do Brasil que tem vida longa no imaginário nacional e foi turbinada pelas manifestações populares que aprendemos a chamar de “jornadas de junho de 2013”. Segundo essa narrativa, a política institucional é naturalmente corrupta e corruptora.

O político profissional, eleito pelo voto popular, é potencialmente corrupto. A corrupção seria o câncer nacional, a mazela responsável por todos os nossos problemas.

“Não gostamos de políticos. Gostamos de Ramones”, disse, em tom lacrador, uma das líderes do movimento social que em 2013 puxou as jornadas.

Quando o mundo parecia desabar, Jair Bolsonaro, com algum senso de oportunidade, encenou o “diferente de tudo que está aí”, o que não deixa de ser verdade em alguma medida. Durante quase 30 anos, Bolsonaro foi o diferentão no Congresso Nacional.

Como Bolsonaro sempre foi um “outsider” da IV República, deputado de baixo clero, com pouca projeção, seu nome passou batido pelo tsunami moralizador deflagrado em 2013. É que Bolsonaro era tão irrelevante, tão desprestigiado entre seus pares, que sequer conseguiu se envolver em grandes esquemas de corrupção. Teve que se contentar com as rachadinhas. Corrupção rasteira, vulgar, daquele tipo que nenhum delegado, procurador ou juiz quer investigar e combater. Não dá mídia, não dá Ibope.

Em síntese: em meio ao apocalipse, Bolsonaro se transformou na aposta no novo, na esperança, em potência indutora de utopias. Pesquisas de opinião mostram que população brasileira até se incomoda com o jeitão meio aloprado do presidente, mas está disposta a esperar, como se fosse o preço a ser pago por um futuro melhor.

Até quando isso vai durar? Alguns acreditam que a crise econômica desidratará Bolsonaro. Pra isso seria necessário um verdadeiro colapso econômico, com crise de abastecimento e mais da metade da população ativa em total desocupação. É difícil imaginar uma economia tão complexa como a brasileira colapsando nesse nível. Além de tudo, os aplicativos vêm atenuando o desmonte do mercado de trabalho formal, e ainda sob os aplausos de alguns trabalhadores, que se sentem mais “livres” nas novas relações de trabalho.

A insatisfação com a opressão patronal que por mais de 100 anos foi o centro da identidade ideológica da esquerda foi apropriada pelo capital na chave do empreendedorismo. O capitalismo tem impressionante capacidade de transformação.

A insatisfação coletiva com a reforma da previdência também não é pra já. No Chile demorou 30 anos.

Mas ainda que o colapso econômico venha e que a paciência da população com Bolsonaro acabe, nada garante que essa energia política fluirá à esquerda.

A esquerda perdeu a capacidade de induzir utopias e está marcada com a cicatriz da “velha política”, da corrupção.

Caso Bolsonaro desidrate, o mais previsível é que outra liderança de direita se beneficie, outro personagem capaz de encenar a “nova política”, de se mostrar como um “outsider” da política institucional. Sérgio Moro é candidato óbvio. Inclusive, a tal pesquisa do Data Folha mostra que Moro é ainda mais popular que o próprio Bolsonaro.

Luciano Huck também é candidato forte.

A sensação que dá é que a esquerda precisa de um “outsider” pra chamar de seu, alguém completamente desvinculado da política institucional. Nomes não faltariam: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Drauzio Varella. Na cena baiana surgiu recentemente Guilherme Belitani, presidente do EC Bahia. Personagem bastante interessante, muito interessante mesmo.

Há momentos na história em que pra mudar a realidade é necessário antes aceitá-la.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

 


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