sexta-feira, 30 out 2020
Publicidade

A lógica da crítica bolsonarista

Todos que acompanham a política brasileira com alguma atenção estão com um olho nos números relativos à pandemia da covid-19 e com o outro nos números das pesquisas de opinião.

Números de opinião pública não são dados tão objetivos assim. Sempre cabe interpretação e cada um tenta puxar farinha para o próprio saco.

Seja qual for a interpretação, algo me parece óbvio: Bolsonaro ainda conta com a adesão de 30% da população brasileira, aproximadamente 60 milhões de pessoas em números absolutos. Não é pouca coisa. Não é pouca coisa mesmo.

Só na cronologia da pandemia, Bolsonaro já contrariou as autoridades sanitárias nacionais e internacionais, já fez barraco com governador de Estado, já deixou aliados próximos (incluindo um dos filhos) ofenderem a China, comprometendo a tão necessária compra de insumos médicos, já divulgou remédio que ainda não foi testado, já apoiou carreata de patrões que queriam expor seus funcionários a risco de morte.

Ainda assim, continua com apoio de 30% da população brasileira. De onde vem essa força?

Pra começar a responder, é necessário tomar a pergunta como questão legítima. Se o leitor parte do princípio de que esses apoiadores são “rebanho de gado”, “loucos”, “burros”, talvez nem deva continuar na leitura, pois a resposta já está dada.

Acredito que existe, sim, racionalidade no bolsonarismo, o que não quer dizer que seja legítimo do ponto de vista ético. Não é.

A força de Bolsonaro não pertence exatamente a ele, mas sim aquela que talvez seja a principal condição estrutural da modernidade ocidental, consolidada em algum momento do final do século XIX, e caracterizada pela crítica, pela desconfiança e pela premissa de que a realidade é manipulada pelos “poderosos”.

Marx critica as representações da realidade forjadas pela burguesia, vendo aí estratégias deliberadas de dominação através da produção do falso. Nietzsche critica as pretensões de poder da filosofia socrática, propondo uma filosofia livre da doutrinação racionalista. Isso só pra ficar nos autores mais apreciados pelas esquerdas contemporâneas.

Na esteira daquilo que Olavo de Carvalho já vinha falando desde o início da década de 1990, o bolsonarismo radicalizou esse gesto crítico, apresentando-o numa versão perversa, esteticamente repulsiva e, o que é pior, bastante popular, muito mais que Marx e Nietzsche.

Se estou falando que a força política do bolsonarismo é feita do mesmo barro que as críticas de Nietzsche e Marx? Sim, estou dizendo isso mesmo. Estou dizendo que o bolsonarismo não é fruto estranho no terreno da modernidade. O bolsonarismo é coerente com a modernidade. Como hoje somos mais modernos que nunca, o bolsonarismo se transformou na principal cultura política de um dos países mais importantes do mundo.

Não à toa que os alvos da crítica bolsonarista são a imprensa tradicional e a comunidade científica, ambas acusadas de fazerem o papel de aparelhos ideológicos de uma conspiração comunista internacional.

Claro que a formulação não estava elaborada desde sempre, desde os tempos em que Bolsonaro subia à tribuna do parlamento para elogiar a ditadura militar. Ali, ele era deputado de baixo-clero, inexpressivo e aparentemente inofensivo.

Mas quando a partir de 2013 a sociedade brasileira passa a se perceber como estruturalmente colapsada, o saudosismo autoritário evoluiu para a crítica sistêmica. Não digo que tenha sido um salto intencional, tampouco premeditado. Foi apenas um processo possível, como a própria evolução da crise demonstrou.

Uma sociedade que se percebe estruturalmente colapsada busca entender as origens do colapso, precisa definir os responsáveis. A tese vitoriosa foi a do Olavo de Carvalho, segundo a qual existe desde meados do século XX uma grande conspiração internacional do “marxismo cultural”. O encontro do carisma de Bolsonaro com a critica olavista talvez seja a maior tragédia política da história do Brasil.

É a crítica “a tudo que está aí”. É a suposição de que existem projetos de dominação nas artes, na ciência, nas universidades, na imprensa, todas funcionando como um maquinário ideológico cujo objetivo é legitimar os poderosos.

O bolsonarista típico é o homem médio que jamais foi protagonista na vida e que pela primeira vez se sente participando de algo verdadeiramente grande. Que se sente excitado por ter entendido o funcionamento dos aparelhos do poder. É a excitação do herói crítico que se lança corajosamente contra os poderosos.

Produto da crítica radicalizada, Bolsonaro é incapaz de ser governo. Ele precisa sempre ser o crítico, ser aquele que confronta as estruturas. É por isso que nessa pandemia estamos vendo algo inusitado: um presidente que faz oposição ao seu próprio governo.

A crítica moderna: essa é a energia que alimenta o bolsonarismo.

Nem acho impossível que Bolsonaro em algum momento perca o apoio de sua base. Se desejarmos olhar para os dados da pesquisa com algum otimismo, veremos que 17% dos eleitores de Bolsonaro se dizem arrependidos. Por outro lado, o otimismo acaba quando constatamos que os principais antagonistas de Bolsonaro são João Dória e Wilson Witzel, outros que despontaram como lideranças políticas relevantes no movimento de crítica às instituições estabelecidas. Os arrependidos tendem a migrar para outro crítico, provavelmente de direita. No Brasil, a direita monopolizou a crítica.

É possível desenvolver alguma empatia com o bolsonarista típico, num esforço de compreensão. Basta lembrar a euforia que sentimos (a classe média intelectualizada e dita progressista) no banco do cinema, assistindo o “Coringa”. Ou a forma como torcemos, sentados no sofá, para a vitória dos “Dali” de “La casa de Papel”.

O Coringa é um crítico. O Professor é um crítico. Bolsonaro é um crítico. As críticas são diferentes, sem dúvida. Mas compartilham a mesma matéria prima, são filhas da mesma modernidade.

O mundo do bolsonarismo é o mesmo mundo que fez do “Coringa” e da “Casa de Papel” fenômenos da indústria cultural. O afeto político é o mesmo, exatamente o mesmo.

É o poderoso afeto da crítica.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum 

Rodrigo Perez Oliveira
Rodrigo Perez Oliveira
Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.