Rodrigo Perez Oliveira

09 de março de 2018, 18h36

A origem do lulismo e o PSOL

Em novo artigo, Rodrigo Perez Oliveira fala da força da candidatura de Boulos apoiada por Lula. “Boulos talvez seja a liderança brasileira que melhor fez trabalho de base nos últimos vinte anos. E Lula é o Lula. Seria uma candidatura forte, muito forte”

Lula já está monumentalizado, para o desespero de seus detratores de esquerda e de direita. Ninguém mais no Brasil fará política no campo progressista sem reivindicar o legado do lulismo – Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas

Já há algum tempo a crônica política anda bem animada nesse nosso simpático país tropical. Em ano de eleição, a animação vai ficando ainda maior, principalmente a essa altura do calendário eleitoral, quando as negociações pela formação das chapas ficam mais intensas.

Neste ensaio, quero tomar a polêmica indicação de Guilherme Boulos como pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, para examinar aquele que se tornou o mais valioso capital político da história do Brasil: o lulismo.

Este texto, portanto, não é sobre o PSOL, partido político de reduzida importância no cenário nacional. Também aqui o PSOL é coadjuvante, é pretexto para uma reflexão sobre o lulismo. É isto: o que o leitor e leitora têm sob os olhos é um texto sobre o lulismo.

Uma boa forma de começar é pelo começo, dizendo algumas palavras sobre as origens do lulismo.

Já é bem conhecida pelos estudiosos da política brasileira contemporânea a hipótese desenvolvida por André Singer, importante cientista político. Para Singer, o lulismo nasceu em 2006, no segundo turno das eleições presidenciais, quando o Presidente Lula enfrentou o tucano Geraldo Alckmin.

Ali, naquele momento, ainda segundo Singer, aconteceu, pela primeira vez na Nova República, uma clara divisão de classe no mapa eleitoral: os mais pobres votaram em Lula. Teria surgido, assim, o lulismo como fenômeno político independente do PT e diretamente identificado com a liderança carismática de Lula.

Quero discordar ligeiramente da interpretação de André Singer. Digo “discordar ligeiramente” porque a discordância é pontual e não substancial. Acho mesmo que Singer está certo quando identifica a existência do lulismo e o conceitua como um fenômeno político independente do PT e marcado pela liderança carismática de Lula. Porém, acho que Singer erra na cronologia e peca em não perceber o lugar do lulismo na história das ideologias políticas brasileiras.

O lulismo, na minha interpretação, é mais que um fenômeno político independente do PT e marcado pela liderança carismática de Lula. O lulismo é a atualização do trabalhismo inventado por Getúlio Vargas e alimentado por João Goulart e Leonel Brizola.

O lulismo não é exatamente uma novidade, pois suas premissas já estavam dadas no imaginário político brasileiro desde o final dos anos 1930. Por isso, acredito que o berço do lulismo não está nas eleições presidenciais de 2006, como afirma André Singer. O berço do lulismo está nas eleições presidenciais de 1998, quando após anos de tensão e conflito PT e PDT, Lula e Brizola, sentaram à mesa e lançaram uma chapa única. Foi nesse momento que Lula começou a entender que Brizola estava certo desde o início.

O lulismo, então, é o encontro de Lula, a principal liderança popular que já tivemos, com o trabalhismo, o mais importante projeto de modernização e desenvolvimento independentes que já existiu no Brasil. É por causa dessa combinação que o lulismo se tornou o mais valioso capital político da história do Brasil. É esse capital político que o PSOL quer, simplesmente, jogar fora. Mas por quê? Respondo no finalzinho do texto.

Resumindo meu argumento:

O lulismo significa a maturidade política de Lula, que finalmente aderiu ao trabalhismo, ideologia que negou desde o final dos anos 1970. Pois sim, meus amigos, pode parecer estranho falar isso agora, mas o jovem Lula e o primeiro PT não queriam o trabalhismo, não reivindicavam a herança de Getúlio. Chamavam Getúlio de “populista”, “autoritário”, “ditador”. Foi por conta dessa rejeição ao trabalhismo que Lula e Brizola, o PT e o PDT, brigaram durante quase vinte anos.

Mas qual era a diferença entre o primeiro petismo liderado pelo jovem Lula e o trabalhismo representado pelo velho Leonel?

Fora as disputas por posições de poder características do mundo da política, a diferença é, sobretudo, conceitual. A diferença, que não é pequena, está no papel atribuído ao Estado.

Para o trabalhismo, o Estado é o grande fomentador da modernização e do desenvolvimento nacional, funcionando como uma espécie de tutor da sociedade civil. Para o primeiro petismo, a sociedade civil deveria ser ela mesma a potência da modernização e do desenvolvimento. Com essas ideias, o primeiro petismo estava mais próximo do primeiro tucanismo, do PSDB, do que do trabalhismo. Parece loucura, né? Mas não é.

Tanto o PT como o PSDB se transformaram ao longo dos anos 1990 e em pouca coisa lembram os partidos políticos que nos anos da redemocratização representavam as expectativas do campo político progressista. Mas isso é conversa pra outro texto.

Retomando o fio….

O primeiro petismo, comandando pelo jovem Lula, sonhava com uma sociedade civil ativa, se organizando a partir das bases sociais e sendo capaz de pautar o Estado, de coordenar a ação do Estado. Já Brizola olhava com ceticismo para o sonho petista, como quem diz “essas crianças ainda não entenderam nada”.

O primeiro PT, na voz de seus principais intelectuais (Marilena Chauí e Paul Singer, por exemplo), dizia que Brizola era um “caudilho personalista”, “filhote de ditador”. Brizola reagia, dizendo que o PT era a “UDN de macacão”. Talvez seja possível atualizar o gracejo de Leonel e dizer que hoje, o PSOL, que ao negar o lulismo nega também o trabalhismo, é a UDN de brinco e camisa florida.

Piada boa é aquela que não perdemos. Enfim.

O tempo passou e Lula perdeu eleições. Perdeu para dois Fernandos: o Collor e o Cardoso. O povão não votava em Lula e o PT era o partido que embalava os sonhos dos estudantes universitários e da classe média progressista. Em 1989, o povão preferiu Collor e em 1994 preferiu FHC.

Mas como pode?

É que aquele Lula era outro, era o jovem Lula.

O jovem Lula era visto pelo povão como o operário agitador, analfabeto, cachaceiro, grevista. Lula era visto como símbolo da instabilidade.

Definitivamente, o povão não gostava do jovem Lula. O povão gosta é do Lula maduro, conciliador, que escreve cartas pra acalmar as pessoas. É tolo quem acha que a famosa “Carta aos brasileiros” de 2002 foi endereçada apenas ao mercado. Foi endereçada ao povão também. Tal como o mercado, o povão também quer estabilidade.

Às duras penas, na experiência da derrota e da rejeição, Lula cresceu, amadureceu e entendeu o Brasil. Lula entendeu que o Brasil ainda era (e ainda é) uma nação de modernização incompleta, um país com mais de 5500 municípios, com uma parte considerável de sua população morrendo de fome e sede. O Brasil é um país que ainda não conseguiu universalizar o acesso ao ensino médio.

Num país assim, as pessoas mais pobres querem sobreviver, querem viver dignamente. E pra isso, o Estado é fundamental. Num país como o Brasil, o Estado é, antes de tudo, agente civilizatório e nenhum projeto político desenvolveu melhor o potencial civilizatório do Estado brasileiro que o trabalhismo.

Num estudo sobre a reação da população do Rio de Janeiro à morte de Getúlio Vargas (em agosto de 1954), Jorge Ferreira, historiador e professor da Universidade Federal Fluminense, mostra que as pessoas identificavam o Presidente morto com uma vida melhor e mais digna. Não se trata de fanatismo, ou de populismo, tampouco de manipulação. É cálculo político.

A população mais pobre sentiu, no dia a dia, que com o “Doutor Getúlio” no Catete a vida era melhor, que o prato estava mais cheio. A vida não melhora com a ação voluntariosa das elites, pois nossas elites, na feliz formulação de Jessé de Souza, são atrasadas, arcaicas. Tampouco a vida vai melhorar a partir de uma ação organizada pela massa de pessoas famintas e subnutridas. Essas pessoas morrem pouco a pouco, vendem no almoço pra comprar na janta.

A vida melhora quando uma liderança progressista consegue ocupar um pedaço do Estado. Essa é a revolução à brasileira.

Foi isso que o trabalhismo fez. Foi isso que o lulismo fez.

Como no Brasil jamais existiu um Robespierre, como ninguém jamais cortou a cabeça das oligarquias da terra, o campo político progressista é sempre mais fraco, já que os filhotes das oligarquias ainda estão aí, ocupando quase todas as posições de poder da República. Por isso, carece de fazer alianças. Getúlio e Jango se aliaram com a burguesia nacional e com frações das oligarquias. Foram golpeados, mortos. Lula fez algo parecido e também está sendo golpeado.

Mas golpe não significa uma completa marcha ré no processo histórico, ainda que sempre promova retrocessos. Mesmo com golpes e mortes, a vida da população mais pobre melhorou depois de Jango e Getúlio. Ainda que com toda a perseguição, a vida da população mais pobre melhorou depois de Lula.

Por mais que os golpistas tentem, eles não conseguem passar uma borracha na história. Alguma coisa sempre fica, algo sempre sobrevive.

O que estou querendo dizer é que em 1998, Lula entendeu que não adiantava esperar a “auto-organização da sociedade civil” e o “despertar de uma consciência política” em pessoas que estavam lá no sertaozão do Brasil, bebendo água contaminada e comendo lagarto. Era necessário ocupar um pedaço do Estado, custasse o que custasse.

É certo que Lula e Brizola perderam as eleições e FHC foi eleito no primeiro turno, justamente porque encarnava o sucesso do plano real e a imagem da estabilidade econômica e do controle da inflação. Mas mesmo com a derrota, a aproximação entre Lula e Brizola, depois de tanta tensão, de tantos conflitos, apontava para algo novo na política brasileira. Ou melhor, para algo nem tão novo assim: era o início do lulismo, era a atualização do trabalhismo, era o “transformismo petista”.

“Transformismo petista” é um termo que costuma ser utilizado de forma pejorativa, quase como sinônimo de traição. Discordo completamente, pois entendo o “transformismo petista” como o amadurecimento político de Lula, que se tornou o tipo de liderança que o Brasil precisa. Pode não ser a liderança dos sonhos da esquerda brasileira, mas é exatamente a liderança que o Brasil precisa.

E a população mais pobre entendeu isso perfeitamente. Mesmo com quase quatro anos de intenso bombardeio midiático, Lula sobreviveu e partiria para a corrida presidencial com 35% dos votos. É muita coisa. Muita coisa mesmo.

Lula sobreviveu porque tal como o “Dr Getúlio” personificou aquilo que é mais sagrado para os brasileiros e brasileiras mais pobres: a ideia da “vidinha digna”, sem grandes sustos, sem devaneios revolucionários. Apenas uma vidinha digna.

Lula já está monumentalizado, para o desespero de seus detratores de esquerda e de direita. Ninguém mais no Brasil fará política no campo progressista sem reivindicar o legado do lulismo. O lulismo, tal como o trabalhismo, é insuperável. Qualquer avanço será feito a partir do lulismo, jamais contra o lulismo.

Se é assim, por que o PSOL rejeita tanto o lulismo? Por que a simples a manifestação de Lula em apoio à candidatura de Boulos abriu uma crise interna sem precedentes na história do partido carioca?

Nunca devemos subestimar a capacidade das lideranças do PSOL em serem incompetentes na interpretação da realidade. Mas não acho que a resposta esteja na incompetência, não dessa vez.

O problema está na força de uma candidatura de Boulos apoiada por Lula. Boulos talvez seja a liderança brasileira que melhor fez trabalho de base nos últimos vinte anos. E Lula é o Lula. Sem dúvida, seria uma candidatura forte, muito forte.

Com essa candidatura, pela primeira vez o PSOL seria competitivo numa eleição e correria risco de vencer. E se vencesse não teria mais jeito, não daria pra fugir: o PSOL seria obrigado a governar. E governar um país como o Brasil é difícil demais. É mais fácil ser pedra que vidraça.

Referências:
– FERREIRA, Jorge. O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
– SINGER, André. Raízes sociais e ideológicas do lulopetismo. Novos Estudos: Novembro de 2009, n° 85
– SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.


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