Rodrigo Perez Oliveira

06 de setembro de 2019, 22h49

Conservadores e revolucionários no Brasil do bolsonarismo

Rodrigo Perez Oliveira: “Quem disse que ser revolucionário é sempre bom e ser conservador é sempre ruim? Depende da ocasião, como quase tudo na vida”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A disputa entre conservadores e revolucionários data do século XVIII e marca um dos primeiros capítulos da modernidade política. Enquanto em Paris, os revolucionários cortavam a cabeça da aristocracia, zeravam a contagem do tempo e prometiam um mundo novo, pensadores críticos à revolução questionavam à ação jacobina.

De um lado, Voltaire, Ropespierre, Danton. Do outro lado, Burke, Toqueville, Chateaubriand e Möser.

Revolucionarismo e conservadorismo são, antes de tudo, tipos distintos de comportamento e pensamento político.

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Revolucionário é aquele que olha para a situação presente e vê o caos, a crise. É quem propõe rupturas e promete um futuro melhor, nem que pra isso sejam necessários alguns desvios morais. Se for para realizar o futuro imaginado, o revolucionário considera legítimo matar e torturar. A ética revolucionária é futurista. Para o revolucionário, o tempo presente é curto, é apenas uma passagem rumo ao futuro desejado.

Já o conservador é menos pretensioso, é cético. O conservador olha com desconfiança para as promessas do revolucionário. O conservador questiona: “De onde você tirou a ideia de que o futuro será tão bom assim?”. O conservador é apegado à concretude da experiência, não é dado às abstrações. Para o conservador, o presente, com todas as suas imperfeições, é o resultado do acúmulo da história, é o que de melhor foi possível construir. A ética conservadora é presentista. O conservador não acha legítimo sacrificar a vida dos que já existem em nome daqueles que ainda nem nasceram.

Hoje, no Brasil, quem são os revolucionários? Quem são os conservadores?

Como cultura política, o bolsonarismo é o resultado da percepção coletiva do colapso do regime político que por anos chamamos de “Nova República”. Um regime que estaria deteriorado pela corrupção sistêmica, pelos maus costumes e pela falência do Estado.

Na narrativa bolsonarista, o modelo de Estado distributivo viabilizado pelo petismo seria corrupto e corruptor. Corrupto porque fundado na roubalheira, no toma-lá-da-cá. Corruptor porque inspirou na sociedade hábitos degenerados, hedonistas e desmedidos: os direitos humanos protegeram bandidos, o bolsa família premiou a vagabundagem, o tratamento para o HIV no SUS estimulou a sem-vergonhice, a educação sexual nas escolas erotizou as crianças.

Para colocar o Brasil no caminho do progresso futuro seria necessário romper com o petismo em todas as esferas: na política, na educação, na cultura. A revolução bolsonarista nega o presente e promete um futuro saneado, austero e bem-comportado.

Do outro lado, na oposição, estão os que defendem os direitos sociais que, à luz da Constituição de 1988, foram garantidos pelos governos petistas. Apesar de não ter assinado a Constituição, o PT, sob a liderança de Lula, foi o partido que mais a colocou em prática.

Direitos trabalhistas, previdência solidária, SUS universal, gratuidade nas universidades públicas.

A oposição ao bolsonarismo passa pela tentativa de conservação de direitos adquiridos, de defesa da Constituição Cidadã.

Os bolsonaristas querem a destruição do que já existe e a construção de uma “Nova era”. Desejam mudar o sistema educacional brasileiro porque acreditam que ele foi corrompido por um “marxismo cultural” que manipula as nossas crianças. A pedagogia bolsonarista opera com a mesma gramática da pedagogia jacobina, que nos anos da Revolução acusou a Igreja Católica de doutrinar as crianças francesas.

Os temas e os atores são diferentes, a causa também. A gramática é a mesma. Gramática revolucionária.

A oposição ao bolsonarismo defende a manutenção da pedagogia crítica, da LDB e do ECA. Ninguém aqui acredita que a educação brasileira era uma maravilha antes de Bolsonaro vencer as eleições. Também ninguém nega que na série histórica, a situação recente trouxe avanços. A oposição quer conservar esses avanços.

Para a oposição, o presente (entendido como passado recente) é melhor do que o futuro prometido pelo bolsonarismo. O tempo da oposição conservadora não é evolutivo.

De conservador o bolsonarismo tem absolutamente nada. O comportamento bolsonarista é revolucionário. Os conservadores são os outros, são os que lutam pela conservação da situação estabelecida até o início da crise, que colocava o Estado na posição de agente provedor de direitos sociais.

O bolsonarismo idealizou um futuro para construir uma narrativa da promessa e conseguiu incitar parte da população à ruptura revolucionária. A oposição ao bolsonarismo construiu uma narrativa de defesa de direitos adquiridos, de conservação de um determinado estado de coisas.

A ver quem vai vencer essa disputa.

Sei que parece estranho dizer que o bolsonarismo é revolucionário e a oposição é conservadora. Poucos são os que gostam de ser vistos como conservadores. Para alguns, ser chamado de conservador é uma ofensa moral. Charmoso mesmo é ser revolucionário.

Por quê? Quem disse que ser revolucionário é sempre bom e ser conservador é sempre ruim?

Depende da ocasião, como quase tudo na vida. O fascismo é um tipo de ideologia revolucionária. No Brasil dos nossos dias, a resistência é conservadora.

Não sei onde estão o leitor e a leitora. Eu estou do lado dos conservadores.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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