Rodrigo Perez Oliveira

18 de fevereiro de 2020, 23h17

O Carnaval está sempre certo!

Leia na coluna de Rodrigo Perez: “Como cada caso é um caso, é muito difícil ter uma resposta única que não caia no dogmatismo tradicionalista ou no extremismo identitário. O bom senso continua sendo o melhor conselheiro”

A atriz Alessandra Negrini - Foto: Luisa Vaz/Divulgação

Ao que tudo indica, neste ano o Carnaval será marcado pela polêmica das fantasias. Explico.

Parte da esquerda brasileira, formada, sobretudo, por coletivos identitários, acredita que algumas fantasias são expressões de violência simbólica contra grupos historicamente oprimidos. Homens travestidos de mulher. Foliões fantasiados de índio. Pessoas brancas com o rosto pintado de preto, simulando negritude. Nada disso seria adequado e aqueles que insistirem nas fantasias politicamente incorretas deveriam ser punidos por uma espécie de tribunal moral que condenaria o transgressor ao “cancelamento”, o que significa isolamento social e constrangimento público.

Os casos com mais repercussão aconteceram em Belo Horizonte, São Paulo e no Rio de Janeiro.

A prefeitura de Belo Horizonte produziu uma cartilha convidando os foliões à reflexão. “Fazer piada com a história e o sofrimento de alguém não tem a menor graça, não é mesmo?”. Assim começa o documento publicado em diário oficial no dia 13 de fevereiro, que diz que “povos indígenas, ciganos, fiéis de religiões de matrizes africanas, população LGBTQI e as mulheres” devem ser preservados da jocosidade carnavalesca. O texto não fala nada sobre os símbolos cristãos.

Em São Paulo, no dia 16 de fevereiro, Alessandra Negrini foi duramente criticada por ter aparecido em um bloco vestindo maiô cavado e ostentando adereços indígenas. Os críticos disseram que a atriz endossou a narrativa colonial da erotização da mulher indígena, além de ter se apropriado ilegitimamente de um lugar de fala que não é o seu.

No Rio de Janeiro, o tradicional bloco “Cacique de Ramos”, que participará de seu 57º Carnaval, foi alvo de protestos nas redes sociais. Internautas alegam que roupa de índio é manifestação cultural e transformá-la em fantasia significaria caricaturar a cultura indígena, o que seria um gesto racista.

A polêmica das fantasias faz parte do esforço das esquerdas identitárias em confrontar aquilo que consideram ser manifestações da violência estrutural nas práticas carnavalescas. A jornada não começou agora. Em 2017, o Carnaval foi marcado pela tentativa de interdição das marchinhas com mensagens machistas e homofóbicas. Em 2018, ganhou força, sob a liderança de Marielle Franco (então vereadora no Rio de Janeiro), a campanha “não é não”, com o objetivo de combater o assédio às mulheres.

Temos aqui uma discussão para lá de complexa e que, como quase tudo no Brasil dos nossos dias, polariza opiniões e alimenta extremismos.

Aqueles que se apresentam como defensores da tradição carnavalesca não admitem nenhum tipo de regulação. O Carnaval seria momento de total anomia, quando tudo é permitido. Já os que pretendem “conscientizar” agremiações carnavalescas tradicionais afirmam que as os blocos “terão que se adaptar” ao empoderamento das minorias. É como se um jovem militante do PSOL carioca, nascido e criado em Laranjeiras, aparecesse na sede do Cacique de Ramos, em Olaria, para ensinar aos veteranos do bloco como o Carnaval deve ser festejado.

Novamente, o caminho adequado é o da ponderação. De forma alguma, o Carnaval é um momento de suspensão da lei. Nunca é demais lembrar que a entrega das chaves da cidade ao Rei Momo é apenas um ato simbólico. Durante o Carnaval, continua não podendo roubar. Continua não podendo matar. E continua não podendo estuprar mulheres, beijá-las à força ou coagi-las a fazerem o que não desejam.

O “não é não” significa a disciplinarização da festa? Sim, significa. Mas é algo para lá de necessário em uma país atravessado pela cultura do estupro.

Desconheço situação onde pessoa branca se vista de pessoa preta com outro objetivo que não seja a ridicularização. O “blackface” e a fantasia da “nega maluca” são brincadeiras sem graça, daquelas que nem merecem interação. Viu no bloco? Ignora o bobão. Afinal, o que ganhamos debochando de pessoas que sofrem cotidianamente todo o tipo de violência? Melhor debochar do presidente, do prefeito.

Completamente diferente são os homens fantasiados de mulheres e os foliões fantasiados de índio. São muito comuns em diversos lugares do Brasil os “blocos das piranhas” (“muquiranas”, aqui em Salvador), onde homens barbados e desengonçados saem na rua vestidos de mulher. Com algum excesso aqui e outro ali, a brincadeira é quase sempre saudável, engraçada.

O folião não se fantasia de índio para ridicularizar a cultura indígena. O colorido das penas, a forma dos adereços são um convite ao lúdico. Por isso, fantasia de índio é um clássico no Carnaval. No que se refere ao Cacique de Ramos, como bem lembrou o genial Luiz Antonio Simas, o ritual carnavalesco é chancelado pelas autoridades religiosas tradicionais. Não há nenhum racismo ali. Chega a ser ofensivo levantar essa hipótese.

Sempre que uma polêmica explode, procuro saber de qual lado está Luiz Antonio Simas. Costuma ser um ótimo exercício de orientação, pois são grandes as chances de Simas estar do lado certo da história.

Como cada caso é um caso, é muito difícil ter uma resposta única que não caia no dogmatismo tradicionalista ou no extremismo identitário. O bom senso continua sendo o melhor conselheiro.

Definitivamente, não precisamos de nenhuma patrulha dos bons costumes monitorando o Carnaval. Cada um que faça o que bem entender e que as autoridades competentes estejam vigilantes e cumpram sua função, reprimindo e punindo aqueles que ultrapassarem os limites da civilidade, fixados por lei.

Fora isso, é muito sintomático que as fantasias e o comportamento dos foliões chamem tanto a atenção da esquerda identitária, enquanto a situação degradante daqueles que trabalham durante o Carnaval é completamente ignorada, não merecendo nem ao menos um twittaço de protesto.

Médicos, enfermeiros, bombeiros, guarda-municipais e policiais militares trabalham sob estresse e em condições precárias. Vendedores ambulantes são explorados por marcas de cerveja e a esquerda brasileira, que deveria sair em defesa dos oprimidos, simplesmente silencia.

Há no capitalismo alguém mais oprimido que os trabalhadores e os pobres?

Seja como for, as polêmicas deixam claro que o Carnaval é sempre um ato político, pois traz à luz as vísceras da sociedade, transbordando nossos dramas pelas franjas da festa. Em meio a tantas polêmicas, somente uma certeza é possível: de alguma forma, o Carnaval está sempre certo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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