Rodrigo Perez Oliveira

30 de agosto de 2019, 22h50

O dia depois de amanhã

Rodrigo Perez Oliveira: “O bolsonarismo está diante de um impasse, pois não tem força suficiente para suprimir completamente a democracia e é incapaz de governar por dentro das instituições”

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As forças que controlam o capitalismo periférico brasileiro embarcaram na canoa de Jair Bolsonaro num clima de “se não tem tu, vai tu mesmo”. Deputado de baixo clero, homem com hábitos rústicos e grosseiros, Bolsonaro jamais foi o predileto daqueles que tentam maquiar a barbárie da acumulação capitalista com o verniz da civilização liberal.

Mídia hegemônica e capital financeiro sonhavam com Luciano Huck. Descolado, bom comunicador, bem casado e pai de família. Huck teve medo da exposição e não homologou a candidatura. Deve ter o que esconder.

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Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, não tem o carisma de Luciano Huck, mas tem ficha corrida com bons serviços prestados. A candidatura tucana foi um fracasso, talvez o maior fracasso da recente história eleitoral brasileira. O PSDB foi reduzido a pó e perdeu o controle sobre o antipetismo.

Enquanto isso, com o impedimento de Lula, Bolsonaro era impulsionado por um clima de caos institucional alimentado, sobretudo, pela aliança entre a Operação Lava Jato e a mídia hegemônica.

Como fenômeno político, o bolsonarismo é o filho não planejado do acasalamento do lavajatismo com a mídia hegemônica. Como fenômeno cultural, é o produto do ressentimento de uma classe média bruta, cafona e desintelectualizada.

Sob alguma desconfiança, Bolsonaro começou a governar em janeiro, sendo disputado por generais do Exército, pelo capital financeiro, pelo neomacarthismo olavista. Militares e capitalistas acreditaram ser possível controlar e disciplinar o homem que durante trinta anos xingou pessoas na Câmara dos Deputados, participou de programas de auditório sensacionalistas e soltou rojões em 31 de março.

Logo perceberam que Bolsonaro é incontrolável. Por mais de uma vez, os generais foram humilhados pelos príncipes presidenciais e por Olavo de Carvalho. Santos Cruz, que ainda tinha algum apreço pela própria biografia, pulou fora.

O Exército brasileiro foi humilhado pelo decreto de armas, que somente na sua terceira versão, editada em junho de 2019, reconheceu a autoridade técnica das Forças Armadas no assunto. O capital financeiro viu as tropeçadas de Bolsonaro atrapalharem a tramitação da Reforma da Previdência, que só saiu por causa da liderança de Rodrigo Maia, e ainda assim de forma tímida. O capital financeiro não está satisfeito com o texto aprovado.

Nesses quase nove meses de governo, não houve sequer uma semana em que Bolsonaro tenha se mantido nos limites da liturgia do cargo que ocupa. Crise atrás de crise, sendo a “questão amazônica”, sem dúvida, a mais grave de todas.

Quando no início de agosto, ruralistas, excitados pelo discurso antiambientalista de Bolsonaro, atearam fogo na floresta, o mundo se levantou contra o governo brasileiro.

É claro que Bolsonaro foi usado como bucha de canhão por Emmanuel Macron, que viu no caricato presidente brasileiro a chance de assumir maior protagonismo no âmbito do G7.

Bolsonaro é antítese perfeita para Macron, é o outro que todo liberal limpinho e barbeado deseja ter para chamar de seu.

Bonito, educado, casado com uma mulher 24 anos mais velha, Macron é o líder político perfeito para o capitalismo financeiro, leve, clean. Macron não tensiona mais que o necessário. Um Macron em cada país do mundo, agradando banqueiros e tirando direitos dos mais pobres com charme e leveza, sempre respeitando as subjetividades de mulheres e da comunidade LGBT: tá aí utopia política neoliberal.

Bolsonaro está desidratando e, conforme mostram as recentes pesquisas de opinião, cada vez mais restringe sua base de apoio aos grupos fascistizados, dispostos a irem com ele até o fim, custe o que custar. Ao que parece, esses grupos não são tão numerosos como Bolsonaro gostaria, e precisa.

Ainda assim, Bolsonaro não recua e a cada crise dobra a aposta. É a coragem típica dos suicidas, dos que não têm mais nada a perder.

Ao interferir na Polícia Federal para salvar o filho mais velho, Bolsonaro humilhou Sérgio Moro e esbofeteou o rosto da Operação Lava Jato, que até então era aliada estratégica importante. Os bacharéis de Curitiba reagiram. Deltan Dallagnol criticou Bolsonaro publicamente e se negou a receber um prémio ao seu lado.

Mesmo acuada pelos vazamentos feitos pelo Intercept Brasil, a Lava Jato também dobrou a aposta.

O bolsonarismo e o lavajatismo estão disputando a mesma base social, o que acaba enfraquecendo ambos. É o fim da aliança que venceu as eleições presidenciais de 2018. Talvez a esquerda ganhe algo com isso.

Do jeito que está, cada vez mais radicalizado, é difícil imaginar Bolsonaro terminando o mandato. Três anos e quatro meses é muito tempo. Por outro lado, nada indica que o presidente irá moderar o discurso e governar dentro da normalidade. Se fizer isso, Bolsonaro frustrará sua base orgânica sem conseguir agradar aqueles que o rejeitam.

Na política, rejeição costuma ser realidade consolidada, difícil de ser modificada.

O bolsonarismo está diante de um impasse: não tem força suficiente para suprimir completamente a democracia e é incapaz de governar por dentro das instituições.

O dia depois de amanhã já começou.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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