Rodrigo Perez Oliveira

10 de dezembro de 2019, 23h52

O fator Dilma Rousseff

Rodrigo Perez Oliveira: "Por mais que os aspectos culturais e comportamentais sejam muito importantes na configuração dos afetos políticos nos dias de hoje, a economia ainda é o aspecto definidor da disputa"

Foto: Reprodução/ TV Globo

Especialmente em momentos de crise, os movimentos da política devem ser acompanhados no dia a dia. Os políticos profissionais mais habilidosos e os analistas mais experimentados sabem perfeitamente disso. Por isso, as pesquisas de opinião atraem tanto a atenção, pois é aí que temos a possibilidade de identificar as curvas, a formação de tendências.

Todos os que acompanham a política brasileira com algum método estão debruçados sobre a pesquisa Datafolha divulgada no último domingo, 8 de dezembro. Os defensores do presidente Jair Bolsonaro torcem os números para ver na realidade o fortalecimento do governo. Os opositores torcem os números para ver na realidade o início do fim do fascismo à brasileira.

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Torcidas à parte, se analisarmos os números com cuidado não perceberemos nenhuma grande novidade em relação aos dados divulgados em pesquisa anterior, publicada em agosto.

Com alguma variação pra lá e pra cá, é possível perceber a sociedade brasileira dividida em três fatias com mais ou menos 30% cada, ficando aí voando uns 10%, para margem de erro e arredondamentos.

– 30% avaliam o governo como “ótimo e bom”. É a base social orgânica do bolsonarismo. Dificilmente essas pessoas se movimentarão. Estão dispostas a ir com o Bolsonaro até o fim. É pra essa camada que o presidente fala quando se apresenta como um “pai de família” perseguido pela mídia, pelo judiciário e pela classe política corrupta. É essa a base social que Bolsonaro excita quando publica vídeo de Leão saneador cercado por hienas. É pra essa base que o bolsonarismo joga quando fala em AI-5, excludente ilicitude, fechamento do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro é extremamente competente em manter essa gente mobilizada, em estado de excitação. Bolsonaro pode até ser fraco como presidente, pois pra ser presidente em República democrática carece de respeitar os ritos, de seguir os protocolos institucionais. Mas é fortíssimo como agitador fascista. Em um momento de grave crise institucional, essa é uma habilidade muito perigosa.

– 30% avaliam o governo como ruim/péssimo. É a base social orgânica do antibolsonarismo, que agrupa um leque amplo de forças políticas: petismo e esquerda em geral, aquilo que podemos chamar de modo vago e um tanto impreciso de “centro democrático”, defensores do meio ambiente e dos direitos humanos e todos a quem sobrou um mínimo de bom senso para entender que o bolsonarismo significa, necessariamente, o constante ataque às instituições do Estado democrático. Esse grupo tende a se aglutinar ao redor daquele que conseguir se apresentar como liderança forte o suficiente para combater o bolsonarismo nas urnas. Essa liderança ainda é exercita por Lula. Nada no horizonte sugere que isso mudará no curto prazo.

-30% avaliam o governo como regular. É uma massa amorfa formada por pessoas que não são organicamente nem bolsonaristas e nem antibolsonaristas. Temos aqui o pêndulo, o fiel da balança, aqueles que serão disputados na unha. Essas pessoas se incomodam com o que julgam ser comportamento destemperado do presidente, mas também estão dispostas a esperar um pouco mais para ver se o governo dá jeito na crise. Dão a Bolsonaro o benefício da dúvida. A evolução do cenário econômico determinará para onde essa camada irá.

Vendo os números por dentro, há detalhes nada irrelevantes, como por exemplo, o corte de renda. Entre os mais pobres, aqueles que ganham até dois salários mínimos, 43% avaliam o governo como péssimo e ruim, o que confirma tendência já observada nas época das eleições presidenciais. Há um claro componente de classe na adesão/rejeição ao bolsonarismo.

Obviamente, os pobres são mais sensíveis à recessão econômica e tendem a ficar cada vez mais mal-humorados caso a situação não melhore.

Por mais que os aspectos culturais e comportamentais sejam muito importantes na configuração dos afetos políticos nos dias de hoje, a economia ainda é o aspecto definidor da disputa. Entendendo a economia, é claro, no seu nível prático, no carrinho do supermercado, no prato nosso de cada dia, no preço da gasolina, no quilo da carne.

É claro que o bolsonarismo vai tentar tirar a economia do foco, falando diretamente à moralidade popular e ao sentimento de insegurança pública. Excludente de ilicitude para as PMs, acusação de cultivo de drogas nas universidades públicas, doutrinação homossexual nas novelas e cinemas. O bolsonarismo se conhece e conhece o Brasil. Sabe exatamente onde investir suas energias narrativas.

Por seu lado, cabe a oposição fazer o mesmo e deslocar a disputa para o campo da economia, evitando a todo custo o debate comportamental e a guerra cultural. O brasileiro médio é conservador nos costumes e progressista na economia. Na democracia vence sempre a maioria. Quem não vence eleição não faz nada, não melhora a vida de ninguém.

O lulismo representa exatamente esse conforto material no nível prático. Um dinheirinho a mais pra comprar um danone pras crianças no mercadinho da esquina, pra assar aquela fraldinha no churrasco de domingo. É a memória do lulismo que o campo democrático precisa recuperar, lembrando a todos como a vida estava melhor ali, entre 2005 e o primeiro semestre de 2013.

O problema é que no meio disso tudo há o fator Dilma Rousseff. É muito difícil blindar a imagem da presidenta Dilma, que está diretamente associada ao começo da crise econômica.

Com Lula, uma parcela considerável da população até então excluída de qualquer conforto material teve acesso ao consumo. Com Dilma, essas pessoas pararam de consumir, voltaram aos anos 1990. Estão desempregadas ou subempregadas. Comendo ovo no almoço e arroz e feijão puro na janta, sem mistura. Pior que nunca ter consumido, só começar a consumir, sentir o gostinho dos prazeres da vida burguesa e voltar à pobreza.

Essas pessoas sabem que a coisa começou a degringolar com Dilma. No plano da análise mais cuidadosa, podemos relativizar (até certo ponto) a responsabilidade da ex-presidenta. Podemos falar em boicote, em pautas pombas, em perseguição e misoginia política, em golpe. Mas na percepção daqueles que perderam poder de compra, e de sobrevivência, a defesa não cola.

O que PT fará com Dilma? Escondê-la da propaganda ou até mesmo tomá-la como bode expiatório para a tal “autocrítica”? Ou deve predominar o princípio da lealdade, tão caro entre companheiros de luta, e Dilma deve ser defendida a qualquer custo?

Já no ano que vem, quando a disputa entre o campo democrático e o bolsonarismo se tornar mais aguda nas eleições municipais, Dilma será acionada como a marca digital do PT na crise econômica. Ela é o elo mais frágil da narrativa que associa o petismo à prosperidade material dos mais pobres.

O que fazer?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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