quarta-feira, 23 set 2020
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A juventude é mutável

De algum tempo para cá, a noção de juventude passou a ser plural. Agora, se fala em juventudes. O plural se refere, até aqui, às diversas identidades ou subculturas, as inúmeras tribos ou times. Mas há algo que já se percebia desde a virada do século anterior para o atual que vai se cristalizando: a inconstância das juventudes.

É possível que as redes sociais tenham emplacado uma nova forma de sociabilidade, mais fluida, acelerada, onde a ideia do dia anterior submerja em meio à uma profusão de novas informações e interpretações. Pode ser, ainda, que as juventudes tenham sido sempre assim, mas não tinham seu habitat ideal à mão, com a internet e as redes sociais ao alcance do celular. O fato é que este dilema de quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, nunca ajudou a chegarmos a algum lugar razoável.

Os dados que temos sobre acesso às redes sociais pelas crianças, adolescentes e jovens brasileiros indicam esta fluidez e inconstância. Mais de 24 milhões de crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuários de internet no Brasil, segundo pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018. Significa que mais de 85% das crianças e adolescentes do Brasil acessam a internet. Na faixa entre 15 e 17 anos, o percentual é um pouco maior: 86% de usuários. Crianças e adolescentes assistem a vídeos, programas, filmes ou séries na internet. A internet é mais usada por meio de telefone (93%) e desde 2014, o uso de telefone celular ultrapassou o uso de computadores.

A mesma pesquisa TIC Kids Online indicou WhatsApp e Instagram como as principais redes usadas no Brasil neste intervalo etário. Mas, se olharmos com cuidado, percebemos uma mudança de comportamento num curto intervalo de tempo.

Whatsapp e Facebook trocaram de lugar, na preferência de crianças e adolescentes brasileiros entre 2015 e 2018. O Instagram passou a ser mais utilizado neste período e o Snapchat e o Twitter, que pareciam em evolução, caíram ou estacionaram num patamar bem baixo de uso.

Isto talvez dê uma luz sobre a mudança atual de parte da juventude brasileira em relação à pandemia e ao governo Bolsonaro.

Uma parte considerável dos jovens apoiou Bolsonaro em 2018. Pesquisa coordenada por Isabela Oliveira Kalil, do Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, indicou 16 agrupamentos sociais que tiveram forte participação na campanha do atual presidente. Três desses grupos eram compostos por jovens.

O primeiro subgrupo de jovens que apoiaram Bolsonaro em 2018 é o composto por nerds, gamers, hackers e haters, composto majoritariamente por homens entre 16 e 34 anos. Se reúnem em fóruns restritos, jogos online e caixas de comentários de sites de cultura pop. Citam muitos personagens do mundo dos games e HQ, além de filmes. Sentem prazer em organizar ataques à algumas páginas de personalidades por quem não têm apreço. Foram responsáveis por disseminar a imagem de Bolsonaro como “mito”, além de projetar o perfil jocoso e provocador. Repudiavam perfis progressistas nas redes sociais, além de feministas e gays.

O segundo subgrupo jovem foi o composto pelos que pregaram voto rebelde contra a “doutrinação marxista”. Composto por jovens estudantes do ensino médio ou estudantes universitários, que têm entre 14 e 30 anos, não se sentem acolhidos pelo ambiente escolar e se sentem privados da participação em grêmios e centros acadêmicos em razão de posicionamentos políticos. Nos grupos de estudantes do ensino médio público apareceram apoiadores que enxergavam Bolsonaro como um outsider que conferia no ambiente escolar a noção de voto “descolado”. Dentre os estudantes de ensino médio privado se encontravam aqueles que eram contrários às políticas públicas que possibilitam acesso dos jovens de ensino público na universidade e qualquer mecanismo de cota que “facilite” ou “privilegie” certas camadas sociais. Dentre os universitários, os discursos sobre cotas e mecanismos que incentivam a entrada de certos grupos sociais no ensino superior se destacavam, envolvidos num discurso que se autoidenficavam como “estudantes pela liberdade”.

Finalmente, o subgrupo de jovens influenciadores digitais, focados na defesa da meritocracia e na chancela “salvando o Brasil de se tornar uma Venezuela”. Produtores de conteúdo para as redes sociais, como Youtube, Instagram e Facebook, não eram inteiramente contemplados pelas perspectivas de Jair Bolsonaro, seja política, moral ou economicamente, mas acreditavam que no momento era a melhor saída, “arrumaria a casa” e combateria a corrupção. Se reagrupavam em convertidos (pessoas que já foram comunistas, gays, feministas, ateus ou militantes de esquerda) e celebridades (cantores, atletas e artistas), pensadores (intelectuais e jornalistas que lançam tendências, realizam análises e, por vezes, possuem afinidades ideológicas com a direita internacional). Sentem forte repulsa ao “comunismo”, “às ideologias de esquerda” e aos movimentos sociais ou quaisquer grupos que possuam preocupações com as minorias sociais. Denunciavam, durante a campanha de 2018, o “autoritarismo da esquerda” e disseminaram o discurso antipetista e a luta contra a corrupção.

Esses três subgrupos jovens que apoiaram Bolsonaro em 2018 parecem se desgarrar do “mito” neste segundo trimestre de 2020. Felipe Neto parece ser o emblema deste movimento.

O que estaria provocando tal mudança nesta parcela da juventude (ou das juventudes)? Arriscaria dizer que é uma mescla de frustração, esgotamento e rebeldia. A velha mutação juvenil sendo acionada.

Não descartaria que parte dos jovens que desejavam que Bolsonaro “arrumasse a casa” se frustraram com a balbúrdia que se revelou o seu governo. Com a saída de Moro, o abalo pode ter sido ainda maior. Embora não tenhamos pesquisas a respeito do impacto entre jovens da saída do ex-ministro da justiça do governo Bolsonaro, o impacto nas redes sociais pode sugerir uma tendência. O “Vem Pra Rua Brasil” incluiu a hashtag #BolsonaroTraiuMoro em um post que teve 7,2 milhões de compartilhamentos. O nome do ex-juiz foi o termo mais comentado no Twitter, com 1,2 milhão de menções. As hashtags #BolsonaroTraidor, #ForaBolsonaro, #TchauQuerido e #BolsonaroEnlouqeceu estiveram nos tópicos mais populares no dia da demissão.

O esgotamento, possivelmente em menor número, parece estar afetando a todos brasileiros, em meio à clausura ou ao risco de ser contaminado pelo Covid-19. Esta nova realidade afeta diretamente o sentimento de liberdade da juventude. Por este caminho, a tentativa de Bolsonaro em excitar permanentemente seus apoiadores para adotarem posturas de confronto com medidas de segurança sanitária podem estar colidindo com as informações científicas e acontecimentos e declarações de celebridades de outros países que chegam aos jovens “descolados”.

Finalmente, o sentimento anti-establishment que forma grande parte do ideário jovem. Bolsonaro se tornou governo, o centro da república brasileira e, portanto, ou teria que ter alterado a lógica do poder estabelecido ou apareceria como parte do jogo tradicional da política. Sua incapacidade de gerar respostas e sua aproximação ao Centrão devem ter contribuído para parte dos segmentos jovens que o apoiou se sinta muito incomodado.

O fato é que o mundo gira. E gira ainda mais rápido quando se tem menos de 30 anos.

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

Rudá Ricci
Rudá Ricci
Graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto, 2010) e coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp, 2004), entre outros.