Rudá Ricci

05 de janeiro de 2020, 13h53

A política de ciclo curto ou a crise do sistema de representação política

Rudá Ricci: "O ciclo de domínio político parece fadado a ser cada vez menor, já que sua legitimação se apoia numa imensa desconfiança social"

Reprodução

Zygmunt Bauman faz uma interessante distinção entre a dimensão social (e que configura uma persona) online (nas redes sociais) e a offline (no mundo real). Bauman sugere: “Nem tenho tanta certeza sobre a existência de dois universos quando vejo uma pessoa atravessando a rua e digitando ao mesmo tempo (…). As fronteiras entre as vidas online e offline estão ficando mais nebulosas.”

Esta análise da transição em termos de conduta social em que estamos metidos se encontra em autores de distintas linhagens. Em meu livro sobre o conservadorismo político mineiro, agreguei os diversos autores em vertente nominalista e vertente sistêmica.

Na vertente nominalista, encontramos Richard Sennet (para quem vivemos a explosão do ressentimento individual em relação à projeção de todo homem público) e Peter Sloterdijk (para quem vivemos a demanda da horizontalidade desejada pelos medíocres).

Sennet sugere que a única saída para a política – em meio à corrosão gerada pelo ressentimento social – seria a figura do demagogo, que finge ser igual a qualquer um, embora tenha muito mais poder e participe de uma oligarquia. Trata-se de um domínio político focado na habilidade retórica.

Sloterdijk é mais ácido. O autor conservador sustenta que os meios de comunicação impedem que cada participante não veja o outro, gerando um individualismo de massa ou, em suas palavras, um “abandono organizado”, presa fácil de movimentos totalitários e da negação da política.

Já na vertente sistêmica, encontramos John Keane e Luciano Canfora, dentre tantos.

Keane sugere que a desconfiança sobre a representação política vem gerando um conjunto de experiências extraparlamentares de controle e formulação de política públicas. O autor australiano apresenta uma extensa lista de experiências deste tipo, que denomina de monitória (de monitorar): júris de cidadãos, assembleias biorregionais, orçamento participativo, conselho consultivo e grupos de foco, comissões de peritos, conferências de consenso etc.

Keane sustenta que há um elemento central nesta inovação social: a reafirmação dos grupos de interesse, dos grupos locais, da atomização da participação social, fundada no fracionamento de identidades coletivas.

O autor italiano Luciano Canfora questiona se a democracia contemporânea se sustenta efetivamente no princípio da maioria. Sugere que a formação de maioria está mais vinculada ao marketing político e manipulação das informações (caso bem conhecido dos brasileiros).

Canfora apresenta em seu livro Crítica da Retórica Democrática quatro teses:

Tese 01 de Canfora: a dinâmica democrática não se relaciona exatamente ao deseja da maioria, mas aos mecanismos de formação de consenso.

Tese 02 de Canfora: todos sistemas de representação tendem a formalizar políticos profissionais oriundos das classes médias mais abastadas.

Tese 03 de Canfora: as democracias forjam elites dirigentes que, na prática, criam padrões oligárquicos de comando político.

Tese 04 de Canfora: há um deslocamento do locus de tomada de decisão política para fora dos parlamentos, com nítida influência de grandes corporações empresariais.

Luciano Canfora entende que o mundo político atual é dominado por estruturas oligárquicas, numa visão pessimista que se distancia de Keane.

Essas teses dos 4 autores aqui apresentados indicam que o ciclo de domínio político parece fadado a ser cada vez menor, já que sua legitimação se apoia numa imensa desconfiança social. Estaríamos ingressando numa etapa da vida política em que um governante perde empatia. A perda de empatia leva ao desgaste progressivo, num espaço curto de tempo (dois a três anos), terminando seus mandatos em frangalhos. Este parece ser o caso de Trump, que tira da cartola uma guerra com o Irã para compensar seu esfacelamento político.

Mas, a “política de ciclo curto” também gera a ciranda de sucessão, caso, possivelmente, brasileiro da última década em que Dilma perde musculatura (por erros próprios, é certo), sucedida por Temer, que nunca ganhou musculatura e, finalmente, chegando à Bolsonaro.

Bolsonaro, por seu turno, já perdeu mais de 50% do apoio que tinha em dezembro de 2018 (IBOPE) e continua apresentando queda, chegando a 29% de apoio na última pesquisa apresentada no final de 2019.

Se a tese da política de ciclo curto tem sentido, uma suposta derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 geraria uma outra mudança de rumos políticos nacionais que se desgastaria rapidamente, chegando ao final do mandato em profundo desgaste.

Para finalizar este conjunto de postagens: a política de ciclo curto corrói qualquer representação. Então, na base desta crise está o sistema formal de representação. Um tema pouco popular, mas que define a instabilidade do sentimento popular.


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