Rudá Ricci

24 de fevereiro de 2020, 12h00

Ameaça e poder paralelo armado, por Rudá Ricci

A emergência do corporativismo militar se confunde com sua truculência e a formação da bancada de 304 parlamentares da Frente da Segurança Pública

Motim de PMs no Ceará (Reprodução/TV Verdes Mares)

Os anos 1980 foram marcados por greves de policiais militares em vários Estados. Emergiram lideranças que se lançaram na política e se elegeram deputados.

Foi uma década importante para a reação militar, embora tenhamos nos nossos registros que tenha sido o período de ascensão do poder civil no país.

Em 1987, Bolsonaro admitiu ter cometido atos de indisciplina e deslealdade para com os seus superiores no Exército. Quase foi expulso da corporação e amargou a rejeição de oficiais até sua candidatura à Presidência da República. Bolsonaro parece ter se tornado um dos personagens desta viragem de ideário. Em 1986, na seção ‘Ponto de Vista’ da revista Veja, publicou carta-queixa onde denunciava os baixos salários dos praças. No ano seguinte, a revista revelava plano para provocar explosões em quartéis.

Durante a década de 1990 que tivemos uma explosão de greves e motins nas PMS: Minas Gerais (1997), Pernambuco (1998), Alagoas (2000), Pernambuco-Tocantins-Bahia (2001), Ceará (2007), São Paulo (2008), Espírito Santo (2017) e, agora, Ceará. Tivemos dois levantes nacionais recentes: 2004 e 2012. Em 2017, uma lei sancionada pelo então presidente Michel Temer anistiou integrantes da segurança pública de diversos estados que realizaram paralisações.

É muito estranho como as forças militares brasileiras se fecharam num ideário meramente corporativo. Pensar que tivemos movimentos importantes como o tenentismo para chegar nisso.

Tivemos o famoso movimento tenentista, na década de 1920, que gerou uma pauta nacionalista desenvolvimentista (pela primeira vez, a reforma agrária surgia como agenda nacional) e catapultou Prestes.

Em agosto de 1961, após a renúncia do Presidente Jânio Quadros, sargentos da Aeronáutica (de Canoas) se levantaram para impedir seus comandantes de cumprirem as ordens superiores. Sabotaram aviões e postaram metralhadoras antiaéreas na pista, se alinhando à liderança de Brizola.

Nos anos 1960, tivemos levantes e movimentos de militares nacionalistas, mas, de fato, já esboçavam forte pauta corporativa. Lutavam, por exemplo, pelo direito a voto, ao ingresso na política. Talvez, esta tenha sido a senha da mudança.

Alguns podem argumentar que o Golpe Militar de 1964 alterou esta lógica. Contudo, 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram presos e torturados ou expulsos de suas corporações por oposição ao golpe.

Minha tese é que há relação entre o abandono de projetos estratégicos pelo corporativismo tacanho a partir dos anos 1980 e o aumento da truculência militar. Sinteticamente: a emergência do corporativismo militar se confunde com sua truculência e a formação da bancada de 304 parlamentares da Frente da Segurança Pública.

O avanço desta Frente vem sustentando propostas de aumento de poder dessas forças militarizadas. No Senado, foi aprovada a urgência do projeto que concede anistia aos policiais militares do Espírito Santo, Ceará e Minas Gerais que participaram de motins em 2011 e 2018. A expectativa é de que o texto seja votado depois do carnaval.

Este poder militarizado avança perigosamente no terreno da representação política, tendo o parlamento como seu bunker. Mais que isso: se insinuou, com Bolsonaro, para um terreno movediço, sem autocontrole, boquirroto.

Temos que retomar o papel constitucional das forças militarizadas do país. Nossos jovens não podem se formar num clima de ameaças. Nenhuma civilização perdurou sem diálogo ou sob tiranias.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum