Rudá Ricci

22 de julho de 2019, 09h53

Bolsonaro e a revolta dos bagrinhos

Este governo é um ode à mediocridade. Ao ressentimento dos medíocres. É todo apoiado numa estrutura discursiva da revolta dos bagrinhos

Bolsonaro e comitiva em viagem internacional (Reprodução/Twitter)

Lá se foram os seus primeiros 200 dias. Houve quem tentasse vasculhar alguma racionalidade. Perderam seu tempo. Este governo é um ode à mediocridade. Ao ressentimento dos medíocres. É todo apoiado numa estrutura discursiva da revolta dos bagrinhos. O uso abusivo da retórica de boteco, lembrando aquele tiozinho encostado na mesa de bilhar, rosto vermelho, falando alto, quase aos berros, ofendendo mulheres ou desafiando jovens com cara de universitários a virar um rabo de galo.

O teatro montado é similar a alguém convidado para um jantar ao estilo francês que, se sentindo humilhado por não saber o que fazer com tantos talheres, resolve comer com as mãos para escandalizar. Sente-se superior ao ridicularizar tudo, sem respeito às regras da casa que lhe convidou. Não passa de uma fuga agressiva à humilhação que carrega ao longo de sua vida.

Contudo, esta postura escatológica e quase animalesca deve impactar muita classe média baixa e pobres remediados do interior do país, que não conseguem sair de sua condição. Imagino que se sintam redimidos. Até que a realidade ressurja diante de seus olhos e seu peso desgaste sua alegria de ver os bagrinhos se debatendo fora do aquário.

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Lula, de certa maneira, dialogava com esta projeção política dos de baixo. Minha hipótese é que são expressões emocionais da imensa desigualdade social histórica e persistente do nosso país que leva à quase instalação de um mundo estamental imutável. Os meninos que colhiam tomate na infância e que se tornaram cantores famosos dá certo alento. Mas, lá no fundo, fica a certeza que são tão poucos a quebrar a barreira do destino de pobreza e mediocridade…. O mesmo destino do jogador de futebol que morava no morro, o bilhete de loteria, a Porta da Esperança, a menina com voz potente descoberta nas ruas de São Paulo, o The Voice…. são possibilidades de vitória que estampam a realidade no dia seguinte, sem dó, sem compaixão. Então, vem a raiva. O ressentimento.

O ódio contra todos que romperam a bolha da pobreza e da mediocridade: não só o filho da família abastada, mas todos que conseguiram se formar numa universidade de ponta; os que conhecem algum país além do Brasil; os que bebem bebidas alcoólicas para além de cachaça, cerveja e conhaque de quinta categoria; os que possuem carros que para entrar no seu interior é preciso usar uma escada; aqueles que não passam vergonha na hora de pagar a conta do supermercado; aqueles que não precisam explicar aos filhos que não dá para comprar o produto de qualidade superior.

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Este país é aquele da humilhação diária. O país dos bagrinhos. Do andar de baixo da sociedade brasileira. Séculos de humilhação com poucos momentos de melhoria. Momentos que logo foram destruídos pelas elites de sempre. Sem o marco de uma única revolução, os bagrinhos se revoltam contra seu Salvador que não lhes garantiu a promessa de construir o Paraíso.

Aí, surge o messias de araque. Não promete nada. Foge o tempo todo. Às vezes, parece macho, mas, confrontado pela elite, desconversa. É o típico lambari ensaboado, o espertalhão que todos um dia conhecemos, mas que desconhecemos seu fim. Foi sumindo pelas quebradas da vida. Teve seus quinze minutos de fama – pouco mais, pouco menos – e se retirou do palco do seu teatro mambembe. Alguém disse que vive na periferia, num casebre, que aparece no boteco da esquina com aquela indefectível camisa aberta até o umbigo, contando piadas desrespeitosas. Mantém o sorriso exagerado. Mas, já observaram que seu olhar tenta esconder certa tristeza. Foi mais um que não deu certo e voltou à ser um “intocável “. Na TV, surge outro messias escatológico. Ele assiste os arroubos do “novo” político e abre um sorriso tímido, meio sem graça.

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