Rudá Ricci

24 de janeiro de 2020, 17h07

Bolsonaro e o remake do “The Party”

Em novo artigo, Rudá Ricci diz que o presidente não tem noção estratégica e muito menos tática, porque é pouco preparado para o grande jogo político

Moro e Bolsonaro - Foto: Marcos Corrêa/PR

Em 1968, Peter Sellers nos presenteou com o hilário “The Party”, que no Brasil ganhou outro nome. O enredo é simples: um rico produtor de filmes em Hollywood oferece uma festa para personalidades e convida, por engano, um ator indiano vocacionado para criar trapalhadas e instalar o caos na mais singela das rodas de conversa. Peter Sellers interpreta o confuso indiano. Confuso, mas o centro de todo enredo e desta festa.

O último episódio envolvendo o “estudo”, divulgado por Bolsonaro, da provável divisão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, me deu a impressão, por algum motivo, de algo parecido com o filme de Sellers.

Foi na quinta-feira e Bolsonaro não escondeu suas intenções. Disse, ao sair do Palácio do Planalto: “Lógico que o Moro deve ser contra”. Moro, para algum desavisado, é ministro de Bolsonaro. O ministro mais popular, aliás. Enfrentar Moro neste momento, retirando-lhe poder ao promover a cisão de sua pasta, parece ser um ato de prevenção – e punição – à cada vez mais provável candidatura do ministro para suceder o atual presidente em 2022. Se esta for a intenção, trata-se do ataque mais infantil e atabalhoado da história da frágil república tupiniquim. Uma reação simplória que relembra os arroubos das brigas intempestivas entre primos pré-adolescentes.

Sob qualquer ângulo, a reação desabrida de Bolsonaro parece ter sido uma derrapada política. Entre astúcia e força, o presidente fica com a violência explícita. Maquiavel sugeria, no século XVI, a superação da visão romana da “virtú” compreendida, por ele, não como força, mas como sedução. Sedução que procurava atrair a atenção e a eleição da deusa Fortuna. Bolsonaro, já sabemos, tem um modo muito peculiar de tratar as mulheres e a Fortuna e parece ter insistido em sua tese, digamos, romana.

É evidente que é muito cedo para solapar a intenção de Moro, seu ministro. Muita água vai rolar por debaixo da ponte até 2022: eleições municipais, reordenamento partidário, definição de alianças e candidatos a governador e senador (que puxam as eleições presidenciais nos Estados).

Moro, evidentemente, estuda se lançar candidato. O mais racional para ele seria – se for o caso – romper com Bolsonaro em 2021. Até lá, tentaria não entrar em muitas bolas divididas e surfar através de seu índice de popularidade.

Com o chute na canela de Bolsonaro, a situação fica mais complexa e difícil para o próprio presidente. Se Moro sai do governo, joga seus apoiadores contra o governo federal. Qual seria o plano de Moro? Tentar achar um novo ninho político. O novo ninho pode ser uma vinculação a um novo bloco político não tão exagerado e estigmatizado como o bolsonarismo – buscando ampliar seu domínio político e seduzir parte das forças de centro – ou até mesmo assumir a Secretaria de Segurança Pública de um Estado ou capital de grande visibilidade.

Por que, então, Bolsonaro chuta a canela de Moro? Porque não tem noção estratégica e muito menos tática; porque é pouco preparado para o grande jogo político (sempre foi baixo clero e da última fila); e porque ficou deslumbrado com a pesquisa CNT/MDA (que, cá entre nós, precisa ser confirmada por outras realizadas por diferentes institutos de pesquisa).

Enfim, hora errada, forma errada e resultado imprevisível, como é do feitio de Bolsonaro.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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