Rudá Ricci

01 de março de 2020, 12h55

“Empregabilidade” e juventude

Em novo artigo, Rudá Ricci diz que o “discurso irresponsável do liberalismo tupiniquim está criando terra arrasada em nosso país”

Foto: Pedro Ventura/Agência Brasil

Neste domingo (1), vou socializar com vocês o que preparei para a fala de ontem sobre Emprego e Juventude.

Embora a taxa de desemprego tenha caído um pouco (agora, em 11,2%, atingindo 12 milhões de brasileiros), a qualidade do emprego despencou. A informalidade já atinge 40,7% do mercado de trabalho. Perdemos todas conquistas da primeira década deste século. Ruy Braga, é sempre bom lembrar, projetou que até 2023, atingiremos 75% da mão-de-obra nacional terceirizada, fruto das reformas trabalhistas de Temer.

Os jovens são os mais atingidos pela deterioração do mercado de trabalho. No primeiro semestre do ano passado, 41,8% da população entre 18 e 24 anos se encontravam na subutilização, ou seja, queriam trabalhar mais, mas eram empregados por poucas horas. Em números absolutos, mais de 7 milhões de jovens brasileiros são subutilizados. Além das decisões cruéis do Congresso Nacional, o processo de desindustrialização por que passamos é uma causa destacada desta situação. Mas, a causa central é a queda de investimentos.

No final de 2015, o saldo da carteira de crédito no Brasil representava 54% do PIB. Em maio de 2019, segundo o Banco Central, chegamos a 47%. A queda é contínua.

Não podemos nos esquecer que 5.000 municípios brasileiros possuem menos de 40 mil habitantes. Dependem de recursos públicos (aposentadorias, pensões, Bolsa Família e repasses do Fundo de Participação dos Municípios). Com a sórdida ação do governo federal, os recursos minguaram. Em pequenos municípios, a ação e os recursos públicos são vitais para a vida social dessas localidades. Mas, a irresponsável campanha e discurso ultraliberais e liberais em nosso país vêm provocando o suicídio em massa. Tema para este ano de eleições municipais.

Retornando ao assunto da queda de oportunidades de trabalho para nossos jovens, é de se lamentar como a saída vem sendo a humilhação do tal “empreendedorismo”. Em várias versões. Há a versão empreendedor de bicicleta uberizado e das blogueiras, numa nova modalidade de vendedora da Avon. Pior: essas blogueiras vendem sua intimidade. Não raro, se fotografam nas situações mais descabidas numa “transparência” mórbida.

Segundo dados da Global Entrepreneurship Monitor, 34% dos adultos entre 18 e 64 anos se jogaram na esperança do negócio próprio. O Brasil é o sétimo país em número de mulheres “empreendedoras” (formais e informais). São mais jovens que os homens empreendedores.

Enfim, a sociedade do desempenho gera este colapso de perspectivas onde o self-made man (e woman) se apresenta como uma saída desesperada, fruto do discurso empresarial dos anos 1990, que sugeria que o desemprego era culpa do desempregado.

Eu dirigi o Instituto Lúmen, da PUC Minas, justamente no período em que o governo FHC criou o programa de emprego e desemprego. Era o momento do conceito esdrúxulo da “empregabilidade”. Se você não estivesse atualizado, perderia o emprego fatalmente, afirmavam os gurus da polivalência. Estudar era a saída fácil. Hoje, sabemos que o Brasil não gera emprego para quem tem muito estudo, caso dos doutores, cujo taxa de desemprego é de 25% (no mundo industrializado, a taxa é de 2%).

Sabe o resultado deste programa de empregabilidade dos anos 1990? Zero. As grandes empresas dispensavam em massa, trocando humanos por robôs e automação. Os empregos surgiam nas empresas com até 50 empregados e com alta rotatividade (caso do comércio, onde o empegado dura 2 anos). Mas, o discurso fácil voltou. Agora, a proposta é “seja seu próprio patrão”. Na verdade, é apenas mais uma faceta da superexploração da nossa desalentada mão de obra tupiniquim.

Esse discurso irresponsável do liberalismo tupiniquim está criando terra arrasada em nosso país. Os frutos podres estão visíveis e é questão de tempo para a raiva popular ao estilo chileno chegar aqui na terra do Carnaval.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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