Rudá Ricci

09 de setembro de 2019, 08h49

Hegemonia do PT no campo da centro-esquerda gera reclamações em cascata

Rudá Ricci: “Desde quando uma força hegemônica entrega de bandeja sua hegemonia às forças menores”

Fernando Haddad e Ciro Gomes - Foto: Ricardo Stuckert

A eleição do ano passado deixou o campo centro-esquerda atordoado. Ficou nítido que não existe força eleitoral nacionalmente consequente neste campo sem o PT. Haddad tinha o peso eleitoral de um Ciro. Mas, com Lula e a máquina eleitoral petista, saltou para o segundo posto da disputa e foi para o segundo turno. Foi ainda mais impressionante a sua candidatura vencer na maioria dos municípios brasileiros – prova de inserção territorial – e crescer muito mais do primeiro para o segundo turno que seu adversário.

O impacto desta realidade sobre partidos que transitam no campo ideológico do PT foi bem razoável. Os partidos mais à esquerda – como PSOL e PCB – foram mais realistas. Mas, os mais socialdemocratas ou liberais, como PDT, PSB e PCdoB, demonstraram graus de irritação em ebulição. Recentemente, acusaram o golpe.

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Duas situações ocorridas nos últimos dias em que o PT se absteve foram pretexto para um muro das lamentações nas redes sociais. Uma delas, a tal frente amplíssima demais e a casca de banana jogada pelo Crivella com o pedido de censura aos desenhos de uma HQ. A história de Crivella é mais incrível porque óbvia demais. No final de março, Crivella obtinha apenas 7% de Ótimo+Bom, e 79% de Ruim+Péssimo, segundo pesquisa divulgada por César Maia nas redes sociais. Aproximando-se das eleições municipais, o que faz o alcaide fundamentalista? Joga a casca de banana para alguém pisar e ele conseguir aglutinar a direita histérica. Algo como “ruim com ele, pior sem ele”. Se alguém quer pisar nesta casca de banana, que o faça. O engraçado é exigir que o PT pise.

O outro caso é constrangedor, mas menos óbvio. A tal ampla frente anunciada com baixíssimo impacto no mundo real. Li muitas críticas, à esquerda, sustentando que uma frente tão ampla só teria como resultado a absolvição de setores partidários que derrubaram Dilma Rousseff e que chegaram a apoiar – ainda que discretamente – a eleição de Bolsonaro.

Uma frente como esta seria uma espécie de reedição da coalizão mais que ampla que sustentava a conciliação de interesses lulista. Sendo que no caso lulista, havia uma troca. Neste caso, o que o PT teria em troca? Nada. Participando com o máximo de discrição, os partidos do campo centro-esquerda tiveram um ataque de nervos. Onde está o PT que estaria “boicotando” a iniciativa da ampla frente? A pergunta revela mais que o seu autor desejaria. Revela fraqueza das agremiações que percebem no PT a força hegemônica quase absoluta neste campo ideológico-partidário. A pergunta é ainda mais constrangedora porque foge de qualquer manual de realismo político: desde quando uma força hegemônica entrega de bandeja sua hegemonia às forças menores (pergunta feita por Caio César Marçal)?

Não sei o que a direção petista achou desta celeuma ao redor de sua ausência. Mas, imagino, seria bom motivo para dar boas gargalhadas nas suas reuniões a portas fechadas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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