Rudá Ricci

16 de novembro de 2019, 12h30

Papo reto sobre Bolsonaro

Bolsonaro é um personagem de um roteiro pouco inspirado. Um Michel Teló que conseguiu emplacar uma música de sucesso, um Maguila que procurava nos convencer que seria campeão mundial dos pesos pesados. Foi longe

Bolsonaro (Foto: Reprodução/Twitter)

Jair Bolsonaro lembra um glutão. Todo glutão come de tudo, de maneira que acaba, uma ou outra vez, devorando uma excelente iguaria, mesmo o próprio não a reconhecendo como tal.

Não se trata de alguém com inteligência política comprovada.

Deixou o exército em 1988 e lançou-se vereador prometendo defender os militares. Teve sete mandatos seguidos na Câmara de Deputados e só dois projetos aprovados. Somente um virou lei: o PL 2.514/1996, que concede o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática e automação. Dois projetos de autoria do então deputado foram aprovados pela Câmara de Deputados, mas vetados pela Presidência da República. O primeiro foi o PL 4.326/2008 que incentivaria estudantes de medicina a estagiar nas Forças Armadas, e o segundo foi o PL 5.982/2009 que autorizava o porte de arma para agentes e guardas prisionais integrantes de escoltas de presos e para guardas portuárias.

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Apenas um PL apresentado pelo atual presidente quando era deputado federal trata de educação. Outros dois versam sobre saúde. Em contrapartida, o deputado apresentou pelo menos 32 propostas voltadas para os militares. É de sua autoria o PL-443/2015, que queria batizar a faixa marítima do país como ‘Mar Médici’ e o PL 4562/98, que obrigaria todos os cidadãos a colocar a mão direita sobre o peito durante o Hino Nacional. Também sugeriu que fosse criado o Dia do Detetive Profissional (PL-1323/95) e o Dia do Desportista (PL-73/1995).

Em 2010, Bolsonaro votou a favor do aumento de 61,7% do próprio salário. Em 2012, votou contra a PEC 66/2012, a PEC das Domésticas. Também em 2016, foi um dos 19 coautores do PL 4.639/2019, que autorizou o uso indevido de uma substância que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, a fosfoetanolamina sintética, por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna, o que levou dezenas de pacientes à morte (lei suspensa pelo STF). Apoiou a desobrigação do SUS atender vítimas de violência sexual (PL-6055/2013) e, também, tentou impedir que pessoas trans usassem seu nome social (PDC-18/2015).

Não há exatamente uma sabedoria política neste currículo, mas um foco.

Quando, então, começou a aparecer para além desta produção marginal? Quando atacou o “kit gay”. Nas redes sociais, fez campanha e distribuiu panfletos em escolas alegando que o MEC e grupos LGBTs incentivavam a homossexualidade. “Querem, na escola, transformar seu filho de 6 a 8 anos em homossexual!”, dizia cartilha distribuída à época. Destacou-se, assim, como anti-lulista.

A partir desta ampliação de foco, Bolsonaro passou a ocupar um espaço público apresentando-se como solução aos políticos tradicionais, desgastados depois dos grandes escândalos de corrupção. Algo que ocorreu com muitos outros “políticos de nova safra” que se apresentaram como não-políticos, como os atuais governadores de Minas Gerais e Rio de Janeiro, capturando e politizando a lógica que elegeu Tiririca e que um dia elegeu o rinoceronte Cacareco (recebeu 100 mil votos na eleição paulistana de 1959). Mas, simultaneamente, radicalizava o discurso contra o PT e Lula, diminuindo gradativamente a polarização do PT com o PSDB. Conseguiu se criar como uma cunha entre os dois partidos que brigavam eleitoralmente desde os anos 1990.

Trata-se, portanto, de um personagem que sempre foi um político do Baixo Clero, atirou para todos os lados para servir seu nicho eleitoral (como qualquer membro do Baixo Clero) e que conseguiu surfar na onda de descrédito político que parece atingi-lo neste momento, ao menos em parte.

A partir desta onda inesperada e não planejada, o que restaria a Jair Bolsonaro? Procurar ampliar seu nicho e radicalizar. Radicalizar é o que sempre fez. Já é conhecida a matéria da revista Veja que revela que nosso presidente admitiu em 1987 ter cometido atos de indisciplina e deslealdade para com os seus superiores no Exército durante investigação interna conduzida pelo Exército. Em 1987, teria elaborado um plano que previa a explosão de bombas em quartéis e outros locais estratégicos no Rio de Janeiro. Este é seu perfil. O conteúdo será sempre algo similar. O veículo pode mudar, mas o conteúdo é sempre o mesmo.

A ampliação do nicho, contudo, está sendo uma tarefa mais penosa, quase sempre conflitando com o estilo beligerante e radical. Para sustentar seu governo, procurou alianças com o alto empresariado, prometendo emplacar a sua agenda ultraliberal e, também, com parte das Forças Armadas. Com as FFAA houve resistências e parece que ainda não conseguiu superar desafetos e obstáculos. A saída recente de alguns militares de seu governo e as rugas com a Marinha e Aeronáutica indicam dificuldades de gestão. Afinal, gestão de conflitos e crise não é sua especialidade.

Então, restaria a radicalização. O que, nesta atual conjuntura, não é de todo um negócio sem sentido para o bolsonarismo. Sem um projeto próprio – dado que o alto empresariado pode se ancorar em um Paulo Guedes ou num Rodrigo Maia, algum Michel Temer mais adequado que Michel Temer -, a polarização com Lula pode reunificar os temerosos com o retorno do sapo barbudo.

Qual seria o peso deste bloco unificado pela radicalização? Os 12% do eleitorado que já foram identificados pelo Datafolha e Vox Populi como totalmente alinhados a qualquer histeria protofascista. Mais, possivelmente, os setores liderados por aqueles que investiram na aventura da radicalização desde os anos 2015, incluindo os seguidores de Doria, parte dos militares que nunca deixaram de pensar o Brasil como uma grande aldeia cercada de muita mata virgem, parte dos jornalistas e editores da grande imprensa – alocada em programas de rádio e TV sensacionalistas e escatológicos – e os eternos ressentidos por nunca terem tido reconhecimento em nada do que fizeram. Somariam algo ao redor de 25% ou 30%?

Enfim, Bolsonaro é um personagem de um roteiro pouco inspirado. Um Michel Teló que conseguiu emplacar uma música de sucesso, um Maguila que procurava nos convencer que seria campeão mundial dos pesos pesados. Foi longe. E, como os exemplos que acabo de citar, tentará de tudo para se manter nos holofotes.


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