Rudá Ricci

17 de novembro de 2019, 09h17

Papo Reto sobre Lula, por Rudá Ricci

Lula está, de alguma forma, próximo de outros personagens políticos brasileiros marcados pela glória e tragédia, como Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes

Foto: Ricardo Stuckert

Lula virou um emblema político nacional. Passou por todos os momentos fundantes de um mito: uma narrativa própria, marcada por tragédias e superações, cuja histórica consolida a imagem do personagem como um fato dado, completo, que explica, por si, a realidade.

Lula passou pela migração sem a presença do pai, pela luta sindical sem filiação doutrinária clara (o que sempre lhe conferiu uma imagem de independência ou proximidade com o operário comum), por duas prisões, pelo câncer, pelas mortes de suas duas esposas e neto, mas, também, pela sua vitória eleitoral consagradora, por sua aprovação inédito no final do segundo mandato, pela eleição inédita de seu partido em quatro eleições consecutivas e pela manutenção de sua popularidade ao sair da prisão na sede da Polícia Federal, em Curitiba.

Está, de alguma forma, próximo de outros personagens políticos brasileiros marcados pela glória e tragédia, como Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes. Tornaram-se imagens, sínteses de sentimentos e projetos de sociedade, não exatamente marcados por algo apreendido pela razão.

É deste Lula-mito que estamos falando.

Os mitos, contudo, são testados continuamente. Como se precisassem confirmar sua distinção em relação aos comuns, aos que não possuem seu dom. E Lula vive, mais uma vez, uma encruzilhada.

O lulismo, assim como a campanha “Lula Livre” já são iniciativas do passado. Porque frutos de um momento histórico específico.

Lula passou por três grandes momentos em sua vida política: o de líder operário que transborda seu carisma para a vida partidária; a de líder político nacional que se elege Presidente da República e administra seu capital político; e o de preso político que, ao sair em virtude de um erro inconstitucional do judiciário brasileiro, se relança ao cenário nacional.

A primeira passagem, o líder de massas urbanas, se consolidou ainda mergulhada na paisagem do mundo operário das grandes empresas fordistas. Massas unificadas na identidade do trabalho rotineiro, na produção em série, nas fábricas que empregavam milhares de trabalhadores que se identificavam por seu mundo comum. Comum dentro e fora da fábrica. Este mundo em que milhares de operários batem ponto, trocam de turnos, vestem macacões com mesma logo estampada nas costas, que se alimentam no mesmo refeitório gigantesco, que fazem crediários para comprar seus carros e casas, que residem nos bairros operários, que tomam suas cervejas e assistem os jogos de futebol nos finais de semana, os finais de semana marcados pela pelada no campão de terra batida e nas rodas de pagode…. este mundo está terminando. A identidade operária se estilhaça em múltiplas identidades de explorados, agora até mesmo que se auto exploram, disputam entre iguais, se sacrificam na uberização do século XXI.

A segunda passagem de Lula foi a consagração de sua vida pública. Já não era um líder corporativo, mas um líder nacional. Muitos o perceberam como um líder latino-americano e houve quem tenha dito que ele era “o cara”. O mito político foi se formando, como alguém com uma habilidade retórica e de negociação acima do normal. O próprio Lula se envolveu com este mito. Forjou uma coalizão que quase envolveu o sistema partidário inteiro. No final de sua segunda gestão, já pensava num bloco de poder que superava o seu próprio partido. Já sinalizava apoio à candidatura de Eduardo Campos, do PSB. Pensou em mediar um conflito no Oriente Médio, procurando superar um impasse internacional sobre o programa nuclear iraniano. Até que Dilma Rousseff foi deposta e o mito foi enclausurado.

Agora, temos a terceira fase da narrativa mitológica. Lula sabe que precisa se reinventar. O centro e a direita estão enclausurados no campo institucional. Não motivam ou animam mais que um punhado de gente. São forças típicas de um mundo polarizado em que os pequenos ganham projeção na composição de maiorias instáveis. Mas, pequenos nunca são hegemonia ou dirigem, de fato, uma nação. Então, o espaço para Lula recompor as grandes coalizões é muito menor. Sua força atual, inclusive, não está situada no campo institucional. Também não dialoga mais com o bloco que dirige o país.

Perdeu o diálogo com parte considerável do empresariado e com os militares. Seu campo se estreitou para algo próximo do final dos anos 1980 e início dos 1990. Mas, se sua força simbólica permanece na sociedade, as demandas e expectativas são outras de quando governava este país como um rei. Vivemos um mundo em que a política se faz por ciclos curtos e onde as autoridades públicas amargam quedas de popularidade poucos meses após tomarem posse. Sugados pela máquina contemporânea de moer carne foram desfeitos políticos como Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, Michel Temer, ACM Neto e tantos outros. Bolsonaro mesmo, radicaliza o discurso e ameaça como nunca por sentir que seu capital político se desfaz. Ao invés de ampliar sua base social, reduziu à menos da metade do que tinha de apoio em dezembro do ano passado. Ao invés de ampliar sua base política, critica seu vice, se desfilia do PSL, cria conflitos por onde passa.

Lula sai da prisão para um mundo diferente do que o fez mito político. Não tem à sua disposição um mundo de massas que convergiam para grandes interesses comuns. Sua retórica era voltada para esses grandes consensos. Se antes havia uma força que levava à unificação, hoje, as impele num movimento oposto. Como Lula armará um projeto de unificação numa situação social de dispersão (e ausência de grandes identidades) e projetos políticos belicosos, marcados pelo confronto?

O grande dilema lulista é a alma conciliadora num mundo pouco pacificado e estilhaçado em múltiplas afinidades sociais.

Lula, enfim, terá que se reinventar. Falar para a bolha petista – para a qual a campanha “Lula Livre” falava – desmanchará o mito e tornará o ex-presidente menor.


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