Rudá Ricci

17 de novembro de 2019, 13h22

Papo Reto sobre Rodrigo Maia

Rodrigo Maia é a direita que joga no campo institucional, que não coloca gente na rua, mas surfa nas ondas da polarização para se apresentar como fiel da Pax Social

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O deputado federal Rodrigo Maia faz brilhar na memória uma música do Premeditando o Breque cujo título é “Quase Lindo”. O refrão diz:

“Vai, vai Laurindo

Você é gente, você é quase lindo

A mente altiva, a meta construindo

Você é gente, você é quase lindo”

A letra ainda sugere que Laurindo pare de reclamar da vida porque a vida boa só começa aos 40 anos. Rodrigo Maia está com quase 50 anos. A vida boa começou há quase dez anos. É quase-chileno, mas é brasileiro. É quase Primeiro-Ministro do Brasil. É quase de centro, quase de direita. É quase popular. Quase tímido.

Ouvi, anos atrás, que sua vida política não começou com o empurrão de seu pai, o César (que já foi do PCB e, durante a ditadura, se exilou no Chile; aliás, o pai é um quase-Carlos Lacerda contemporâneo, sem o carisma daquele), mas do PCdoB. Rodrigo teria tido uma ajuda deste partido comunista para dividir os votos à direita e possibilitar a vitória desta porção da esquerda tupiniquim numa eleição estudantil.

Nunca consegui confirmar esta informação, mas até que seria interessante se fosse verdade porque estaria compondo a história de outros personagens que flertaram com a esquerda e bandearam para a direita raivosa, como Roseana Sarney e Andrea Neves. O fato é que cursou economia na Cândido Mendes, mas nunca concluiu. Ou seja: é quase-economista.

Foi quase do PTB, mas voltou para o PFL/DEM.

O fato é que Rodrigo Maia é um dos pilares da República Velha- com jeito de nova – no atual momento da política nacional. Hábil, negociador tranquilo, se distancia do estilo histérico do bolsonarismo, o que lhe dá uma grande vantagem. Enquanto, nas últimas duas décadas, o espectro político brasileiro caminhou lentamente para a direita (onde o PSOL acabou propondo uma agenda socialdemocrata, o PT fez proposta social-liberal e o PSDB, (bem, o PSDB acabou no colo de Dória e do MBL), o filho de César dá certo alento para a paisagem política tencionar ao menos para o centro.

Em uma entrevista recente, Rodrigo afirmou que sabe que as eleições nacionais são muito emocionais e que não há muito espaço para gente mais racional como ele. Traduzo: sabe que não tem voto. Mas, pode tentar já que o Brasil vive uma bagunça política.

Esta percepção do nosso quase-primeiro-ministro tem fundamento: obteve 96 mil votos em sua primeira eleição como deputado; 117 mil na sua primeira reeleição (1998); reeleito com 198 mil votos em 2002; mas caiu para 86 mil votos e, depois, chegou no fundo do tacho com 52 mil votos em 2014; e, na eleição do ano passado, voltou a crescer, obtendo 70 mil votos.

Assumiu a presidência da Câmara de Deputados em 2016, quando da renúncia de Eduardo Cunha. Desde então, é a ponte com o alto empresariado de São Paulo e Rio de Janeiro, aquele que rompeu com a coalizão lulista para garantir a quebra do Estado Providência com Temer e, depois, com Bolsonaro e se garantir na vida. Maia, contudo, é negociador. Está na sua alma. É objetivo nas negociações. Tem limites. Ouve todos. Ouve sindicalistas e pondera que tem afinidades com a agenda reformista empresarial; ouve empresários, mas pondera que acha ser necessário criar pontes com organizações de representação da sociedade civil.

Uma espécie de Kerensky um pouco mais gordo e sem os bolcheviques comendo seus calcanhares.

Rodrigo Maia é, hoje, um contrapeso aos opostos: Bolsonaro e Lula.

Por este motivo dialoga com Dória e Luciano Huck, outros citados deste quase-bloco do quase-centro (com rabo, boca e jeito de direita). É a direita civilizada, que gosta de política, que não gosta de histerias e blefes diários. É a direita que joga no campo institucional, que não coloca gente na rua, mas surfa nas ondas da polarização para se apresentar como fiel da Pax Social.

Rodrigo Maia é isso: um quase-líder de uma quase-nação.


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