Rudá Ricci

05 de julho de 2020, 12h46

Rudá Ricci: Não nascemos humanos

"Nossa identidade se faz com o processo cumulativo de experiências de muitos seres humanos. Esta experiência se dá pela linguagem. Quanto mais lemos, ouvimos música, assistimos peças de teatro, frequentamos museus e galerias de arte, mais mergulhamos na experiência humana"

Estudantes do Colégio Estadual Carlos Marighela, de Salvador, no palco do Teatro Eva Hertz (Foto: Marlon Correia/Governo Bahia)

Hannah Arendt dizia que não nascemos humanos, mas nos tornamos humanos. Essa caminhada se dá pela linguagem.

Uma abelha, sabemos, se comunica com a colmeia diariamente. Viaja em busca de plantações de flores e, quando as encontra, retorna à colmeia e informam sua localização a partir de uma estranha dança. Contudo, as abelhas conseguem comunicar o momento, mas não a história. Nenhuma abelha se refere ao que ocorreu séculos atrás. Mas, nós nos formamos a partir desta “memória elástica”.

Alguém que, hoje, se diz cristão ou marxista não terá conhecido Cristo ou Marx. Nossa identidade se faz com o processo cumulativo de experiências de muitos seres humanos. Esta experiência se dá pela linguagem. Quanto mais lemos, ouvimos música, assistimos peças de teatro, frequentamos museus e galerias de arte, mais mergulhamos na experiência humana.

Ao estudarmos, ao contrário do que pregam os educadores tayloristas (da lógica instrucional, focados nas teorias comportamentais), não lemos para memorizar, mas para aprender com a experiência de outros. Por este motivo, a sala de aula deveria ser o espaço da dúvida.

Pela educação, tomamos contato com outras experiências humanas, que contribuem para sermos a espécie que somos. Esta noção básica é esquecida por nós, embora digamos que uma pessoa é educada não porque saiba várias línguas, mas porque sabe respeitar e lidar com outras pessoas.

Então, nosso principal instrumento de avaliação no Brasil, reduz o escopo do processo educacional. A prova objetiva – aquela que objetiva capturar o que o aluno memorizou – não consegue abranger o movimento todo de formação da identidade dos humanos, de ingresso na humanidade.

Há inúmeros outros tipos de avaliação, como a prova operatória (que apresenta diversas variáveis para o estudante organizar uma resolução de uma situação-problema, não prevista pelo educador), observação e registro (para avaliar comportamentos), metacognição etc.

O ENEM foi originalmente pensado como prova operatória, onde não se objetivava capturar a memorização de dados de cada disciplina, mas a resolução de situações-problemas. Seu formulador, Nilson José Machado (matemático da USP), se apoiou nas teorias das inteligências múltiplas.

Então, retornemos ao tema do humanismo e à ideia de que nos tornamos humanos aos termos contato com outras experiências humanas através da linguagem. Gostaria de apresentar duas informações para complementar esta ideia-conceito. A primeira, referente à noção de cultura.

A palavra cultura tem origem no latim, na palavra “colo” que significa “ocupar um espaço com a experiência coletiva”. Daí vem a palavra “colonizar”. Colo gera duas outras palavras: cultus e culturus. Culto seria a homenagem que fazemos a quem contribuiu com nossa comunidade. Já cultura seria a soma das experiências coletivas que nos identifica no presente e nos projeta no futuro.

Portanto, qualquer comunidade ou agrupamento social estável produz cultura. Percebam como se relaciona com a noção de inserção do humano no projeto da humanidade.

A segunda informação é a que aprendi ontem, ao ler o livro A Virada, de Stephen Greenblatt. Este livro foi uma indicação de um amigo arquiteto, Alexandre Moreira, que o isolamento social acabou possibilitando sua leitura.

Por este livro, fiquei sabendo que, no Renascimento, surgiram caçadores de livros perdidos nos mosteiros medievais (os únicos locais que dispunham de bibliotecas na Idade Média). Aqueles que encontravam raridades ficaram conhecidos como “humanistas”.

Humanistas, então, seriam aqueles que preservavam a memória humana registrada em livros. Acho que fechei o círculo desta minha breve exposição: não nascemos humanos, mas nos tornamos membros da espécie ao contatarmos a experiência de outros humanos através da linguagem.


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