Rudá Ricci

29 de novembro de 2019, 19h40

Sobre a perda de apoio de Lula

Rudá Ricci: "Minha suposição diminui em muito o peso da perseguição pela Operação Lava Jato e ações políticas de Sérgio Moro na queda de popularidade de Lula. Antes, os inquisidores tupiniquins teriam surfado numa onda que já estava em formação desde 2013 e que tomou forma em 2015"

Foto: Ricardo Stuckert

Lula saiu de seu governo em 2010 com 83% de aprovação popular. Em outubro de 2019, contudo, metade dos brasileiros (54%) acreditavam que a prisão do ex-presidente tinha sido justa. Embora este índice de desconfiança esteja caindo paulatinamente na medida em que o STF corrige as manobras políticas impetradas por Sérgio Moro, a distância entre 2010 e 2019 é significativa.

O discurso oficial do PT é que este degelo do apoio ao maior politico contemporâneo brasileiro se deve à intensa campanha desfechada na grande imprensa e por articulações empresariais e de forças de extrema direita, grande imprensa, tudo junto e misturado com apoio dos EUA. Esta tese, contudo, não parece dialogar com os fatos políticos e se fundamenta numa grande desconfiança em relação à opinião popular, o que parece uma imensa contradição: ou a população errou em apoiar Lula ou acertou no apoio e, agora, na desconfiança. O que não dá é para achar que quando apoia é livre e consciente e quando critica é alienado.

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Haveria um outro cálculo possível. Trata-se justamente na matemática que motivou Lula a montar uma das maiores coalizões presidenciais deste país. Porque Lula juntou PMDB, PTB, PP, parte do PSDB (como foi a aliança Lulécio em Minas Gerais), Igreja Universal e tantos outros, de tal maneira que parecia inspirado na Arca de Noé? Necessidade de obter maioria. O que significa que antes da coalizão, o lulismo não tinha maioria garantida.

Ora, se o cálculo para governar necessitava de apoio de outros partidos com ideologias tão díspares entre si, ao sair do governo esta maioria só poderia ser garantida se a coalização permanecesse. Parece uma hipótese razoável, não?

Pois bem, sabemos que a primeira gestão de Dilma Rousseff foi perdendo apoios ao longo dos quatro anos. E, simultaneamente, perdeu apoios na sociedade. Era comum que aliados – lideranças de movimentos sociais e lideranças religiosas – reclamassem da falta de escuta. A CNBB chegou a explicitar que ficou sem ser recebida pela presidente por mais de um ano. Lideranças evangélicas e empresariais não escondiam sua indignação pelo desprezo e descaso da possuidora do maior poder político da nossa República. No segundo ano de sua primeira gestão, Dilma chegou a ter mais de 75% de aprovação. Em março de 2013, seu governo tinha aprovação de 63% dos brasileiros (pesquisa CNI/IBOPE), mas a sua aprovação pessoal chegava a 79%.. Em junho, caiu para 53% e, logo após as manifestações que duraram três semanas, despencava para 31%. Ora, aliado se assusta quando o líder da coalizão começa a perder apoios na sociedade. Recupera-se em agosto e atravessa o segundo semestre oscilando entre 38% e 39%, mais que o percentual de aprovação do governo Bolsonaro em todo segundo semestre de seu primeiro ano de governo.

No seu último ano do primeiro mandato, em dezembro de 2014, o percentual de aprovação de sua gestão atingia 42%, mas em fevereiro de 2015, após a posse e o anúncio do desastroso pacote econômico recessivo, atingia 23% e em março, 13%. A aprovação do Congresso Nacional naquele momento, segundo o Datafolha, era de 9%. O mundo político desmoronava. Foi um “salve-se quem puder”.

Este desmoronando atingiu Lula. Se em 2010, obtinha 83% de aprovação; em junho de 2014, este índice caía para 71%. De alguma maneira, a queda de popularidade do governo Dilma – e a imensa frustração por ter feito exatamente o inverso do que havia prometido na campanha eleitoral – se tornava uma âncora que puxava para baixo a popularidade de Lula.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff ocorreu entre dezembro de 2015 e agosto de 2016. Este foi o período de diáspora dos aliados do lulismo. No final de 2015, a aprovação de Lula já demonstrava queda. Em novembro de 2015, 47% dos entrevistados afirmaram que não votariam em Lula caso se candidatasse, segundo o Datafolha. Em março de 2016, o mesmo instituto de pesquisa percebia um aumento da rejeição, atingindo 57%.

A hipótese que estou apresentando é que a popularidade de Lula – e suas gestões – teria relação direta com seus acertos, mas também com o arco de aliados que promoviam sua gestão em sua base eleitoral. Na medida em que foram se afastando da “marca Lula”, este “círculo de proteção e apoio político” foi cedendo lugar às críticas. Em outras palavras, a rede de contenção da ampla coalizão se rompia.

Se a hipótese está correta, os 83% de aprovação percebidos no final de 2010 teriam ao redor de 20% deste total advindos da ampla coalizão.

Minha suposição diminui em muito o peso da perseguição pela Operação Lava Jato e ações políticas de Sérgio Moro na queda de popularidade de Lula. Antes, os inquisidores tupiniquins teriam surfado numa onda que já estava em formação desde 2013 e que tomou forma em 2015.

Para manter a ampla coalizão, Lula cedeu. E muito. Em determinado momento, parte significativa do apoio social que o governo tinha seguiu a sua liderança original (PMDB, PTB, PP etc) que até então apoiava por osmose o governo federal. Ao ceder o tempo todo às forças de centro-direita e direita, Lula desarmou sua base política original e não conseguiu cativar a base política que convergia para seu governo pelas mãos de políticos tradicionais. Ficou refém.

Se assim foi, Lula criou uma certa ilusão em relação aos 83% de 2010. Parte deste apoio não era exatamente a ele, mas ao governo de coalizão.

Esta minha hipótese leva em consideração outra tese: que o Brasil é governado a partir de acordos com prefeitos. São os verdadeiros cabos eleitorais que formam uma rede poderosa (pagam jornais e rádios locais, indicam assessores para deputados etc) pelos rincões do país. Lula tinha apoio desses prefeitos indiretamente, via deputados que estavam na aliança, ou via administração do Bolsa Família ou dos programas federais que chegavam aos borbotões pelas mediações realizadas pelos deputados federais que operavam naquele determinado território. Programas que foram minguando durante as gestões Dilma Rousseff.

Em suma: a minha hipótese é que a queda de popularidade de Lula se deve aos erros da gestão Dilma Rousseff.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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