Colunistas

25 de setembro de 2018, 15h49

Se tiver dúvidas entre Haddad e Ciro, reflita sobre as vices dos candidatos

"A volta do PT ao governo criaria uma condição muito mais à esquerda, já que a vice também é de esquerda, completamente diferente de Temer, monstro que o PT erroneamente alimentou para manter a governabilidade"

Quando Guilherme Boulos, candidato do PSOL, em um dos debates televisivos, disse que os presidenciáveis que ali estavam presentes eram “50 tons de Temer”, acertou na veia. Sem Lula, o debate realmente transpirava essa ideia se olhássemos com maior atenção.

Mas desses 50 tons, precisamos nos atentar para dois. O primeiro é o Temer arrogante, militar, cristão e ignorante representado pela figura de Jair Bolsonaro. Bolsonaro é Temer porque no plano econômico compactua com o que está sendo realizado pelo presidente golpista. Privatizações, concessões, subtração dos direitos trabalhistas, educação utilitarista para formar mão de obra e não cidadãos, etc.. Não é à toa que as mesmas corporações que apoiaram o golpe estão do lado dele. Embora seus princípios morais ponham em risco os princípios morais da burguesia liberal, esta não pensaria duas vezes entre salvar suas fortunas ou sua moralidade. Desta forma, Bolsonaro não seria o Temer ideal (Alckmin estaria mais próximo disso), mas é o Temer que está na disputa real para o cargo da presidência.

O nosso outro Temer seria Ciro Gomes. Lógico que não ele diretamente, mas o contexto que lembra o cenário que levou Temer ao poder. A vice de Ciro é uma mulher latifundiária, dona de fazendas no Tocantins. Embora não tenha concordado com o golpe, ela é claramente uma representante do agronegócio, contra a ocupação e demarcação de terras. Por isso que muitos acreditam (inclusive membros das classes dominantes) que Ciro seria a opção mais segura para combater o fascismo. E as pesquisas (algumas financiadas por banqueiros), no início, mostravam que o candidato do PDT ganharia de Bolsonaro no segundo turno e Haddad não.

Dessa maneira, Ciro estaria muito mais próximo dos governos Dilma que Haddad, pois caso o mercado financeiro não se satisfaça com os projetos econômicos do presidente, nada o impedirá de colocar sua vice, simpatizante da bancada ruralista.

Contudo, dessa vez, a volta do PT ao governo criaria uma condição muito mais à esquerda, já que a vice também é de esquerda, completamente diferente de Temer, monstro que o PT erroneamente alimentou para manter a governabilidade. Um golpe hoje, caso Haddad vença as eleições, colocaria Manuela D’Ávila no poder, trocando seis por meia dúzia. Nem na época de Lula o vice era de esquerda! Ou seja, isso pode assustar um pouco a burguesia, caso o PT, no meio do caminho, decida adotar, de fato, um programa de esquerda.

Se as esquerdas estão divididas entre Ciro e Haddad, está na hora de pensar na chapa e não apenas no candidato principal. Partindo desse raciocínio, seria muito mais sensato as esquerdas optarem pelo PT, hoje muito mais à esquerda que o candidato do PDT que, astutamente, escolheu uma vice que flerta com os banqueiros e latifundiários.

Mesmo que o PSDB se aproxime do PT para não deixar a concretização da vitória de Bolsonaro, uma ruptura com o establishment seria muito mais possível no futuro, pois a esquerda manteria sua governabilidade mesmo com um golpe. A não ser que fosse implantada uma ditadura militar…

Não podemos dizer o mesmo sobre Ciro Gomes, que embora o consideremos um candidato de esquerda, sua vice deixa muito a desejar. Se, em um futuro próximo, Ciro desejasse trilhar um caminho de esquerda mais óbvio, o mercado se movimentaria para tirá-lo do poder figurativo e daria a sua vice, latifundiária, o direito de conduzir a política econômica pautada no bom e velho Milton Friedman, principal protagonista da escola econômica de Chicago.

A vitória do PT, além de ser um tapa na cara da Rede Globo e das diversas corporações que fizeram de tudo para destruir sua imagem, será também a forma mais segura de colocar um projeto de esquerda no poder. E, repito, nem mesmo na era Lula as chapas petistas foram tão de esquerda assim!


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum