Colunistas

02 de fevereiro de 2018, 12h01

Sergio Amadeu: Trabalho imaterial não pago e vigilância

Estudiosos de redes afirmam que boa parte da economia da informação cresceu explorando o trabalho não pago

Por Sergio Amadeu da Silveira*

Os pesquisadores do Share Lab, da Sérvia, fizeram uma excelente pesquisa sobre o Facebook chamado “Immaterial Labour and Data Harvesting – Facebook algorhmic factory” que podemos traduzir como “Trabalho imaterial e colheita de dados – a fábrica algorítmica do Facebook”. Trago aqui alguns comentários inspirado por esse importante levantamento.

Há algum tempo estudiosos de redes afirmam que boa parte da economia da informação cresceu explorando o trabalho não pago. Rafael Evagelista (Unicamp), em 2007, escreveu um breve artigo chamando esse processo de extração de mais-valia 2.0. Nessa direção, os pesquisadores do Share Lab fizeram uma instigante projeção sobre a geração de riqueza no Facebook. Com mais de 1 bilhão de inscritos, o Facebook consegue que esse contingente trabalhe em média 20 minutos por dia, comentando, clicando e visualizando postagens que mais interessam. São mais de 300 milhões de horas úteis de trabalho digital gratuito por dia.

“Olhando da perspectiva antropocêntrica, gostamos de colocar nosso próprio e nosso trabalho no foco principal, mas neste caso, a principal forma de trabalho é feita pelos algoritmos. Os produtos desta fábrica imaterial [o Facebook] são mais de um bilhão de perfis de usuários diferentes, categorizados e prontos para venda. (…) o comportamento dos usuários é utilizado como matéria-prima dos algoritmos. Mas, os usuários estão trabalhando constantemente no ajuste fino desses algoritmos, confirmando tendências, navegando pelas opções oferecidas, enfim, alimentando esse sistema com mais e mais informações sobre si mesmos. É um tipo de casamento perfeito entre o trabalho imaterial gratuito e a economia de vigilância.” (Share Lab)

Segundo a empresa Statista, o Facebook armazena mais de 300 milhões de gigabytes de dados dos seus usuários. Isso equivale a 126 livros digitais sobre cada pessoa que tem uma conta na maior rede social online. Para que serve tantos dados? Para construir o perfil de cada pessoa com a possibilidade de saber em detalhes as suas características com o objetivo de inseri-la em amostras e vendê-las, em tempo real, para as ad networks e ad exchanges, enfim para as empresas de marketing.

Para ler a pesquisa integralmente (em inglês) acesse aqui.

Para compreender o mercado de dados e a economia da intrusão leia o e-book que escrevi chamado ‘Tudo sobre tod@s: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoais’, Edições SESC-SP. Está disponível em diversas livrarias online.

*Sergio Amadeu da Silveira é pesquisador do mundo digital e professor da UFABC.

(Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)


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