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12 de dezembro de 2018, 15h54

Sobre o começo do governo de Jair Bolsonaro

Rodrigo Perez Oliveira: “A esquerda brasileira vem sofrendo contundentes derrotas. Se fosse possível dar alguma boa notícia em meio a tanto desalento, eu diria que o lado de lá não tá com essa bola toda”

Foto: Arquivo Pessoal

Jair Bolsonaro concluirá o mandato? Se reelegerá? Fará o sucessor? Será impedido, golpeado? Vai morrer? Mourão assumirá o cargo? Bolsonaro se tornará um Presidente fraco, engolido pelo protagonismo e ambição de seus aliados?

Definitivamente, não dá pra saber como o governo de Bolsonaro acabará. Qualquer um que arrisque um palpite estará apenas palpitando, torcendo, seja contra ou a favor.

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Porém, é perfeitamente possível saber como o governo começará. Aqui o cenário é claro, basta colocar a cabeça para fora da janela e olhar. É isso que faço neste ensaio.

Não passaram nem dois meses desde as eleições. Parece que foi mais. Nas crises é assim mesmo. O tempo passa mais rápido. Bolsonaro foi consagrado nas urnas com uma votação expressiva (55% dos votos válidos). Não foi uma goleada, como em algum momento pareceu que seria. Mas foi uma votação expressiva. Não dá pra negar o óbvio.

Podemos até questionar o processo eleitoral, e cada vez mais estou convencido de que a esquerda naturalizou muito fácil essa derrota, como se as eleições tivessem acontecido dentro da normalidade. Haddad fez twite parabenizando Bolsonaro na mesma noite da derrota. O velho republicanismo de sempre.

Somente Lula, no pouco espaço que tem para falar, insiste em dizer o óbvio: as eleições foram fraudadas. O principal candidato foi impedido de concorrer pelo juiz que aceitou ser ministro do Presidente que a ajudou a eleger. Enfim, essa é outra discussão. Não é disso que quero falar aqui.

Fato, fato mesmo, é que Bolsonaro saiu fortalecido das urnas, como acontece com todo governo recém-eleito. Em regra, os governos são como as pessoas: quanto mais jovens, mais saudáveis e viris. O governo de Bolsonaro é a exceção à regra.

Em janeiro, Bolsonaro começará seu mandato fragilizado, sem que a oposição tenha começado a se movimentar. E vejam, leitor e leitora, que a oposição, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, também está fragilizada. Hoje, o Brasil vive uma situação atípica: o governo eleito e a oposição derrotada estão enfraquecidos. É que a crise é muito profunda. É a crise de todo um sistema político. É uma crise total.

Mas o que aconteceu em menos de dois meses que enfraqueceu tanto o Presidente eleito?

1°) As disputas por dentro.

O governo de Jair Bolsonaro ainda nem começou e está sendo disputado por dentro, à foice. Os aliados estão ansiosos, afobados, comendo uns aos outros. As brigas estão vindo a público, num espetáculo grotesco e algo cômico.

Existem, hoje, cinco núcleos no governo de Jair Bolsonaro.

Cinco grupos com projetos distintos, e muitas vezes rivais entre si.

O núcleo do mercado tem o objetivo claro de dar continuidade à refundação do Estado brasileiro iniciada no governo de Michel Temer. Liderado por Paulo Guedes e seus “Chicago Boys”, o núcleo do mercado pretende sepultar de vez o nacional estatismo, entregando completamente o desenvolvimento nacional ao controle da iniciativa privada.

O núcleo dos militares, comandado pelo General Mourão, tem o objetivo de reabilitar a imagem das forças armadas como o berço das virtudes da pátria. Mourão já deixou claro que não será um “vice decorativo”, que quer protagonismo, que deseja interferir nos rumos do governo. Nos últimos dias, ele fez alguns gestos em defesa das empresas especializadas em obras de infraestrutura, justamente aquelas que foram mais abaladas pela operação Lava Jato. Não me parece que os militares vejam com bons olhos a agenda privatista e entreguista representada por Paulo Guedes e pelo núcleo do mercado.

O núcleo da família é o mais ideologicamente desequilibrado. Os filhos de Bolsonaro, liderados por Eduardo, estão mesmo convencidos de que em algum momento existiu no Brasil um governo socialista, cujas heranças precisam ser combatidas a qualquer custo. Os caras estão dispostos a investir energia política nisso, seja tentando passar o “Projeto Escola sem Partido” ou organizando uma “internacional conservadora”. Duvido que o núcleo do mercado, com seu pragmatismo, apoie essa jornada anticomunista da família presidencial.

O núcleo dos evangélicos, liderado por Silas Malafaia e Edir Macedo, tem afinidades programáticas com o núcleo familiar, já que a histeria comunista tem lá sua dimensão moralista, de patrulha do comportamento e controle dos corpos. No entanto, não me parece que os interesses dos evangélicos sejam exatamente os mesmos do núcleo familiar. Ainda não consigo distinguir com clareza uns e outros, mas tenho a intuição de que não são exatamente iguais. Os evangélicos são muito ambiciosos, desejam o controle pleno da política cultural e educacional do país. O caso da nomeação para o Ministério da Educação foi emblemático dessa ambição. Primeiro, Bolsonaro nomeou Mozart Neves, um educador liberal, palatável ao mercado e tolerável até mesmo pelo campo progressista. Os evangélicos pressionaram e Bolsonaro precisou voltar atrás, nomeando Ricardo Vélez Rodriguez, um direitista orgânico.

Há também o núcleo político, que se subdivide em outros dois grupos: em um lado, estão os parlamentares de primeiro mandato, eleitos quase todos pelo PSL. Alexandre Frota, Joice Hasselman, Daniel Silveira, entre outros. Tal como acontece com o núcleo familiar, esses atores também são movidos pela histeria anticomunista, o que não significa necessariamente uma aliança entre os dois grupos. Pelo contrário, a disputa pelo protagonismo se torna ainda mais acirrada, como ficou claro no quebra-pau entre Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann. No outro subgrupo, estão as velhas raposas vinculadas a outros partidos de direita que estão acenando para Bolsonaro. Aqui, destaco Rodrigo Maia e a ala do PSDB liderada por João Doria. Essa semana, até mesmo Renan Calheiros piscou para o governo eleito, ao dizer que, se for o Presidente do Senado, não permitirá que Flávio Bolsonaro (o chefe do motorista milionário) seja processado na comissão de ética. Essas lideranças vinculadas a partidos tradicionais são fisiológicas, desejam poder. Por isso, querem se alimentar do bolsonarismo. Se elas perceberem que Bolsonaro está desidratando, não vão pensar duas vezes em pular fora do barco.

E ainda tem o Sérgio Moro no Ministério da Justiça. Não dá pra saber se Moro será movido apenas por um projeto pessoal de poder ou se será capaz de fundar e liderar outro núcleo. A ver o que acontece.

Como podemos perceber, são quatro grupos constituídos, com agendas diferentes, unidos por um fio muito tênue. Até aqui, ninguém conseguiu construir hegemonia, o que é um problema para Jair Bolsonaro, pois isso o obrigar a agir como o fiel da balança. Já que na disputa natural entre os aliados não há um vencedor, o Presidente terá que escolher, o que obviamente o desgastará com os que foram preteridos.

2°) O sentimento de frustração.

Algum escritor sábio já deve ter dito que a frustração é a filha da expectativa. Se ninguém disse, digo eu: a frustração é a filha da expectativa. Quanto maior a expectativa, maior será a frustração.

Um dos grandes méritos da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi o de convencer o eleitorado de que o capitão representa a mudança nas práticas políticas brasileiras.

E tratou-se de um grande mérito, de uma genial jogada de marketing político, pois foi capaz de esconder o óbvio: Bolsonaro foi um deputado improdutivo por quase trinta anos e ao longo desse tempo só atendeu aos interesses de sua própria família, conseguindo transformar seus quatro filhos em políticos profissionais. É o velho nepotismo de sempre.

A família Bolsonaro construiu um império imobiliário. A curva de evolução patrimonial é impressionante. Mesmo assim, Bolsonaro conseguiu convencer seus eleitores de que é honesto e vai “mudar tudo isso aí”.

As pessoas estão esperando a mudança. Estão alimentando expectativas. Os eleitores mais atentos já começam a manifestar frustração, principalmente depois do escândalo envolvendo a movimentação bancária do assessor de Flávio Bolsonaro. Esse é um caso clássico de corrupção rasteira, baixa, típica do baixo clero. Explico rapidinho o esquema:

O parlamentar contrata uma dúzia de assessores e combina que eles devem devolver parte do salário. No começo do mês, logo depois de receberem o salário, os assessores pagam o pedágio, depositando o dinheiro na conta do assessor que ficou responsável pela gestão do esquema. Assim, o parlamentar ganha uma mesadinha por fora, livre de impostos, molezinha. No caso do bolsogate, a mesadinha foi depositada na conta de Michelle Bolsonaro. É o mensalinho da Michelle.

As pessoas estão vendo isso tudo acontecer, estão começando a se decepcionar. Se o governo não conseguir dar uma resposta rápida ao problema da crise econômica, se a população não sentir na pele a melhoria de suas condições materiais, todo esse clima de desconfiança vai evoluir para um sentimento coletivo de frustração, que vai ser tão forte quanto a expectativa gerada na campanha eleitoral. Se isso acontecer, Bolsonaro perderá as ruas. Sobrarão apenas os apoiadores mais fanáticos.

Não há dúvidas de que nos últimos anos, a esquerda brasileira vem sofrendo contundentes derrotas. Se fosse possível dar alguma boa notícia em meio a tanto desalento, eu diria que o lado de lá não tá com essa bola toda. O jogo continua sendo jogado. A história nunca acaba.

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