Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

05 de setembro de 2019, 22h50

Fiquei em primeiro no concurso, larguei emprego e o governo cortou minha bolsa

Tomaz Amorim: “O espancamento e a destruição a céu aberto, anunciada, da universidade pública são parte de um mesmo projeto. É a normalidade nacional escancarada”

Foto: Reprodução

Passei a tarde do dia 3 dormindo. Recebi, de manhã, no caminho para o trabalho, a notícia de que minha bolsa de pós-doutorado havia sido suspensa, antes mesmo de ser implementada, pelos cortes mais recentes do governo na Capes. Pedi para sair mais cedo do trabalho, os colegas entenderam. Hoje era meu último dia. Estava triste de sair, mas também feliz.

Há quase quatro semanas chegou a notícia de que passei em primeiro lugar no pós-doutorado em teoria literária na Unicamp, universidade onde eu me graduei. Passando em primeiro, eu consegui a única bolsa disponível, que me permitiria participar da vida acadêmica por mais dois anos. Foi a solução de uma angústia.

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Trabalhando em um lugar muito legal, ainda assim o emprego de 40 horas simplesmente inviabiliza a carreira acadêmica. Como estudar, produzir artigos, participar de eventos e congressos, participar de concursos públicos para professor? É impossível. Ou uma coisa ou outra.

O primeiro semestre já tinha sido de esforço: escrever o projeto de pós-doc entre freelas variados, insegurança financeira e desmotivação brutal com o futuro da pesquisa e das universidades no Brasil.

Ter sido aprovado, em primeiro lugar ainda, em uma das universidades mais concorridas do Brasil, confesso, foi uma surpresa e um alívio. Tinha ganhado mais dois anos para insistir na carreira acadêmica.

No meio da euforia, eu pensava já em um texto sobre a elitização da carreira. Esse é um dos efeitos mais nefastos dos ataques do governo Bolsonaro às universidades públicas.

Desde a colonização, o ensino superior foi privilégio de poucos no Brasil. Com a expansão do ensino superior a partir de 2002 e, sobretudo, com as leis de cotas, pela primeira vez na história do Brasil as universidades passaram a ser frequentadas por gente negra, índia e de periferia. O impacto foi brutal: ver professores, médicos e engenheiros, finalmente, com cara de brasileiros.

Uma parte que ficou relativamente intocada foi o quadro docente da própria universidade. Para se tornar professor universitário não basta uma graduação de cinco ou seis anos, mas também um mestrado de dois ou três e um doutorado de quatro ou cinco. A coisa toda vai somando 12 ou 13 anos em um contexto com bolsas de estudo muito disputadas e que em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro mal bancavam os custos de aluguel, alimentação etc. Ainda assim, aos poucos, as primeiras gerações foram se formando na graduação e na pós rumo à docência.

Por volta de 2010, a expansão parou e conforme a crise econômica e política foi se instalando no Brasil, as coisas foram ficando mais difíceis. As vagas e bolsas ficaram cada vez mais concorridas.

A concorrência, ao contrário do que o discurso meritocrático prega, leva em conta elementos materiais: tempo disponível para estudar, saúde física e psicológica, referencial de pessoas com diploma universitário na família etc.

As exigências para se tornar professor também. Se a geração anterior muitas vezes passava em concurso com graduação ou mestrado, a de agora se vê competindo com dezenas de colegas já doutores no primeiro ou no segundo pós-doutorado.

A pergunta silenciosa, e que sempre falhamos em fazer, é: quem, no Brasil, pode se dar ao luxo de ingressar no trabalho formal apenas com 30 ou 35 anos? Quem pode se dar ao luxo de receber as bolsas de R$ 1.500 e R$ 2.200, no caso, já fora do normal, de conseguir recebê-la? Quem não precisa ajudar em casa depois de adulto? Quem não se casa, não tem filhos? Quem tem uma família estruturada o bastante para saber que, no fim do período absolutamente esgotante de escrita de uma dissertação de mestrado ou de uma tese de doutorado, tudo bem voltar para a casa dos pais por alguns meses até conseguir se organizar?

Neste momento, não há mais carreira acadêmica no Brasil. Carreira no sentido de um percurso a ser percorrido, com fases bem definidas e apoio financeiro e institucional do começo ao fim. Quem pode se dar ao luxo de almejar um cargo sem a existência de uma carreira? Quem pode esperar?

O mais grave da destruição da universidade pública é que ela reforça a elitização histórica da universidade. O tímido processo contrário, de democratização, vai rapidamente sendo destruído. Quanto maior a concorrência, quanto menos recursos, mais elitizado o sistema, não por falta de capacidade, mas pela sobrecarga histórica, psicológica e material, subjetiva e coletiva.

É a tragédia de uma geração inteira, a primeira de pessoas formadas em universidade na sua família, a primeira que ousaria se tornar professor nesta mesma universidade. O fim do curto começo de uma universidade em que os professores não compartilham por gerações certos sobrenomes.

Passei a tarde inteira dormindo, recebi a solidariedade de amigos e colegas. Mês que vem haverá um congresso de pós-doutorandos em que eu participaria. Os colegas prometem tratar do tema. Fiquei muito grato. Por telefone e por e-mail os funcionários da Unicamp e meu próprio supervisor foram gentis, pareciam também incrédulos, melancólicos. Se isso acontece com o primeiro colocado do pós-doutorado do IEL da Unicamp, o que estará acontecendo com outras universidades públicas, com ainda menos recursos? É de tirar o chão de debaixo dos pés.

Não há mais carreira acadêmica no Brasil. Se você estuda enquanto trabalha, prepara um projeto de pós-doutorado, é aprovado, te prometem uma bolsa por dois anos, explica a situação no trabalho, é compreendido, celebrado pelos colegas, pede para sair e fica de aviso prévio, se quando chega no último dia deste trabalho, um dia depois da suposta implantação oficial da bolsa, se nesse dia você descobre que a bolsa inteira, não só na sua faculdade, mas em todo o país, foi suspensa sem explicação, por um governo incompetente e canalha, se você, ainda sob o efeito da notícia precisa correr para saber se ainda pode manter o emprego (já abrindo mão da inscrição no concurso em que você havia esperançosamente se inscrito uma semana antes, dos planos de participação em congressos, dos artigos que já estava revisando), então não há mais carreira acadêmica no Brasil. Pelo menos não no futuro próximo.

Fico pensando se faz sentido falar sobre isso no mesmo dia em que um menino foi chicoteado no quartinho dos fundos de um supermercado por roubar um chocolate. Não sei. A miséria que é a história do Brasil e o Brasil presente fazem parecer que falar de universidade, da possibilidade de pensar, ensinar e aprender, é luxo. Mas isso já é parte do engano. O espancamento e a destruição a céu aberto, anunciada, da universidade pública são parte de um mesmo projeto. É a normalidade nacional escancarada.

Da minha parte, assim que juntar as forças (e agradecendo o amparo dos colegas do trabalho e da universidade, dos amigos) vou entrar em contato com a maior parte possível de universitários afetados e tentar organizar uma defesa a esse ataque bruto, sujo, à possibilidade de uma universidade democrática e de uma careira acadêmica. Também pretendo ir ao ato no sábado sobre mais um menino brutalizado pela violência militarizada do país. Não tem alternativa, precisamos lutar, “estamos sendo atacados”, como diz, com razão, a Lunga de “Bacurau”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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