Maternidade e morte em “A mulher submersa”, de Mar Becker

Tomaz Amorim escreve sobre “A mulher submersa”, livro de estreia de Mar Becker. No livro, a poeta trata de temas e imagens ligadas ao feminino, ao espaço doméstico e à história das mulheres, na literatura e no mundo

Lançado em maio de 2020 pela editora Urutau, “A mulher submersa” é o primeiro livro de poemas de Mar Becker.  A beleza, o cuidado linguístico e ambição controlada deste livro de estréia, assim como o cuidado gráfico da edição, que conta com fotos de Wladimir Vaz, é sinal de saúde da cena da poesia brasileira contemporânea e deixa seus leitores já ansiosos pelos desenvolvimentos futuros desta poética. Depois da resenha crítica que se segue, reproduzimos com autorização da autora um dos poemas longos do livro.

A escritora Micheliny Verunschk, em sua bela orelha para o livro, já ilumina alguns de seus principais temas. Seu resgate do belo quadro da “Ophelia” de John Everett Millais serve como um tipo de constelação das imagens da água, da mulher, do amor e da morte, contidos também de alguma forma já no título do livro: “A mulher submersa”. O tema da água é tradicionalmente aproximado com o feminino em diversas tradições, da amante Afrodite nascendo das ondas, à mãe de todos Iemanjá. O livro mimetiza estes movimentos de imersão e emersão, se move ao redor dos temas com a plasticidade das águas. Imita a evaporação que deixa para trás o sal da melancolia. A precipitação erótica. O redemoinho enlutado. A violência da ressaca. A tranquilidade especular da superfície de um lago.

“Ophelia” de John Everett Millais

E se a origem da vida terrena está nos mares, a origem da vida humana está no líquido amniótico. O materno é aquático. O livro se apropria deste imaginário, mas traz elementos próprios. Se a intimidade entre o feminino e a água se dá pela geração da vida (embora haja também quem a tire, como as sereias), neste livro esta potência geradora é invertida. Os poemas se movimentam ao redor de um redemoinho no centro do qual está esse vazio ofélico da morte. A maternidade está estéril, o corpo feminino não gera mais vida porque ele mesmo é vítima de violências que vão as poucos ressecando-o até o ponto extremo da morte. O brilho de certas exceções, pulverizadas através dos poemas, marca o contraste com uma vida evaporada, como o líquido que humidifca o sexo ou os depósitos de sal.

Os poemas do livro, de maneira muito diversa, investigam este tema que talvez seja o seu principal, a linha estruturante por onde se movimentam as vozes dessa eu-lírica, o tema da maternidade morta:

“porque é assim que amo, lendária e triste. porque não posso

senão amar com o que em meu corpo é a história do fim de uma linhagem, estéril como sou”.

O portão que traz à vida se fecha, pelas mais diversas razões. A maternidade é morta por recusa ativa ou por esterilidade. A maternidade é violentamente morta, como no feminicídio de uma avó. A maternidade é morta na figura da filha que não gera outra filha. A maternidade é morta no orgasmo (a morte momentânea) do sexo que não serve à reprodução, mas à justificação da vida no prazer. A maternidade é morta no suicídio das poetas mulheres parturientes de palavras. A maternidade é morta nas donas de casa e vizinhas velhas que não geram mais filhos ou nunca geraram. A morte como retorno à maternidade comum, pulsão de morte, “como o instante em que eu e o mar ainda éramos um mesmo projeto”. A maternidade de uma natureza que se reproduz e morre de maneira exaustiva e incessante para suas fêmeas:

“por vezes uma pássara prenha entra em algum dos vãos do beiral do telhado. com o ninho já construído, ela se instala e põe seus ovos. em fevereiro e março, no período de chuvas mais intensas, é comum que um dos filhotes caia – recém-nascido horrível. roxo. sem penas, só cabeça e bico”.

Todos essas variações possíveis entre maternidade e morte dão ao livro esse tom melancólico que embala todos os outros temas, mesmo os alegres. É o azul do mar visto à distância, “o mar como desolação”.

“A mulher submersa” é composto por quatorze cadernos que, mantendo uma coesão de imagens e temas, se diferenciam entre si sobretudo pela entonação da eu-lírica e, em alguns poemas, pelos interlocutores. É impressionante como o livro fala ao mesmo tempo, através dos mesmos versos, para dois públicos ou dois pólos de recepção bastante diferentes: masculino e feminino. Mar Becker consegue emanar, em um mesmo poema, imagens em frequências paralelas, dizendo coisas às vezes contraditórias. A diferença na recepção dessas vozes está muitas vezes entre a literalidade e a ironia. Isso é um feito que ajuda a explicar a diversidade de recepção da obra. Dizer de antemão que há uma leitura correta, decidir sobre o que é estritamente irônico ou não, seria empobrecer os poemas. Assim, por exemplo, no caderno “à parte do reino”, lê-se a repetição do verso inicial: “as mulheres são todas iguais”. Conforme o verso avança, o leitor é encorajado a uma leitura literal, o poema é si é um tipo de maldição dizendo ao interlocutor, “o meu amor”, que esta eu-lírica que fala é igual a sua ex, assim como será igual também a próxima. Aqui é possível entender que, diante de uma certa masculinidade, as mulheres parecem mesmo todas iguais, ao sofrer a violência específica que sofrem, ao serem abandonadas e cortejadas e abandonadas repetidamente. E que diante de uma visão de sororidade do mundo, as mulheres se entendem todas como iguais entre si (em resistência, em sobrevivência), vendo-se como aliadas. A leitura irônica, por outro lado, parte do dito masculino comum, “mulher é tudo igual”, para construir um tipo de ridicularização dos medos masculinos diante destas mulheres que são evidentemente diferentes, mas que na representação masculina pobre são vistas como sempre iguais. Parte da sedução desta poesia está nesta indecidibilidade, como a imagem de um rosto refletido na superfície de uma água perturbada.

Mar Becker faz parte de um geração de poetas que usa as redes sociais como caixa de ressonância do seu trabalho. A divulgação inicial, as primeiras impressões, comentários e críticas vêm mais dali do que de revistas especializadas ou de saraus. Isso é interessante porque, além de dar pistas sobre a rede de poetas e leitores que se vai se construindo, também influencia na poética da época. Se a mídia sempre ajuda a determinar a forma e os temas da literatura, com as redes sociais não é diferente. O tom coloquial de alguns de seus versos mais compridos ou o recurso aberto mesmo à prosa, as temáticas ligadas ao feminino e à sexualidade podem ser entendidos também como marcas evolutivas de poemas que foram publicados pela primeira vez nas redes sociais, disputando espaço com outros conteúdos, da propaganda à mobilização política, que não ficam completamente de fora.

Ao contrário do excesso das redes, no entanto, a poesia de Becker é econômica, se escreve magra em estrofes curtas e espalhadas em páginas. A diferença de poema para poema quase não se vê tamanha a semelhança da voz dentro dos cadernos. Desta concentração vem uma sensação estranha de intimidade na leitura, causada pelo modo bastante específico com que esta eu-lírica, em um tipo de lirismo dialógico, se explica e descreve, se despe intimamente para o leitor, muitas vezes interpelado por ela como interlocutor ausente. É uma sensação estranha, não de todo distante da pergunta facebookiana: No que você está pensando? A eu-lírica responde através de uma intimidade performada em praça pública. Não se tratam de confissões ou de biografismos, mas de uma construção estética precisa. Há uma impressão de intimidade, uma impressão de exposição completa que, no entanto, é medida, limitada a elementos bastante específicos que a escritora decide trazer à luz. Não são palavras sempre agradáveis, mas parecem dirigidas especialmente a cada um que lê.

Uma acusação possível e interessante de se refletir a partir do livro seria a de um tratamento próximo do arquetípico nas imagens: o eterno feminino, a maternidade, as águas. Uma primeira resposta possível seria atentar para o elemento histórico a partir da mediação da memória. Não são as experiências ahistóricas das mulheres, mas a vida histórica, bem localizada, por exemplo, no enclave brasileiro (para falar como Marcelo Labes), na “serra sem fim”, nas histórias familiares de afeto e violência, nas confidências. Há, sem dúvida, uma tentativa de resgate de uma ancestralidade feminina (como se vê também nas belas fotografias de Wladimir Vaz), mas isso se dá via história, literária e artística, inclusive, não de repetição e rebaixamento mítico. O resgate é feito através de detalhes materiais (os objetos de memorabilia, guardados em uma gaveta), traços sociais, resquícios bastante localizáveis no presente. Não é o sagrado feminino, mas uma história das mulheres, com suas repetições e transformações, culminando no presente desta eu-lírica. 

Crédito: Wladimir Vaz

Se não é o arquétipo feminino, talvez seja um tipo de universalismo provinciano (condição histórica dos grupos “outros”), por contraditório que soe. É o mar potencializado pela imaginação “do interior do sul”, de quem sempre ouviu histórias na infância, mas o conheceu apenas mais tarde, já pronta para transformá-lo em imagem estética. Essa menina que cresce longe do mar, mas sente um parentesco nele, se tornará nos próximos poemas a dona de casa que sai pouco do lar, que fica na janela olhando a rua como a menina fica ouvindo na concha o mar. Em sua diversidade de vozes femininas, “A mulher submersa” também é um livro de e para donas de casa. Aquele isolamento geográfico da infância se transforma em isolamento social da vida adulta, do gineceu moderno. É desta casa, no entanto, que este isolamento se comunica com as outras isoladas da família, da vizinhança e da história (“as donas de casa sentem que a rebelião virá”). De dona de casa para dona de casa, de escritora para escritora, escritora que dá voz, novamente, às vozes do passado, escritora que toma para si as vozes destas outras tornadas presentes. A casa se enche de mulheres, lembradas e imaginadas. Fortalecida através dessas presenças é que ela se mitifica, ressuscita por um momento as suicidas e as suicidadas, Safo, Virginia Woolf, Ana Cristina César, encarna todas as mulheres do mundo, se torna todas as mulheres da história no tempo curto de uma estrofe. É o oposto da melancolia cotidiana, um lapso que se sabe temporário (mas não por isso menos potente) e é por isso também irônico:

“em seguida, com a toalha enrolada no cabelo

como um animal inaudito

uma espécie mítica meio mulher, meio rinoceronte, a toalha

enrolada como um corno imenso no centro da cabeça”

Poderia ser um unicórnio, mas é um rinoceronte. Essa mitificação de si através da palavra repete aquela dupla frequência da ironia indecidível, é empoderamento e lamento, ao mesmo tempo. Nisso se revela talvez uma afinidade mais profunda entre a poesia e o feminino, a fala cifrada, que faz a curva para alcançar o inalcançável e quem sabe, talvez só assim, ainda o alcance. E por que a fala cifrada? Porque o que é realmente importante não se pode dizer, por causa das leis dos homens e das leis da linguagem. No meio dizer, na fala do meio, “à pouca voz” e urrada, meio-rinoceronte, algo de uma verdade muito mais híbrida do que qualquer vocabulário conceitual ou repartição estatal pode dar conta. Evidentemente, não é preciso ser mulher para acessar esse lado clandestino da poesia, mas Becker, sobretudo através deste efeito indecidível em certos poemas, o faz com maestria. Esconde com aparente displicência enigmas no seio dos poemas que, se levados à sério, levariam à implosão das relações sociais e da linguagem. O poema segue:

“ela anda. abre a porta de acesso aos fundos. pega um prendedor

da cestinha – e, de pés descalços, ainda morna e predatória

pendura a calcinha no varal”

O leitor está diante de uma dona de casa pendurando roupas no varal ou de uma besta fera predadora? Sim.

*

amar o homem que tu és

amar o homem que tu és apesar do homem

amar sabendo que um homem pode se dar ao luxo de se perder no amor — mas não uma mulher

nunca uma mulher

amar-te, meu amor

mas sem esquecer que a mulher de nós dois sou eu

eu não posso me esquecer de mim nas tantas mulheres que fui

não posso esquecer eva

não posso esquecer agar atravessando o deserto com ismael no colo

tantas mães atravessam a cidade de são paulo com seus filhos

no colo, às seis e pouco da manhã

os tempos mudam, as mulheres permanecem as mesmas

não há mãe que não tenha acordado alguma noite só para se certificar de que o ar também entra nos pulmões mais frágeis da casa

não há mãe que não tenha passado alguma vez pelo terror de imaginar que talvez o peito não dê leite

que não seja capaz de chorar um rio no meio do saara

e que chorando não sonhe com um modo de decantar o sal da água

para dá-la de beber a uma boca com sede

meu amor, somos tão sozinhas

não posso te amar sem ressalvas

sem lembrar o tempo todo que no fundo só temos umas às outras

ninguém a mais

ni una a menos

não esquecerei joana, queimada em praça pública

a beata lindalva

a virgem maria teresa goretti

não devo esquecer quantos litros de sangue uma mulher deve perder

para que cesse o pulso

e assim sem pulso possa finalmente ser considerada santa pela nossa santa igreja

tu falas sobre como as aves da região são exuberantes

eu penso que também gosto de observá-las

há noites em que fico mais de hora sentada à soleira da porta

nos fundos de casa

olho o copado da jabuticabeira

a roupa no varal

muitas de nós ainda passam noites em claro pelas mulheres de salém

sou uma delas

sei que é preciso cuidar para que os urubus não comam corpos inteiros da nossa memória

se vierem graúnas, em bandos

e arrancarem a bicadas os fios de cabelo

para fazerem ninhos

se vierem beija-flores e furarem os olhos, para beberem do rio

se quiserem levar também os cílios, os pelos do sexo, até lascas de unha – que levem

mas é preciso cuidar para que pelo menos uma parte do corpo de toda mulher morta reste intacta

o coração

o projeto de libélula que ardeu em algum dos seus gestos

o nome

o silêncio

a mim não cabe amar inadvertidamente

não posso esquecer as últimas horas de eloá

o carro em que marielle estava na noite do dia 14 de março de 2018

uma mulher a cada duas horas no brasil

seis mulheres a cada hora no mundo

não esquecerei micheliny, filha da filha da índia que foi pega no laço, como um animal

não esquecerei nina, que não esquecerá bruna

ambas se erguendo juntas da mesma noite

não esquecerei bárbara, o olho roxo, a costela trincada

não esquecerei minha irmã

minha mãe

minha avó, morta com um tiro no peito

tu dizes que me amas, eu digo que te amo mais

eu te amo mais, meu amor

porque tu podes me amar com amor apenas

mas eu tive que aprender a te amar com ódio

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Tomaz Amorim Izabel

Graduado e mestre em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman.

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