Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

07 de abril de 2020, 22h49

O fim deste mundo

Leia na coluna de Tomaz Amorim: “O coronavírus apresenta uma interrupção no funcionamento da sociedade. E nos leva a imaginar outro mundo em que as ações temporárias que beneficiam a maioria da população e o meio ambiente sejam permanentes”.

Foto: Reprodução

A pandemia do novo coronavírus desmascara nosso absurdo cotidiano. Essa nova tragédia nos lembra que tragédia é que as coisas voltem a ser como eram. Teóricos contemporâneos discutem o novo estado de exceção em que parecemos entrar. A vida não vai voltar a ser como era antes. Mas há quase cem anos Walter Benjamin avisava que este estado de exceção é permanente e que a tarefa seria instaurar um verdadeiro estado de exceção.

Pois o coronavírus abre essa possibilidade. O filósofo Byung-Chul Han tem razão ao contrapor o argumento otimista de Slavoj Zizek: vírus não faz revolução. Mas também é verdade que a revolução não escolhe sua conjuntura.

A pandemia global instaura uma interrupção temporária que pode ou não se transformar em uma interrupção efetiva da ordem anterior. Conhecemos bem as interrupções falsas, as revoluções por minuto que pipocam a cada mês. Não é disso que se trata nesse momento. Há uma janela de oportunidade, um kairós, como chamavam os gregos antigos, um momento em que se abre uma possibilidade e em que se toma uma ação. Uma das etimologias possíveis da palavra kairós retoma a atividade da costura: há um espaço temporário por onde podemos passar a agulha. Conseguiremos?

Outro termo grego ajuda a pensar o momento, o katechon.  Trata-se de um termo utilizado pelo apóstolo Paulo na segunda carta aos Tessalonicenses e que se refere literalmente àquilo “que trava”, “que bloqueia” a chegada do Anticristo. O problema é que, segundo a doutrina, a chegada do Anticristo é fundamental para o retorno daquele que irá derrotá-lo: o Messias, e com ele, o Juízo Final. Com o passar dos séculos, essa formulação foi sendo transferida para o campo do jurídico e do político. O direito, por exemplo, como aquilo que bloqueia o caos social, o totalitarismo, a violência indiscriminada. Por outro lado, aquilo que também impede a superação de tudo isso, a superação do estado burocrático e a instituição de um modelo social mais próximo da emancipação.

Pois parece que estamos diante de um momento assim. Independente do nosso desejo (e ninguém no mundo pode ter desejado uma epidemia global), o katechon foi temporariamente liberado com a crise do coronavírus e a subsequente crise econômica. Se como já se disse, era mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, parece que nos foi oferecido uma amostra grátis de fim do mundo. Ou melhor, de um fim deste mundo. A tarefa parece ser acabar com o capitalismo antes que o mundo acabe. Ou para que o mundo não acabe.

Afinal, o que o vírus revela, senão um mundo prestes a acabar? As medidas extraordinárias para conter o vírus escancaram nossas tragédias ordinárias. Foi preciso uma epidemia global, que exige medidas estritas de higiene coletiva e saneamento básico, em todos os níveis, para perceber que nossos presídios não têm o mínimo de higiene? Os estados e as instituições se organizam para distribuir comida para pessoas que, na normalidade, têm dificuldade em comer todos os dias. A renda básica que foi aprovada com o valor mínimo que se precisa para viver com dignidade (ainda muito abaixo do valor previsto pelo Dieese), pagará para muitos uma remuneração maior do que o último salário. Ou seja, as ações paliativas vão ironicamente esbarrando em problemas anteriores.

Enfim, o vírus, uma ameaça coletiva à vida, comete o crime diante do sistema de mostrar todas as outras ameaças fatais: a falta de emprego, o salário baixo, o preço dos alimentos, o preço dos remédios, o preço do transporte. O vírus prospera tanto em sua missão de matar porque nosso sistema, em seu funcionamento normal, já produz constantemente a morte.

É por isso que a paralisação das atividades faz com que muitos, consciente ou inconscientemente, percebam isso. No meio da angústia, os trabalhadores que puderam parar talvez sintam um prazer secreto em fazê-lo. Sem ter que pensar na comida do próximo mês como a maioria da população (talvez apenas a partir do segundo ou do terceiro mês em diante), eles se veem interromper a uma dança louca de destruição.

Esse estranho contentamento representa uma ameaça grave para patrões e governantes. Há um risco de que a normalidade – da exploração brutal – não retorne. Se a crise provou que é possível para o Estado e os mais ricos oferecerem para a população meios mínimos de viver com dignidade, sem que o fim do mundo aconteça (e a dignidade aqui é fundamental, “a gente não quer só comida”), por que, com o retorno da normalidade, em uma situação econômica melhor, não mantê-los?

Se foi possível oferecer renda para os pobres, casa para os moradores de rua, comida para os que tinham fome, e isso tão rápido, em menos de um mês de mobilização, não seria possível, e facilmente, com um pouco mais de planejamento, abolir definitivamente esses problemas que nos humilham tanto como sociedade?

Como se vê, o vírus coloca urgentemente a questão das classes sociais. Especialmente no Brasil. É possível cobrar mais ou menos os governantes europeus pela resposta à crise. Mas aqui, onde fomos avisados antes do espetáculo mórbido dos cadáveres transportados em carros do exército, a tragédia é diferente. 

Uma coisa é não ter mais leitos de UTI e respiradores na Espanha e na Itália, onde os médicos têm de tomar a duríssima decisão de priorizar os pacientes jovens em detrimento dos velhos.

Outra, completamente diferente, são empresários e governos brasileiros que, por medo de afetar a economia (que, aliás, já se encontrava em plena decadência, bem antes da pandemia), se negam a tomar medidas que previnam de chegar à mesma situação. Em um caso, a morte se encontra presente e alcança os mais velhos, no outro, ela é convidada a chegar no futuro próximo, quase invocada em um ritual sacrificial que tem como vítimas os velhos, aqueles que têm a saúde debilitada, os pobres. 

O Estado, sem dúvida, é uma das instituições mais iluminadas pelo incêndio global do corona. Se nas últimas três décadas ele foi tratado como elefante branco, como cadáver em putrefação pública, como mobília velha do nacionalismo ultrapassado, na crise ele se torna a única instituição capaz de dar respostas em larga escala. É o Estado que ampara a vida interrompida, é o Estado que nacionaliza hospitais, é o Estado que obriga fábricas de carro a produzir respiradores, é o Estado que socorre as empresas ricas e a população pobre. Tudo isso enquanto a iniciativa privada chora desesperada em cima de uma corda bamba que tem, de um lado, o desejo escravocrata de forçar os trabalhadores a sair e morrer. Por outro, o sentimento de desespero em falir e, consequentemente, se transformar num desses trabalhadores. A demora e a inefetividade de ação da União Europeia, por exemplo, também mostra que as fronteiras soberanas e o nacionalismo ainda agem como forças sociais mais organizantes do que a identidade supranacional. Se a União Europeia fecha suas fronteiras para o mundo, dentro dela os estados fecham as fronteiras entre si. Ou seja, muita da teoria política e econômica da última metade do século 20 precisará ser revista.

Por outro lado, longe de vermos a ascensão de um Estado forte, vemos a ação de um gigante aleijado por décadas de destruição neoliberal. As ações ocorrem, mas com lentidão, sem recursos, sem planejamento.

Surgem questões estranhas: se com a globalização as pandemias são frequentes, como é possível que os governos do mundo não tomem medidas preventivas básicas como ter, já prontas em estoque, uma quantidade razoável de máscaras armazenadas? Para usar uma metáfora esdrúxula, é o que qualquer setor de RH de uma empresa teria feito, caso houvesse resfriados recorrentes entre os funcionários. É fato que estados mais centralizadores, como a China, ou que têm mais controles sobre dados pessoais da população, como a Coreia do Sul e o Japão, tiveram respostas mais eficientes. De qualquer forma, sem que a iniciativa privada tenha conseguido propor qualquer solução coletiva, a pandemia global recoloca a questão do estado. Pelo menos do ponto de vista nacional.

Quando pensamos em âmbito local, no entanto, a situação muda de cena e somos rapidamente lembrados –  sobretudo no terceiro mundo, onde o Estado de bem-estar social nunca se implementou completamente – que existem enormes lacunas do Estado que são, por bem ou por mal, suprimidas pela organização local. De movimentos sociais e associações de moradores, até o crime organizado e as milícias. É no chão local que decisões, solidárias ou predatórias, são tomadas diante da crise. Em outras palavras, o show e as coletivas de imprensa acontecem nos palácios de governo, em Brasília, mas a distribuição de cestas básicas e os toques de recolher são nas comunidades. E pelo que se vê, isso não é novidade. São grupos que já agiam e que continuam agindo, fazendo vaquinhas e distribuindo cestas básicas para trabalhadores autônomos que ficaram sem renda. Continuam agindo onde o estado não está, quer dizer, onde o estado só atua como polícia.

O que vemos é que, como em toda interrupção, a crise do corona abre possibilidades. A liberação do katechon abre um kairós, para voltar aos gregos. As forças estabelecidas se esforçarão, rapidamente, para fazer retroceder a situação para o momento anterior, ou utilizarão o cenário de crise para instaurar medidas que avancem ainda mais seu programa.

Por outro lado, qualquer pessoa que em dezembro do ano passado dissesse que governos do Brasil e dos EUA discutiriam um pacote de renda mínima e taxação de grandes fortunas seria tratada com merecido escárnio. Claro, a euforia se esquece de lembrar também dos pacotes bilionários que esses mesmos países oferecerão para salvar bancos e empresas já bilionárias.

Ainda assim, a crise revela as condições precárias e ressalta as injustiças encobertas na apatia do cotidiano. Não é que o trabalhador não saiba e não sinta isso no dia a dia – apesar dos malabarismos ideológicos do empreendedorismo -, mas a crise, como um cão que sacode o corpo cheio de pulgas, suspende por um momento a comodidade dos dominadores e a apatia dos dominados.

Saberemos aproveitar esta oportunidade? A interrupção se tornará uma interrupção efetiva, abrindo espaço para outras formas de relação que não passem pela dominação da maioria por uma minoria? As medidas progressistas serão mantidas, como a de oferecer R$ 1.200 para mães desempregadas chefes de famílias, o que parece agora tão humanamente óbvio? Ou retornaremos ao passado recente, quando a destruição da aposentadoria, do bolsa família e dos direitos trabalhistas estavam na ordem do dia? E de um ponto de vista global, agora que temos as guerras suspensas, vemos gestos de solidariedade internacional entre os povos, o que nos impede de transformar essas ações, em algo permanente?

O coronavírus, se não puxa o freio de mão da locomotiva da história, como diz Walter Benjamin, sem dúvida acende seu alarme de emergência. O filósofo judeu alemão, levado ao suicídio na ascensão do fascismo na Europa, também deixou um alerta: o capitalismo não morrerá de morte natural. Nem tampouco de gripe. Mas ela pode ajudar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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