O “Fliperama” cyberpunk de Fabiano Calixto

Tomaz Amorim analisa o livro de poemas “Fliperama” de Fabiano Calixto lançado em Março deste ano. Trata-se de leitura fundamental para quem quer sobreviver ao Brasil de 2020 encontrando ainda beleza nas coisas, sem abrir mão de suas conturbações estéticas e políticas

Lançado em março do ano da peste de 2020, “Fliperama” (Editora Corsário-Satã) é oitavo e mais recente livro de Fabiano Calixto (1983, Garanhuns/PE), poeta, editor e professor radicado em São Paulo. O livro traz uma década de sua poesia que, com justiça, é colocada como uma das mais importantes da cena poética brasileira contemporânea. Suas dezenas de poemas de estilo único, mas diversificado, além de representarem o desenvolvimento estilístico do poeta, trazem as marcas das conturbações estéticas e políticas do país. Sua posição estritamente alinhada às famílias de classe trabalhadora (encarnação das mais legítimas de seu imaginário, de suas memórias e de sua poesia) e adversária declarada do fascismo faz deste livro leitura fundamental para quem quer sobreviver ao Brasil de 2020 encontrando ainda beleza nas coisas. Depois da crítica abaixo, reproduzimos três poemas do livro.

O poema de abertura resume o gesto maior do livro. O uso do tempo subjuntivo no verso que dá título ao poema aponta para uma possibilidade: “eu queria fazer um poema”. Algumas estrofes depois, no meio deste poema que por um momento deixa de ser hipótese e se encarna, há uma interrupção, um tilt: “mas ao rés do chão / tudo são cinzas”. O poema não se desfaz, pelo contrário, continua, mas o que ele busca, a beleza, desaparece rápido. Neste livro, a beleza aparece nesta configuração precária, nesse instantâneo do (im)possível, a ser confrontada de novo e de novo com esse rés do chão (de fábrica) de onde falam os “poetas de subúrbio”.

O perigo é vislumbrado a todo momento, como uma catástrofe que se aproxima e que essa poesia tenta reiteradamente avisar, sem que ninguém ouça. (Esse elemento de Cassandra talvez esteja em toda poesia, e não só nessa, mas, de qualquer forma, de maneira específica aqui). Perigo econômico, ambiental, nuclear, perigo de uma vida só feia. Contra os fascistas de todo tempo, de nosso tempo, essa poesia falando de fascistas e de tudo o mais que existe (e que, portanto, resiste, segunda essa ontologia de luta), ou seja, das coisas bonitas. Esse lusco-fusco da beleza, não é escapismo, essa beleza não é apresentada como algo de simplesmente distante, inalcançável e, portanto, inofensivo. Tampouco é um prêmio de consolação: “perdemos, mas ainda temos as flores”. Trata-se de uma luta pela beleza com a seriedade de quem luta pela terra. Como quem sabe o que está em jogo, e denuncia e ocupa e bloqueia o acesso aos usurpadores. Nesse sentido, tem uma clareza política muito maior do que a nossa nesse momento, em que mal sabemos quem são os aliados, os adversários e pelo que lutamos.

Quem pôde jogar ainda os primeiros clássicos de plataforma no fliperama entende bem a posição desse eu-lírico. Tudo é colorido, tudo é perigoso. A fonte berrando em vermelho e amarelo, o tempo acabando, o personagem é um halterofilista, mas se contorce ao menor toque do inimigo ou das intempéries do cenário, são músculos hipersensíveis, são nervos expostos. Há projéteis vindo de várias direções, a tela avança sozinha como uma tempestade, o personagem não pode ficar para trás da história, ele corre e se protege. Três vidas sem continue, ou uma nova ficha. Do lado de fora do fliperama, outros tipos jogos e perigos, garagens mal iluminadas, o cinzeiro soldado na máquina, pessoas juvenis e velhas, crianças adultas demais, o medo constante de batida da polícia, as mães procurando seus filhos enfurecidas, o inspetor da escola, o dono do boteco, a companhia elétrica ameaçando escurecer tudo por causa da conta de luz atrasada. (O fliperama, como a poesia, não dá dinheiro, existe como que pela própria vontade). Está tudo em suspenso, a respiração é de suspensão em suspensão.

A simultaneidade e as interrupções constantes da cidade dentro e fora do fliperama se marcam nos jogos rítmicos dos versos. Há uma profusão organizada que é hipermóvel e que mantém a coesão como que por um magnetismo na repetição dos sons. Assonâncias e aliterações são frequentes, mas não gratuitas, se justificam e se fortalecem pelo bom ritmo. (Os tercetos bem marcados são alguns de seus momentos mais bonitos de musicalidade, quando a beleza se permite aparecer como se não houvesse perigo). Há também uma profusão de imagens, elas se sobrepõem e quase se sobrecarregam, não fosse a condução sonora atenta que ajuda a distinguir tudo como se fosse em som estéreo. O que redundaria não é repetição porque opera em um outro nível, o sonoro. A esta segundo nível, se junta ainda um terceiro. Se imagem e som correm em paralelo, preenchendo as lacunas umas das outras, em muitos poemas a espacialidade também entra em jogo e o poema fica em três dimensões. O que se acumularia pelo peso das palavras, se expande, primeiro em som, depois em espaço. As imagens flutuam em sound surround.

Apesar da distância no tempo (a infância, a União Soviética, a distopia) e no espaço (o Oriente, o espaço sideral) de onde as imagens e as referências são invocadas, há uma escolha lexical quase coloquial do eu-lírico. Ele fala seus poemas como se nos encontrasse por acaso na rua, um amigo antigo, e colocasse o papo em dia. Traz para essa conversas essas imagens e nomes da distância. O solo de guitarra do Jimmy Hendrix, a narração do gol do Dr. Sócrates, tudo tocado no radinho de pilha, trilha sonora de boteco que se ouve da calçada de alguma periferia de São Paulo. São Paulo de Oswald de Andrade, Roberto Piva, Augusto de Campos e João Antonio – São Paulo de Mano Brown.

Em um mesmo poema, por exemplo, a espacialidade concretista, a referência à iconografia egípcia, o nome de uma mutante dos X-Men. O pop é eruditizado ou o erudito vai para rua, Rilke e o vocalista do Judas Priest frequentam os mesmos tempos e espaços e corpos. Essas separações não fazem mais sentido desde que um menino chamado Ulisses pegou nas mãos o controle do Odyssey, primeiro videogame comercial do mundo (futuro atestado de óbito dos fliperamas). São multidões de personalidades malditas, uma capa em movimento do Abbey Road. Calixto é um poeta que respira a cena literária (quem seguir as dedicatórias dos poemas entenderá já bastante dos players atuais), sem fechar com as editoras “mi-li-o-ná-ri-as”. A enumeração católica, a enumeração profana dos seus santos, como nas linhagens de Roberto Piva, dos ascendentes romanos até o presente desolado dele mesmo. (E a bela sequência de e-mails para os que vieram antes). A poesia utiliza os nomes dos poetas e seus versos como material, não é apenas auto-referencial, mas se utiliza do que já existe na tradição para tentar acessar o mundo. “A rua encontra seus próprios usos para as coisas”, como disse Gibson, e isso vale para esses versos.

O desenvolvimento do livro, sua teleologia apocalíptica também espelha os video-games. Começo idílico, conflitos, aumento da dificuldade das fases, parece que seguimos por estes dez últimos anos com Calixto, enfrentando cada pequeno chefão da história pessoal e da história mais ampla do mundo, jogamos juntos, o leitor como jogador n. 2, e terminamos já depois do ano 3000 num cyberpunk de atmosfera incendiada. Terminamos o livro, zeramos o jogo, resguardamos, ainda que temporariamente, a beleza. Fica a sensação então de que o “Fliperama” de Fabiano Calixto nos concede mais uma ficha, mais um “continue”.

            *

EU QUERIA FAZER UM POEMA

eu queria fazer um poema

à maneira clássica chinesa

montar num grou amarelo

& passear bêbado

pela terra dos imortais

(me imaginando Li Bai

breaco

morrendo

na tentativa

desesperada

de agarrar o reflexo da lua

numa imensa lagoa)

eu queria

encher a cara contigo outra vez

(aliás, o que mais

eu poderia querer?)

queria te levar para um passeio

intergaláctico

num dragão vermelho

que tem um dragão azul

tatuado na cauda

mas ao rés do chão

tudo são cinzas

como no amor

& depois da chuva

o asfalto torna-se um espelho

de lágrimas

dos solitários da cidade

(um poeta chinês da dinastia Tang

diria que

depois da chuva

o pessegueiro é ainda mais vermelho,

como o coração recém-arrancado

do inimigo)

tudo está longe agora

muito longe

enquanto alimento o grou amarelo

com amoras muito vermelhas

penso que teu sorriso

resume o sol de três primaveras

            *

IRACEMA

penso em Dona Iracema e a valentia

camiseta dos Ramones e copo de requeijão

cheio de cerveja enchendo a casa vazia

penso no macarrão com camarão

(trava-língua saboroso ao meio-dia)

e na história da revolução do açafrão

penso nos dias imensos de poesia

– você remedia este mundo insano

cantando sorria, meu bem, sorria

ou, antes de tudo entrar pelo cano,

me aconselhando atenção na rua

pois o mundo é o lugar do engano

penso na mulher que, doçura tal a sua,

indo e vindo à margem da margem,

peregrina braba da vida árdua,

o coração como uma carruagem

onde todos cabem – sua bondade

contradança com sua coragem

morrer é mais importante que ler

e dura muito menos – diz um poema

que nos cura a cuca ao entardecer

já você diria, mudando o esquema:

viver é mais importante que ler,

dura muito mais e vale a pena

o poema, assovio fugaz, Dona Iracema,

brisa impressa no papel que move,

ávida, a vida que você acena

*

LEONARD COHEN JOGANDO FLIPERAMA NUM BOTECO DA COHAB

parece até que encontrou a velha tia Alice

falando com fantasmas

que acabaram de abandonar um brechó

(pareciam as luzes indecisas de

uma estação qualquer de trem)

vermelhos e bombas implícitas

pelas contorções faciais

parece até descrever o monstro

o verão bocejou

algo ininteligível

de sua boca saíram flores

cobriram todo o gramado

há uma vilinha logo ali

decoram-na para o feriado

há também uma pequena igreja

e uma escola

e uns cachorros fornicando

bandeiras limpas

como roupas recém-saídas

da lavanderia

o verão glissiglissava

safadamente

a bagaça é feita de

mil esferas multicoloridas

translúcidas

os mil blocos em rede

as saídas e vielas

luzes estouradas no estilingue

charla na xerenga

cacholetada no alvo

de repente:

as mil bolas extras da estação

poço de gravidade

cogumelos elétricos

pontes suicidas

canhões mutiladores

foi naquele seu verso

sob aquela manta melódica

que, perdendo por milhares de pontos,

o século deu tilt

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Tomaz Amorim Izabel

Graduado e mestre em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman.

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