Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

08 de janeiro de 2020, 23h35

“O sucesso recente do cinema nacional não é compartilhado por todos”. Entrevista com o ator André Luis Patrício

Em sua coluna na Fórum, Tomaz Amorim entrevista o ator André Patrício; na pauta o cinema brasileiro, o teatro e o racismo nessas áreas

Foto: Alexandre Gomes

Tomaz Amorim: André Luis Patrício, você é um ator, com anos de participação em teatro, séries e filmes brasileiros. Fez parte da Companhia do Gerald Thomas, dos “Crespos”, fez longas como “Salve Geral”, “Tudo que aprendemos juntos”. Fez também participações em séries como “Efemérides” da TV Cultura, “Sintonia” do Netflix e “Segunda Chamada” do Globo Play. Mais recentemente, você participa do filme “Morto Não Fala”, de Dennison Ramalho, lançado em 2018. O que o filme traz para o Brasil deste momento? Como foi o processo de gravação para você?7

André Patrício: O terror da cinematografia do Dennison Ramalho traz o drama social de uma maneira interessante para o gênero terror. Um gênero que não é só constituído pelos fenômenos sobrenaturais. Ele apresenta aos brasileiros que gostam desse tipo de cinema as arbitrariedades do estado brasileiro nas periferias, sobretudo sobre os corpos negros.

Como você vê esse boom do cinema nacional, com filmes grandes e médios sendo premiado em festivais de renome, com sucesso de público e destaque nas mídias. É algo que veio para ficar? Esse sucesso é compartilhado por todos?

O cinema brasileiro sempre foi muito respeitado no exterior, espero que esse boom não seja só uma reação do mercado interno e externo aos poderes constituídos nesse momento no Brasil. O sucesso de público não é tão real assim, Bacurau vem com aval externo. Outros filmes contemporâneos de Bacurau fracassaram na bilheteria. O Brasil ainda sofre muito com os males da barbárie colonial, isso também se reflete culturalmente, mesmo entre um público dito intelectual, atualizado, branco e de esquerda. Quem de nós se fantasia de saci?

Sobre o sucesso, não, ele não é compartilhado por todos. Quem ganha dinheiro e notoriedade com o cinema brasileiro são, em grande parte, nossa elite, branca, masculina, mesmo quando retrata o drama social. Gente da minha classe e da minha cor, ou mulheres brancas pobres, homens brancos pobres, nós estamos subalternizados no cinema brasileiro. Tanto é que nós, atores oriundos das classes subalternas, não ganhamos direto de imagem real, porcentagem de bilheteria e os cachês oferecidos parecem esmola.

Da última vez que nos vimos, você fez uma brincadeira espirituosa dizendo que queria voltar a interpretar ladrões. A ironia vem do fato de, aqui e no exterior, papéis estereotipados (ladrões, agressores, etc) são normalmente relegados a atores e atrizes negros. Isso mudou nos últimos tempos? O que você tem a dizer sobre isso?

No “Carcereiros”, o filme, colocaram um BBB. Aquele sujeito não sofre as privações que o negro africano ou brasileiro sofre, de mobilidade social, etc. Aquele sujeito está dentro do conceito de belo na sociedade brasileira, tem a cútis clara. Este filme prova o tanto que a antropologia criminal ainda interfere na sociedade brasileira e nas produções de casting do audiovisual no país, que se comportam como sala de reconhecimento de criminosos nas delegacias de polícia. Estou falando do protagonismo da personagem, sempre que essas personagens têm protagonismo nas tramas e nos roteiros, elas ficam de cútis clara. E os atores que as fazem sempre ganham os melhores salários. Ou são atores famosos ou são atores de cútis claras, alguma celebridade, etc.

Quais caminhos você vê para o jovem ator ou atriz negro e/ou periférico? Há espaços? Escolas? Coletivos?

Quem sou eu para falar de caminhos, eles estão criando os próprios caminhos. Eles criam seus coletivos, eles estão criando suas escolas, estão aí empoderados, empreendendo. O audiovisual hoje tem a mesma importância que o futebol teve no início do século vinte para as populações marginalizadas, especialmente os negros. O negócio é estudar, estudar, estudar, e eles estudam. O salve que eu mando para os atores negros é tomarem cuidado com a própria imagem. Tem um perfil de negro na publicidade, no cinema e mesmo em alguns filmes de negros diretores que é aquele perfil que a branquitude gosta. A escravidão é nossa característica nacional. Mesmo nós negros em posições de comando, de poder, estamos reproduzindo as velhas atitudes da sociedade escravocrata. O padrão de negro claro, com nariz afinado e cabelo black super estiloso. Outro dia me disseram, eu quero um policial com um ator negro bonitão, um negro que pareça um negro norte-americano. Há um fenótipo de negro brasileiro padrão e tenho percebido que mesmo diretores negros no teatro e no cinema estão inconscientemente se pautado pelos padrões estéticos postos pela branquitude. A gente precisa atentar para a construção dessa identidade nacional negra que é filtrada a partir do que a branquitude diz que é bonito.

Como você chegou à atuação? Quem foram e ainda são suas influências?

A arte está engendrada na pessoa que eu sou desde a infância. A minha mãe, a minha vó e as minhas tias, Marisa e Marinalva, trabalhavam para Maria Célia Coutinho que era uma pessoa conhecida em Presidente Prudente que era amiga de Timochenko Wehbi, um dramaturgo bem montado na América Latina. Aqui no Brasil a última montagem foi há dois anos dirigida pelo Alexandre Borges e com Fioravanti Almeida e Dedé Santana, a peça se chama “Palhaços”. Ainda vivo, ali entre o final da década de setenta, Timochenko estava sempre por na casa dela e eu tenho uma imagem de eu sempre em cima das árvores brincando e no fundo do quintal os adultos em roda, com papéis na mão e hoje eu sei que eram os textos que eles estavam lendo para montagem de peça. E com a minha mãe estavam lá o Paulo de Jesus, o Adalberto Garcia e o Alan Belon, que são figuras importantes na história do teatro em Presidente Prudente, no final dos setenta. A primeira vez uma peça foi com oito anos de idade então a influência vem da minha mãe, assim como a influência da leitura vem da minha mãe. Ela ia trabalhar porque a Maria Célia tinha um restaurante e deixava uma cartinha com um bilhete com as tarefas que eu tinha que fazer e as questões da escola e cem cruzeiros. Então essa relação tanto com a leitura, como com a música e com teatro vem da minha mãe, Maria Silvino Patrício. Depois fui fazer dublagem em Presidente Prudente, depois teatro amador, sem nenhum tipo de apoio na cidade.

Você também está na série “Segunda Chamada” da Rede Globo, sobre alunos do EJA em uma escola pública. Qual seu personagem e como é sua pesquisa para representar personagens periféricos?

Eu ia fazer o Maicon Douglas, fiz o teste na Globo e depois fiquei quase um mês à serviço da O2 e da Globo, pagando meu transporte, ida e volta. Aí me tiraram do Glauco e colocaram o Felipe Simas e me colocaram para fazer o Gero. Aí comecei a pesquisa sobre coletivos de cadeia porque o Gero é uma liderança comunitária. Mas como o roteiro era coletivo e eu fiz algumas pontuações sobre equívocos, eles me demitiram. Mas me chamaram depois para fazer o motoboy que é machista, aquele tipo de cara que cresceu vendo o pai batendo na mãe e que hoje faz o mesmo com a namorada. Tem um dado inconsciente na psique do cara, tem uma cultura machista, tem o legado do patriarcado. Então, para fazer esse Glauco, eu fui buscar o entendimento do assassino da minha mãe, nosso vizinho na época, o Inedino, da trajetória pessoal desse cara, para me ajudar na construção do Glauco. Foi emocionante, foi um embarque em uma temporada no inferno. Ele aparece no episódio oito do “Segunda Chamada”.


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