Colunistas

17 de julho de 2018, 19h31

Tributo ao palavrão

Charles Carmo escreve: “É necessário xingar para manter a alma sadia, livre de mágoas. Mas não basta dizê-los. É imperativo que se pronuncie a imoralidade de peito aberto”

Foto: Divulgação

Volta e meia ouvimos a afirmação de que o uso de palavrões denota pouca familiaridade com a língua, deficiência moral e de instrução. Seria o palavrão, segundo seus críticos, a degradação falada, a deterioração linguística, a ruína do vernáculo e das famílias.

Ledo engano. No palavrão está a síntese perfeita, a expressão intraduzível. Ponha de lado as réguas morais e verás a poesia original que há nele. Um soneto se cria com certo esforço, uma crônica com qualquer tema se faz. Entretanto, para gerar um palavrão é preciso décadas, séculos de interações sociais a ferver o caldo de cultura. Acrescente à receita senso de escrotidão e fartas poções de genialidade, pronto; temos o insulto lapidado, o impropério rotundo.

Há quem lhe faça justiça.

Em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, palavrão é coisa séria. Durante as festividades em homenagem ao padroeiro da cidade, após a lavagem das escadarias da Igreja Matriz de São Bartolomeu, os participantes honram uma tradição secular e entregam-se desabridamente aos palavrões.

O espetáculo é encantador. Senhoras sexagenárias, moços, todos irmanados xingando com uma ternura que só vendo. Naquele momento, a juventude une-se à maturidade, tendo o palavrão de argamassa e São Bartolomeu como testemunha.

É lindo.

Os que advogam contra essas expressões necessitam vivenciar a experiência. Quem sabe assim compreendam o que já deveria ter-lhe saltado aos olhos. O turpilóquio é um avanço civilizatório.

Não, longe de mim defender que se distribua palavrões aos milhares, como se fossem Medidas Provisórias. Não devemos vulgarizar esse instrumento da vontade humana, sob pena de enfraquecê-lo. Tampouco recomendo doses homeopáticas. Que se diga conforme a necessidade de cada um, mas nunca em vão, exceto nos jogos de futebol. E jamais sem paixão.

A saúde coletiva não é brincadeira.

Os enfartos se multiplicariam e as doenças nervosas se reproduziriam como coelhos, com graves consequências para o sistema público de saúde. Há quem confie nas propriedades tranquilizantes do maracujá e da camomila. Deveriam experimentar, ao menos uma vez na vida, declamar toda sorte de impropérios. Assim, fazendo uso do método empírico, sentiriam os efeitos terapêuticos.

Ao chefe, ao colega falso, o vizinho chato, o namorado ciumento, à esposa, ao marido, ao desconhecido que furou a fila; ao governo.

É preciso dizer palavrões para não morrer.

É necessário xingar para manter a alma sadia, livre de mágoas. Mas não basta dizê-los. É imperativo que se pronuncie a imoralidade de peito aberto. Um palavrão dito com voz mansa é incapaz de fazer surtir os efeitos desejados, e diminui o seu poder. Segundo a doutrina dos insultos, também pode ser dito espaçado, sílaba por sílaba, sempre audível.

Admite-se a tentativa de palavrão, mas a isso damos o nome de covardia. Não há meio termo. Falamos o palavrão ao mundo por meio de um intermediário que recebe a ofensa e a guarda para repassá-la adiante. Ao interceptar o palavrão que estava à boca, quebra-se a corrente. Rompe-se o pacto da sinceridade e um tanto de raiva escapole, contaminando a humanidade inteirinha.

Por isso xingue, antes que seja tarde.


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