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16 de julho de 2018, 14h45

Um palhaço é um palhaço: para que serve a eloquência parlamentar?

Essa questão levantada pelo erudito sergipano Tobias Barreto em 1879 é extremamente atual

Tobias Barreto (Reprodução)

A questão levantada por Tobias Barreto em 1879 é extremamente atual: “Há entre nós uma verdadeira eloquência parlamentar?”.1 O erudito sergipano não se colocava contrário à retórica, apenas à maneira como ela era praticada no parlamento do Império que, segundo ele, tratava-se de um discurso vazio, sem efeito prático. E assim descreve os afazeres políticos: “Eles falam a esbofar-se contra esta ou aquela medida governamental; mas quando acabam, o chefe da maioria, como quem quer aproveitar-se da impressão recebida, propõe logo a votação; e esta é sempre favorável ao governo; o que aliás não impede que o notável parlador seja cumprimentado e abraçado por seus colegas!… É o extremo do ridículo!”

É exatamente isso que vemos na política atual. Mas podemos complementar que o fato de a fala no parlamento ou na Câmara dos Deputados, como preferir, ser inócua esteja relacionado à prática de resumir política a alianças, acordos, pagamentos, cargos etc.. Veja o que aconteceu no Rio de Janeiro no caso Crivella. O prefeito demitiu César Benjamin, secretário de educação e desafeto de Paulo Messina, secretário da Casa Civil. Isso porque Messina é considerado peça relevante no processo de impeachment.2

O mesmo aconteceu com Temer para se defender das denúncias que pediam seu impeachment. Criou alianças, promoveu jantares suntuosos com dinheiro público até que, enfim, não foi condenado a nada. Pergunto eu, como o fez Barreto: “poder-se-á sustentar que temos realmente uma eloquência parlamentar?”

A situação fica ainda pior se compararmos nossa época à época do nosso erudito. Naquele momento, a eloquência possuía pelo menos ornamentos pomposos que, por sua vez, despertavam admiração aos que ouviam. Hoje nem mesmo isso temos. Para se ter uma ideia, Barreto reconhece a eloquência dos discurso de Joaquim Nabuco, mas o chama de palhaço por afundar o ouvinte em um palavrório inebriante sem, no fim, não propor nenhuma mudança estrutural: “Mas ainda arrisco-me a redarguir: que faz o moço Joaquim? Discurso e mais discurso? Isto é pouco. Importa saber que impressão produziu, que grande questões foram por ele postas a limpo, e que ideias saídas da sua boca entraram na circulação e constituíram-se outros tantos motores do espírito nacional… Sem isto, um orador é um orador, como um palhaço é um palhaço”.

Se Joaquim Nabuco, ícone do abolicionismo passivo, era um palhaço, do que podemos chamar os políticos de hoje? Sabe-se que a função do parlamento é a fala: “parlamento: parlament, parliament, parliamentum, tagarellice, parolagem”. Contudo, existem uns que preferem nem mesmo falar, como foi o caso de Carlos Bolsonaro que se ausentou da sessão de votação do impeachment. Não se pratica no parlamento nem mesmo a sua finalidade que é falar.

Enfim, a política vai se distanciando da moral nos nossos dias de forma impressionante. A ponto de as pessoas acreditarem que política é assim mesmo. Contudo, não podemos encarar a política como um terreno onde vale tudo, menos “fazer pacto com o diabo”, como afirmou Jair Bolsonaro. Política deve ser a administração da pluralidade de forma pacífica. E isso se faz por meio da eloquência, assim como ressalta La Harpe ao mostrar a importância de Turgot para a política: “Ele foi o primeiro entre nós a transformar os atos da autoridade soberana em obras de raciocínio e persuasão”.3

O chefe político não pode estar acima da moral, como estavam os reis absolutistas. Pelo contrário, a moralidade deve ser peça fundamental para iniciarmos a nossa crítica à política, como fizeram os grandes filósofos iluministas. É dessa imoralidade da política que falava Rousseau. Um Estado imoral gera uma sociedade imoral. O Estado corrompe o homem. O filósofo iluminista possuí até mesmo uma frase forte sobre a quem a pena deve se direcionar quando alguém pratica o mal: “não é o malfeitor que se deve enforcar, mas aquele que o forçou a vir a sê-lo”.

1 BARRETO, T. Vários Escritos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1900.

2 https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,base-de-crivella-contabiliza-apoio-para-barrar-impeachment,70002399361

3 KOSELLECK, R. Crítica e Crise. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. p. 128


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