Colunistas

22 de outubro de 2017, 17h38

Uma direita sem sangue nas veias

Em sua coluna na Folha da semana passada (Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar), o cientista político português João Pereira Coutinho apresenta um relato estarrecedor que demonstra como parte da direita brasileira – e, nesse caso, europeia – vê o papel histórico de Ernesto “Che” Guevara. Em sua coluna na Fórum, Juliano Medeiros explica o que motiva essa visão de ódio e escancara a falta de líderes da direita 

Por Juliano Medeiros*

Em sua coluna na Folha da semana passada (Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar), o cientista político português João Pereira Coutinho apresenta um relato estarrecedor que demonstra como parte da direita brasileira – e, nesse caso, europeia – vê o papel histórico de Ernesto “Che” Guevara, cinco décadas depois de seu assassinato. Além do ódio virulento com que descreve o guerrilheiro argentino-cubano (psicopata, assassino e criminoso são alguns dos epítetos dispensados pelo colunista ao líder revolucionário), ao menos duas outras características nos saltam aos olhos.

A primeira é a associação feita impunemente entre nazismo e comunismo. Para o autor, ambos seriam expressão de um fenômeno mais amplo: o famigerado “totalitarismo”. Não enfrentaremos nestas linhas as imprecisões teóricas do conceito popularizado por Hannah Arendt após os horrores do Holocausto. O que chama atenção, nesse caso, é ver adultos com bom nível de formação (o articulista da Folha se apresenta como Doutor em Ciência Política) e acesso a veículos da grande imprensa reproduzindo os delírios típicos de movimentos juvenis de extrema-direita. Qualquer historiador sério poderá demonstrar sem dificuldade que o nazismo professava uma ideologia abertamente anticomunista, sendo a perfeita expressão dos valores conservadores elevados à sua última potência.

Ao atribuir aos comunistas ideologia cuja base seria “(…) o culto do ódio; a excitação do cheiro a sangue; a necessidade de um revolucionário ser uma máquina de matar”, ou seja, ao igualar nazismo e comunismo, Coutinho advoga abertamente o fechamento dos partidos socialistas e comunistas, numa criminalização ideológica típica dos anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar brasileira. Algo inadmissível. Os partidos e movimentos que, no Brasil, reivindicam os valores do socialismo ou do comunismo o fazem de forma legal e pacífica, utilizando os canais democráticos para viabilizar seus valores de liberdade, igualdade e justiça social. O ódio que Coutinho expressa, portanto, só pode ser atribuído à radicalização das posições políticas dos últimos anos.

A segunda característica, não menos importante, é o notório desconforto que a importância histórica de um personagem como Che provoca à direita tupiniquim. Um médico que aos 31 anos liderou, fora de seu país, uma revolução vitoriosa há apenas 90 milhas da maior potência nuclear do planeta e que, podendo viver como herói em Cuba, optou por levar seu projeto de emancipação – violenta, sim, porque violentos eram os regimes que oprimiam a maioria dos países da América Latina – a outros povos, só pode gerar desconforto. Che morreu pobre nos rincões de um país miserável, lutando por seus ideais, assassinado por uma ditadura ilegítima e ilegal, sem direito a um julgamento justo ou direito a defesa. Para os que defendem a justiça e a igualdade, o exemplo de Che não poderia deixar de impressionar.

Mas entendo o ódio que Coutinho nutre por Che. Que referências ele teria? As ditaduras militares que controlaram o continente por décadas? As cleptocracias que vieram em seguida? Talvez os grandes líderes liberais, Reagan, Thatcher e Pinochet? Os modernos líderes socialdemocratas europeus que destruíram as conquistas do pós-guerra e fizeram explodir a desigualdade naquela que parecia ser a porção mais próspera do planeta? Entendo Coutinho: realmente a vida de liberais e conservadores não é fácil quando o assunto é encontrar ídolos.

*Juliano Medeiros é graduado e mestre em História pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorando em Ciência Política pela mesma instituição. Foi dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e hoje coordena a Liderança do Partido Socialismo e Liberdade na Câmara dos Deputados. Autor de Um Mundo a Ganhar e outros ensaios (Multifoco, 2013) e co-autor de Um partido necessário – 10 anos de PSOL (Fundação Lauro Campos, 2015) e Cinco Mil Dias – o Brasil na era do lulismo (Boitempo, 2017). Colabora com sites e revistas no Brasil e no exterior. Hoje ocupa a presidência da Fundação Lauro Campos, órgão de pesquisas, estudos e formação política do PSOL e compõe a Executiva Nacional do partido.


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