Colunistas

19 de abril de 2018, 11h18

Uma nova geração a reforçar o socialismo cubano

Em novo artigo, Yuri Martins Fontes analisa a eleição presidencial em Cuba e os desafios do novo comandante da Ilha

Cuba vive um momento histórico de sua Revolução. Um mês após as eleições parlamentares, em que 8 milhões de cubanos foram às urnas para eleger 605 deputados da República, a renovada Assembleia Nacional, órgão máximo legislativo do país, tem a tarefa de eleger o novo presidente da nação socialista (que virá a substituir o atual mandatário Raúl Castro), além de 31 Conselheiros de Estado – em um processo eleitoral transparente e muito menos indireto do que o pleito labiríntico estadunidense.

Mais do que uma nova eleição: trata-se de escolher o primeiro presidente da república cubana que não provém das fileiras insurgentes que conquistaram o poder em 1959, quando a guerrilha – liderada por Fidel Castro Ruz, Camilo Cienfuegos, Che Guevara e pelo próprio atual presidente (guerrilheiro normalmente tachado pela mídia empresarial como sendo apenas “o irmão mais novo de Fidel”) – derrubou Fulgencio Baptista, ditador sanguinário apoiado pelos Estados Unidos.

As reformas de Raúl Castro

Desde que sucedeu a Fidel, Raúl em seus 12 anos de poder de fato pôde deixar algumas marcas próprias que distinguiram seu governo.

Deu início a uma série de reformas com o intuito de “aperfeiçoar” o modelo socialista cubano, cuja economia fora seriamente abalada em 1991, quando a União Soviética, superpotência dominante do campo socialista, foi derrotada na Guerra Fria. Tal processo, ao romper laços comerciais e de cooperação fundamentais, construídos ao longo de décadas, fez com que o PIB da ilha caribenha caísse bruscamente.

O fôlego produtivo seria retomado apenas em meados dos anos 1990, momento em que a economia do país passa a se ampliar de modo constante. A partir de 2000, o crescimento se estabiliza em um bom patamar, por volta de 4% ou 5%, tendo atingindo seu pico (de 11%) em 2006 — ano em que Raúl assume interinamente o poder.

Em fins de 2008, contudo, há uma devastação natural no país, causada por uma série de furacões. O governo (agora pleno) de Raúl decide então modificar sua política agrária, concedendo aos agricultores o usufruto de diversas terras cultiváveis estatais – a maior parte para fins de produção de alimentos.

Vale lembrar que por estes tempos (2007/2008), como resultado da financeirização da agricultura e expansão do agronegócio (levada a cabo pelo capitalismo em crise estrutural, que em busca de adiar seu declínio avança sobre novos mercados), ocorre a crise dos preços dos alimentos – fenômeno que lança à fome um número trágico e jamais visto na história de um bilhão de seres humanos, segundo a ONU. Em Cuba a situação volta a apertar, mas não se passa fome.

No ano de 2010, o empreendedorismo passa a ser estimulado, com o objetivo de diminuir os empregos públicos (que até então eram 80% dos postos de trabalho do país). São liberadas à iniciativa privada mais de uma centena de atividades antes estatais (caso de pequenos negócios, oficinas, cabeleireiros ou restaurantes, por exemplo, dentre outros ofícios de bens e serviços não estratégicos – que, portanto, não ameaçam a soberania nacional).

Nos anos seguintes, já sob os efeitos daninhos da crise econômica de 2008 que se espalha desde os EUA, o governo amplia as reformas econômicas, no intuito de diminuir as atribuições do Estado – embora sempre mantendo sua função planificadora da economia, e em especial, sua atenção às parcelas mais vulneráveis da população. É o caso da autorização de investimentos externos, proposto como forma de aquecer a economia e melhorar a infraestrutura (neste contexto, o governo Dilma construiria na ilha o moderno Porto de Mariel, em uma das melhores cartadas geopolíticas anti-hegemônicas do lulismo).

Em 2016, com a sabotagem criminosa da economia venezuelana, a partir de pressão econômica, militar e sanções dos EUA (e também dada a crise geral das economias latino-americanas – Brasil, Argentina – região com quem Cuba estreitara relações na última década), o país novamente se vê ameaçado pela recessão.

Isto se dá, vale reiterar, no bojo da guerra de “baixa intensidade” movida por Washington por toda a América, como forma de retomar seu protagonismo – que declinava no mundo, mas em especial no continente, após uma década de governos reformistas relativamente autônomos; este processo culminaria na desorganização produtiva da Venezuela, bem como nos golpes de Estado do Brasil, Paraguai, Honduras, dentre outros tantos golpes “suaves” ou nem tão suaves assim (tratei do tema no artigo “El neogolpismo en la América del siglo XXI”/ www.alainet.org/es/articulo/191739).

Novas eleições

O nome que desponta como favorito à presidência cubana é o do ex-professor universitário e engenheiro Miguel Díaz-Canel, que foi Primeiro-Secretário do Partido Comunista em duas importantes províncias do país, e obteve grande reconhecimento político com sua atuação na formação de inúmeros quadros do Partido.

Díaz-Canel, um amante do roquenrol de 57 anos, construiu sua sólida carreira política com vagar e constância, durante um quarto de século. Em seus governos provinciais promoveu reformas culturais de peso, tais como a promoção da visibilidade transgênero – tema outrora sensível no país (e que inclusive levou o próprio Fidel a um pedido público de desculpas à comunidade LGBT, em nome da Revolução).

Em 2009, Díaz tornou-se Ministro da Educação Superior (sim, em Cuba a educação universitária tem até um ministério, ao contrário daqui, em que nossos parlamentares bananeiros tentam tratorar o fim dos cursos críticos de humanidades nas universidades públicas, o que legaria o progresso científico como um todo ao desgoverno da falta de um “sentido” nacional).

Prosseguindo em sua ascensão, em 2013 Díaz foi eleito para o cargo de primeiro-vice-presidente do Conselho de Estado – segundo cargo mais importante da democracia cubana -, posto político que o projetou nacionalmente, e que ele ocupa desde então.

Segundo Rafael Hernández, diretor da renomada revista cubana de cultura e política Temas, desde a época em que governou a província de Villa Clara, Díaz é conhecido por sua “capacidade de se relacionar com a gente do povo” e por seu “estilo modesto”, além de ter aptidão para o “trabalho em equipe” – característica esta que se tornou um emblema do governo cubano desde a ascensão de Raúl.

Apesar de aparentemente haver um relativo consenso na Assembleia, será preciso, entretanto, aguardar os resultados do pleito, para se poder constatar o percentual do apoio e força do primeiro presidente cubano que não lutou na Revolução de 1959.

Tarefas para o novo presidente

O próximo presidente cubano será eleito para o período 2018-2023, tendo como desafios manter a recuperação da economia cubana, que paulatinamente vem se reerguendo há mais de duas décadas – desde o baque sofrido com a queda soviética. Esta retomada, como mencionado, foi dificultada quando em 2008 o coração do capitalismo era atingido pela crise econômica estrutural, fenômeno que pouco a pouco derrubaria a todas as economias periféricas do mundo, afetando importantes parceiros de Cuba, como o Brasil e a Venezuela.

Díaz-Canel, na recente eleição parlamentar de março, declarou que Cuba vive um momento difícil, no qual “a Revolução está sendo atacada” pelo regime de Donald Trump, líder reacionário extremista que fez regredir em pouco tempo a pequena melhora de relações obtidas no governo anterior (de Obama) – retomando a “retórica de Guerra Fria”.

Aliás, ao que parece, a volta da “guerra indireta” entre grandes potências não se trata somente de “retórica”. De fato, desde a eleição do desequilibrado magnata, o império estadunidense vem dando mostras desesperadas de tentar reaver seu monopólio geopolítico perdido na última década (especialmente desde 2008, com a crise que abalou gravemente suas estruturas, inclusive o orçamento militar).

Em paralelo a isso, o que se observou foi tanto a ascensão geopolítica e econômica da Rússia (que sob a era Putin, governo estatizante e planificador, reergueu sua economia e seu aparato bélico), como também da China, que já há tempos se mostra como a nova superpotência do século XXI (tendo explicitado na última década suas pretensões de deixar de ser uma potência asiática, e passando a influenciar todo o mundo – fato que se escancara agora com seu megaprojeto da nova Rota da Seda).

Assim, se os EUA voltam – de novo – a pressionar Cuba, piorando seus embargos de sabotagem econômica, a realidade hoje, porém, está um pouco diferente, e exigirá mais cuidados por parte do antes absoluto Império do Norte.

É o que se pôde notar no recente ataque “pontual” contra a Síria – onda isolada de bombardeios divulgados soberbamente como “missão cumprida”, mas que não obteve danos táticos efetivos, e não provocou mortes de “estrangeiros” (para bom entendedor: “mortes de russos” – o que poderia derivar em retaliação e escalada bélica). Deste modo, o ataque “de precisão” de Trump e seus sub-aliados nucleares franco-britânicos se demonstrou um gesto bastante cauteloso, cuja mensagem – embora seja abertamente a de “continuamos no comando”- nas entrelinhas deixa vislumbrar que o excesso de precaução atual se deve a que o declínio econômico dos EUA já derivou em perda substancial de superioridade militar, hoje francamente ameaçada pela aliança euroasiática sino-russa (união que se acelera a cada conflito comercial ou ameaça da OTAN).


Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum